Prouni e SISU, ou MEC x Unifesp x Univap

Que o ENEM e todas as suas consequências criam rolos anuais e enchem as páginas impressas e virtuais, não é novidade para ninguém. O que é novo, pelo menos pra mim, é vivenciar um desses quadros bem de perto. O quão próximo? Quase comigo: com minha namorada. Eis sumariamente o caso.

Ela prestou o ENEM, com o intuito de poder cursar sua almejada faculdade de moda sem ter que pagar uma mensalidade como se ganhasse como uma estilista internacional. So far, so good. Com o resultado, ela pôde se inscrever no SISU e no Prouni. Na disputa por uma vaga nas federais, não havia um curso de moda disponível a uma distância aceitável (RS é inviável, partindo-se de Pindamonhangaba/SP), e por essa razão ela optou por abranger sua formação inicial de licenciatura em artes, tendo como 1a opção História da Arte e, como 2a, Pedagogia, ambas na Unifesp Guarulhos. Na luta por uma bolsa nas particulares, optou pelo curso de Moda na Univap de São José dos Campos e, caso não conseguisse, Artes Visuais, na mesma escola.

O resultado do SISU saiu primeiro, como noticiado na mídia, com sua aprovação em Pedagogia, e o prazo para matrícula se encerrava antes da divulgação das contemplações das bolsas do Prouni. Ela foi orientada, tanto pelo MEC quanto pela secretaria de alunos da EFLCH-Unifesp, a cancelar sua matrícula caso conquistasse o Prouni e optasse por ele, e deveria tomar essa ação antes de se apresentar na Univap.

Dito e feito. Contemplada com bolsa integral para a única vaga oferecida no curso de Moda, confirmou com o MEC e a Univap que deveria cancelar sua matrícula em Pedagogia antes de se apresentar com a documentação. E começam os problemas: algumas ligações depois, finalmente a Univap informa que não abriria turma de Moda este ano. Em nova ligação ao MEC, foi informada de que isso não era possível, que, se a universidade ofereceu a vaga de bolsa, não poderia não formar turma, e que a contemplação se caracterizava como um direito dela. O ministério também orientou ir à escola (uma viagem de uns 50km) e exigir o direito, ou abrir uma ocorrência em um suposto agente fiscalizador do Prouni na unidade de ensino.

Na escola, a assistente social contou outra história: a instituição de ensino oferece um número de bolsas estabelecido pelo próprio MEC com base nas matrículas no curso do ano anterior, podendo ocorrer de, no ano vigente, não conseguir um mínimo de alunos para formar turma. Nesse fatídico caso, o aluno contemplado é considerado reprovado, podendo, se quiser, concorrer à sua segunda opção, que também não é garantida.

No impasse das informações conflitantes, vejo duas situações: ou o MEC está certo, e a Univap deve uma vaga de Moda, ou a Univap está certa, e o MEC a orientou erroneamente, levando-a a perder a vaga de Pedagogia. De qualquer forma, eis um caso de lesão à candidata, disponível para meios de informação que aceitarem a denúncia e se dispuserem a ajudar.

André

Algoritmo

“Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, (…) destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.”

Longe de mim querer criar aqui um capítulo de autoajuda, mesmo porque duvido que conseguiria ganhar o que esses autores faturam com suas proposições altruístas, de resultados verdadeiramente cristãos. Mas se há algo que de fato nos incomoda é termos que sanar uma dúvida acerca de tomar uma decisão, seja em qual campo de nossas vidas ela esteja.

“Invisto naquelas ações?”, “Tomo mais uma cerveja?”, “Chamo aquela pessoa pra sair?”, “Acredito que este pedinte está realmente com fome?”, “Peço aumento?”, “Fico mais um pouco na internet?” etc. são algumas das questões aflitivas que podem consumir minutos preciosos do tempo dos mais cautos até que suas indecisões se resolvam.

