A casa de Matacavalos

Tenho mais redes sociais do que dou conta de administrar. Aliás, mais do que dou conta de lembrar. Aliás, mais contas do que só redes sociais: onde há uma ficha de inscrição gratuita na internet, há boas chances de um milordandy estar cadastrado em meu nome.

Talvez eu seja um pouco early adopter, não fanático por contar vantagem delas, mas pelo experimentalismo. Se a conta vai vingar ou não, depende muito da sua usabilidade em função do momento em que vivo no ato da assinatura. No caso das redes sociais, ainda, depende de ter um círculo social nelas com que possa conviver para testar suas ferramentas.

Nessa semana, descobri a Alvanista, uma rede social brasileira voltada para o mundo dos games. Encontrei-a depois de pensar que seria muito legal uma rede de jogos nos moldes do que a Skoob é para os livros, para poder marcar o que já joguei, o que terminei, o que tenho e tive, e ter amigos para poder comparar as marcações e tal.

Além da mecânica, as duas redes ainda são muito parecidas em outro aspecto: são menos imediatistas, e mais baseadas no passado do usuário. Claro, eu postei que estou a ler A Tormenta de Espadas e que quero jogar Assassin’s Creed, mas a frequência com que uma ação presente ou futura pode aparecer na timeline é muito menos intensa do que contar “o que está pensando” ou mostrar tudo o que se come em fotos sépia.

E como mexer no passado com ferramentas tecnológicas atuais cutuca o saudosismo direto no centro da recompensa, né? Quero conhecer novas pessoas no Alvanista e usá-lo como minha fonte de informações para novidades e tomada de decisões sobre jogos, sim, mas, mais que tudo, eu me descubro ansioso para que as pessoas com quem cresci jogando (horas a fio!!) participem da rede comigo!

“Por quê?”, minha racionalidade me indaga com seu fervor por causalidade. Minha convivência com essas pessoas não deve se alterar por nos esbarrarmos nos assuntos comuns tão caros a nós outrora (com algumas mantenho contato frequente e de corpo presente). Mas ver numa outra timeline o mesmo Mortal Kombat que eu marquei na minha dá a sensação da metonímia que aprendi naquela época: o jogo da franquia pelo cartucho de casa.

“Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.” Sinto falta daqueles tempos. Não queria, entretanto, revivê-los. Talvez apenas que aqueles aspectos bons da jogatina pudessem se fazer mais presentes, durante conversas de autoanálise ou ajuda aos convivas, ou mesmo de amenidades inertes, tudo atualizado aos temas atuais. Queria, em suma, usufruir mais das minhas amizades de sempre, pois que me consolo de menos desse tipo de perda.

Se as capas dos jogos estampados nas paredes virtuais não alcançam reconstituir-me os idos tempos, que pegar da pena possa incitar os amigos a recriar a ilusão.

André

Que trata de viagens, metafísica, espiritismo, Matrix, Mundo de Sofia, Lobsang Rampa, “e se”‘s e dá outras providências

Não sou a pessoa mais espiritualizada do mundo, mas gosto de aprender a dinâmica das crenças das pessoas. Quando não acrescenta mais nada, pelo menos serve de base para algum tipo de humor. Por exemplo, não existe maior pagão que um bom católico: ele trata imagens como se fossem as próprias entidades celestinas nas quais acredita (ou alguém realmente já parou pra pensar que o @SantoAntônioOficial, o lá de cima, não deve passar frio nem se afogar quando as solteironas inconformadas castigam suas estatuetas?), faz sinais, entoa mantras, acende velas, negocia sacrifícios e ritualiza um canibalismo do seu salvador (comer o corpo e beber o sangue? really?!).

Fora os símbolos: por que tanta gente usa brincos, anéis, pingentes, piercings