E como resolvê-las? Especialistas dizem que devemos embasá-las nas questões mais relevantes, e que cada caso é um caso. Deveras vago pra quem se diz especialista, na minha humilde opinião. Mas, também, o que em administrês não é vago e soa como óbvio? Pois bem, para as dúvidas que podem ser formuladas em termos de “sim” e “não” como respostas, ocorreu-me um algoritmo simples para tomada de decisões. Quem sabe, no futuro, ele não possa ser conhecido como dispositivo prático de André? E, assim, lembrariam de mim nas aulas de polinômios, e de Briot-Ruffini nas aulas de filosofia. “Mas não antecipemos os sucessos; acabemos de uma vez com o nosso” algoritmo.

Diante da incerteza, responda às seguintes três perguntas. Obtendo, pelo menos, dois “sim”, faça. Eis as perguntas:

1 – Você precisa?

2 – Você quer?

3 – Você pode?

Por “precisar”, refiro-me à verdadeira necessidade de realizar a tarefa, que tende a ser “sim” para obrigações (“Vou ao trabalho hoje?”) e “não” para caprichos (“Compro aquele iPad?”).

Por “querer”, refiro-me ao desejo intrínseco de realizar a atividade. Obviamente, as tendências são exatamente opostas às de precisar, e precisamente isso é que nos gera a angústia da decisão.

Por “poder”, refiro-me às condições de realizar a atividade, em seu caráter mais amplo. Há impedimentos físicos, sanitários, monetários, temporais, morais ou de qualquer outra ordem?

Notem a importância das respostas serem dadas de forma consciente, para que a decisão, que sai de forma automática, não os frustre e meu inocente protocolo seja culpado pela temeridade de vocês. Tenha certeza de que você realmente quer aquele sapato, e de que tem tempo, dinheiro e, claro, pés para adquiri-lo, caso não precise aumentar a coleção na sua sapateira.

Notem também que a indolência, se fortemente combatida em alguns casos (“Não quer fazer o relatório? Pois bem, mas tem que fazer e não tem nada que te impeça agora. Deixa de preguiça!”), é amplamente estimulada em outros (“Banho?! Não vou sair hoje e não tô afim. Foda-se que tenha água e sabão lá no banheiro!”), de modo que me posiciono entre o céu e o inferno ao divulgar o algoritmo.

Conste aqui, como referência histórica, a centelha inspiradora desse dispositivo: seu embrião foi concebido há uns anos, para saber se eu mataria aula num certo dia de gripe forte. Eu precisava estar lá, mas não queria; foi a febre que me tirou as condições de ir. Se ela estava forte a ponto de ter influenciado essa criação, nunca saberei. Mas alguns testes que uns poucos e eu fizemos demonstraram segurança na aplicação, de modo que a publicação tem por finalidade, também, a propagação da ideia como um grande experimento.

Por isso, além do desejo de sucessos a quem a utilizar, deixo também o pedido de me retornarem os resultados, por gentileza, especialmente se o tempo gasto para responder for inferior ao economizado no momento de decisão.

André

Antivoto

Este será um post curto. Como de costume, ele parte de algo da minha personalidade que tenta ser extrapolado para algo geral, preferencialmente útil. Então, conste que sou uma pessoa bastante flexível, apenas não gosto que me contrariem. Apesar do humor implícito, tem uma pitada de verdade: em geral, costumo me abster de posicionamentos. Digo isso para casos mais simples, cotidianos, e, por isso mesmo, mais numerosos. “Onde vamos comer?”, “Em que brinquedo do parque você quer ir agora?”, “Que sabor de pizza você quer?” etc., são algumas das perguntas que recebem um “Qual você(s) quer(em)?” da minha parte, mesmo eu sabendo que somente os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta.

Isso porque, dentro de certo universo de escolhas, elas têm o mesmo peso pra mim, então prefiro deixar que escolham aqueles que de fato têm preferência por alguma delas. Só faço questão do direito de veto, que é a parte “não gosto que me contrariem”, geralmente usada quando saem daquele universo de equivalência (“Contanto que não peçam pizza de peixe ou fungo, por mim tudo bem.”).

E eis que acho que o mesmo veto deveria ser inserido na nossa democracia: deveríamos ter o direito de dizer quem não queremos no poder. A isso dei o nome de antivoto. Cada cidadão deveria ter direito, além de a um voto, a um antivoto, que reduziria em uma unidade a contagem do candidato desafeto. O recurso seria inválido (senão inútil) quando se escolhe apenas entre dois candidatos, afinal, escolher um já é dizer que não quer o outro. Mas, quando se tem mais opções, não raro, algumas, além da selecionada, são mais toleráveis que outras.

Posso voltar ao modelo da pizza: entre calabresa (C), mussarela (M) e aliche (A), eu opto pela de queijo (M+1). Mas não teria problemas com a calabra. Só pelo amor de deus não me deem a de peixe pra comer! (C0; M+1; A-1). Algum sufragista calabrês poderia ter a mesma aversão alíchea (C+1; M+1; A-2). Com um terceiro voto, agora de um ictívoro, a contagem positiva estaria empatada (C+1; M+1; A+1); independentemente de por qual sabor este tenha asco (suponhamos pela mussa = M-1), os antivotos impediriam a escolha píscea (C+1; M+1-1; A+1-2). Ganhando a calabresa, com 1 ponto, contra 0 da mussarela e -1 do aliche, um ficaria feliz, enquanto dois pensariam “Menos mal.” Parece melhor do que depender de um voto de Minerva que poderia desempatar a eleição excluindo da mesa dois comedores em prol do aliche, no pior cenário.

Assim, talvez, conseguiríamos combater a eleição de tantos Sarneys e Tiriticas. Os eleitores conscientes, ao votarem em seu candidato, antivotam em seguida nos ultrajantes. E, ainda que com ideologias políticas divergentes, diversos sérios estarão unidos contra a palhaçada. Fica a dica.

André

Nerd Metal

Primeiramente, esse post é dedicado às Garotas Nerds e, principalmente, à minha amiga virtual Pikachu.

Segundamente, e agora desenvolvo, uma das coisas que amo é o metal, mas acho que isso já ficou claro na saga Amor no Metal. Só que metal é um gênero bastante abrangente, hoje em dia, a ponto de diversos aplicativos, sites e fotos fazerem até brincadeira com os vários subestilos (um dos meus preferidos é o Map of Metal). Então, dentre esses, quais são meus metais favoritos?

Poderia citar o progressivo, o power, o gótico e o sinfônico. Na verdade, não são propriamente os estilos que me fascinam. Sim, digo que gosto deles porque, via de regra, as características das bandas pertencentes a cada categoria me agradam, mas o fazem mais porque repetem as coisas que me chamaram a atenção nas minhas bandas favoritas, e essas são fáceis de enumerar, embora não poucas. Ou seja, digo que gosto dessas vertentes de uma forma retrospectiva, vendo primeiro quais bandas curto para depois ver em qual grupo elas estão, sendo fã, portanto, do estilo.

Só que até agora apenas girei em torno da questão do ovo e da galinha. O que diabo há nessas bandas que me faz gostar delas? Depois de refletir algum tempo, consegui achar o denominador comum, a regra geral que faz até com que outros tipos de metal aparentemente nada a ver entrem na dança agradando tanto quanto seus parentes listados, como é o caso do Sepultura. Gosto das músicas nerds!

E não me refiro aqui ao conceito pop de nerdice. Sim, posso falar das sagas das Enchanted Lands do Rhapsody Of Fire, no bolo dos RPG’s a la Senhor dos Anéis, ou do fascínio por tecnologia com criação de ficções científicas, como o álbum Iconoclast do Symphony X, a la The Matrix. Mas há um conceito nerd mais amplo, o espírito nerd per se: a paixão pelas coisas inteligentes, de beleza não necessariamente imediata e que requer uma cavoucada para ser exposta e dar o prazer de exclusividade em entendê-la. Ela engloba os outros dois, classicamente repudiados pela mainstream, mas que exigem massa cinzenta para ser apreciada (isso já está virando uma grande teoria dos conjuntos).

De posse dessa nerdice, descobri, por exemplo, que gosto muito da técnica empregada nas composições, afinal é preciso muito estudo para conseguir tocar determinadas coisas, e algum para compreendê-las no emaranhado de sons. Isso explica parte da predileção por prog metal (como Dream Theater, Symphony X, Pain Of Salvation e MindFlow), afinal, é o que de mais refinado há no metal.

Há também o mar de referências, que mostra que os músicos se empenharam em estudar sobre o que eles iriam tocar, ou que aquilo já era bagagem cultural deles, ambos os casos igualmente louváveis. É aqui que mais me delicio, mas deixarei como teaser apenas as releituras de grandes epopeias da humanidade, um tipo de literatura que, como já dito também, figura no meu hall de best of.

Em ordem cronológica (do surgimento da fonte, não da música), a Ilíada foi trabalhada pelo Blind Guardian, a Odisseia pelo Symphony X e a Eneida pelo Power Symphony, banda que também louvou sua conterrânea Comédia, assim como o Sepultura. O Paraíso Perdido foi também cantado pelo Symphony X, em mais de uma ocasião (primeiro em uma música e, futuramente, em um álbum completo), ao passo que o Fausto frutificou dois álbuns completos do Kamelot. Ficaram faltando Os Lusíadas, se alguma banda lusófona quiser ter a grande honra, e minha Lupíada, quem sabe um dia acabada e cantada por mim?

O dedo coça para elencar outras citações, mas prometi me conter nos teasers. Fiquem sabendo, para atiçar a curiosidade, que há músicas sobre Tolkien, Laranja Mecânica, Alice Através do Espelho (por que se restringir ao famigerado País das Maravilhas?), Atlântida, Bela e a Fera, Alexandre, a diáspora hebraica, fundamentalismo e muitos outros temas. Se não por nada, encontrar uma referência em uma música de uma banda de que se é fã é sempre uma forte motivação a ver os livros, filmes etc. que a inspiraram, cumprindo até um papel social em aumentar nossa cultura (já que hoje tudo tem que ter a maldita sustentabilidade, né?)

A extrapolação do conceito referencial surge nas Ópera Rocks, outra grande característica do nerd metal, com um álbum contando uma história, ou vários álbuns dedicados ao desenlace de uma saga (nesse ponto, Rhapsody Of Fire é campeã). Às vezes, vários álbuns contêm músicas que constroem outra narrativa, como a Twelve-step Suite do Dream Theater (ou seria só do Portnoy, agora?), ou a Embrace That Smothers do Mark Jansen, levada do After Forever para o Epica. E, com tudo isso, vamos reconhecendo as “parts” numeradas delas, criando playlists para poder ouvir a sequência completa. Um prato cheio pra se desenvolver TOC.

Por fim, os clássicos (Black Sabbath, Ozzy, Dio, Iron Maiden, Deep Purple, Motörhead, Metallica, AC/DC e toda a cia de tiozões headbangers). Não são enormemente elaborados tecnicamente, nem surgiram num contexto de músicos nerds lidos e escolados (na verdade, eram bem selvagens, sujos, burros, bêbados e drogados), mas a História os manteve vivos sobre todos os seus contemporâneos, e por isso os conhecemos (os que não somos tão velhos, claro). Como um bom Machado (de Assis, não do Manowar), que se sobressaiu entre os demais escritores de sua época e chegou a nós por ser muito bom, a mera existência dessas bandas é motivo para gostar delas, uma vez que se gosta de metal. Fora que sempre é possível nerdizar sobre as suas influências históricas e classificações que derivaram delas.

André

Gato e sapato revisited

Este será uma republicação de um post que escrevi em um finado blog. Mas, como hoje é do dia dos animais, achei que valia trazê-lo pra cá devido ao tema, que é o estímulo da posse responsável de animais. Sobre minha pessoa, fiquem cientes da minha profissão veterinária, e de que não sou adepto de escrever e falar sobre o que sempre falam, e da forma que sempre falam.

Ainda assim, é um assunto que acho que vale a pena ser tratado, então não esperem muita complacência, pois tenho que compensar a ordinariedade do conteúdo na forma. E começo por dizer que as pessoas, quais minhas palavras iniciais, optam por adquirirem (escreveria “adotarem”, mas muitas compram, e essa é uma distinção que não cabe aqui; não no parágrafo, pelo menos) um animal de estimação, seja um cão, um gato, um ferret, um tucano, um porco, ou até um namorado (não, namorado não…) nos ímpetos desencadeados pela fofura dos bichinhos e prolactina liberada por isso. Mas, sem um devido planejamento, podem perder o interesse por eles, tão logo cresçam, destruam coisas, reproduzam-se, ou os donos inconsequentes descubram que não têm as condições financeiras necessárias, ou simplesmente enjoem. E mais um animal habitará as ruas.

Alguns cães ainda encontrarão refúgio sob carroças de mendigos, e os defenderão melhor que pastores das placas “Cuidado, cão bravo”. Mas e os gatos, tucanos e porcos? E os vários filhotes, ensacados e lançados ao rio ou uma via movimentada? Apenas alguns dos fins possíveis pela irresponsabilidade dos donos. Claro, nem todos os casos advêm de pessoas más; como costumo defender, as pessoas boazinhas são tão ou mais passíveis de cometerem atos de maldade.

Suponhamos uma bondosa alma que, não podendo adotar um cão da rua, resolve, pelo menos, garantir sua alimentação e algum carinho, sem efetivamente domiciliá-lo. Ela não sabe que um cão semi-domiciliado (o “cachorro da vizinhança”), por ter alimentação e certos cuidados médico-veterinários, porém sem restrição física, passa a ter uma taxa reprodutiva altíssima, gerando filhotes que engrossarão a camada dos cães não domiciliados, que nada mais são do que aqueles que nos matam de dó, por viverem doentes, em magreza e subnutrição subsaarianas, com baixíssima expectativa de vida. Resumindo uma aula de Epidemiologia em uma frase: Em sua bondade, a pessoa, ao ajudar um cão, condenou outros dez à completa miséria.

Concordo que a sensação de escravidão, associada com as obrigações inerentes a se ter um pet, quando descoberta já dentro da situação, pode acabar com o prazer de criá-lo. Mas o quão diferente ela é dos compromissos com um filho? Por essa razão, a falta de responsabilidade não se justifica. Então, o primeiro passo ao se pensar em adquirir um animal é: parta do princípio de não tê-lo. Depois, exclua uma a uma as razões para isso. Se conseguir, aí, sim, poderá ir atrás do seu bichinho.

Ou seus bichinhos… “Hum… quantos?” Uma conta bem simples pode ser feita da seguinte forma: Quantos filhos você pode criar decentemente? “X.” E quantos filhos você pretende ter? “Hum… Y!” Bem, poderá ter X-Y pets. “Mas e se eu quiser ter o mesmo número de filhos que eu puder criar??” Aí, X=Y, portanto X-Y=0, e você não pode ser um proprietário de animais de companhia. “Mas eu não tenho condições de ter nenhum filho!!! Não posso ter um gatinho pra me fazer companhia no meu cafofo?” Não, sorry. “Mas eu não posso criar nenhum filho e já tenho dois!” É, sua irresponsabilidade já está além da questão da posse animal.

Ter um animal é ter um filho. Tem que ser assim. Os cuidados de alimentação, saúde, educação e carinho não divergem nada do que se faz com um bebê. Aliás, são mais delicados, porque facilmente os proprietários projetam seus ricos e sábios valores humanos em seus companheiros de quatro patas (ou duas asas, ou nadadeiras, ou o que for). Dois exemplos típicos são a alimentação (“Ah, mas ele gosta tanto de pizza de gorgonzola com chocolate! Maldade ficar só comendo aquela ração ruim!”) e a esterilização (“Castrar o coitado?! Mas ele não pode nem se divertir dando umazinha?”)

Estudiosos do mundo se matam para fazer pesquisas que determinem as necessidades nutricionais de seus amiguinhos, e indústrias investem milhões em formulações que garantam esses níveis. Eu, que tive que estudá-los, não tenho cacife para contestá-los. Por que você, em sua ignorância leiga baseada nos próprios e emotivos valores relativos e inconstantes, acha que tem o direito de complementar a dieta balanceada do seu animal?

Adenocarcinoma mamário (“tumor de mama”), hiperplasia prostática benigna, adenocarcinoma prostático (já conseguem inferir, né?), doenças infecciosas sexualmente transmissíveis, filhotes indesejados, aumento da população de cães e gatos errantes e, consequentemente, maior risco de doenças como raiva, leishmaniose, toxoplasmose etc., e de acidentes com agressões, inclusive do seu bichinho. São algumas consequências de um animal inteiro (não castrado). Se você não é um criador oficial, castre seu companheiro.

“Ah, mas assim ele é mais feliz!” (resposta que vale para os dois parágrafos anteriores) Se seu filho fosse… ou melhor, quando seu filho for um viciado em crack, certamente ele ficará mais feliz quando você vier com uma pedra para ele no dia das crianças. Mas isso é o melhor, quando você é a pessoa responsável por ela? Essa sensação que o(a) leitor(a) acabou de ter é a chave da posse responsável.

Fora os cuidados com a saúde. Não é uma propaganda para aumentar meu serviço, até porque nem atuo na área de animais de companhia, mas é preciso saber, antes de se adquirir um pet, que será preciso levá-lo ao veterinário com frequência maior até do que a que você vai em médicos, ou leva seus Y filhos. Isso porque ele não só não sabe explicar os sintomas que possui, como os apresenta de forma diferente da nossa, e tem um metabolismo particular da espécie, que faz com que muitos dos tratamentos caseiros a que submetemos nossos rebentos piorem os quadros (nota: nunca, NUNCA, never ever! dê Tylenol para seu gato!). Vale lembrar que a medicina veterinária não tem SUS, nem convênios difundidos na escala da medicina humana.

Se você chegou até aqui, e já pensou duas vezes se quer mesmo aquela fofura de estimação, a derradeira: considere todos esses aspectos em uma linha de tempo de uns 15 anos ou mais. De posse dessas novas informações, espero ter filtrado muitas intenções. Não é uma questão de crueldade, mas de responsabilidade. Porsches não são para todos, faculdades não são para todos (se todos se formarem engenheiros, vamos ter engenheiros trabalhando de pedreiros), filhos não são para todos. É triste, mas animais de estimação também não são. Quer dizer, pra eles não é triste.

Por fim, aos que constataram poder ter seus mascotes, acho que se faz válida uma discussão sobre a aquisição via compra, ou adoção. Não é, a partir daqui, uma análise técnica, mas uma opinião. Adotem. Há, sim, a questão do grande número de animais abandonados por quem não teve a sorte de ler essas palavras antes da decisão de tê-los, recolhidos pelos centros de controles de zoonoses e abrigos, e que aguardam sacrifício caso ninguém os queira (afinal, ainda há a questão de saúde pública). Mas isso é sabido, não tendo, portanto, influência maior nesse texto do que já tem na sociedade.

Mas há a questão do amor pelo bicho, que se manifesta na interação com o indivíduo, na sensação pessoal. Isso é fundamentalmente diferente de se escolher o pet por uma ficha cadastral, como um processo seletivo para um empregado, ou uma sessão de compras numa grife de sapatos. Perguntem a casais que não conseguem engravidar, e optam pela adoção de crianças, se eles as escolhem assim, ou pelo relacionamento afetivo que nasce junto a quem precisa deles. ”Ah, eu queria um gato marrom, de tamanho médio.” “Desculpe-nos, senhora. Os nossos marrons já acabaram. Mas nesse tamanho temos um branquinho que talvez a agrade.”

André

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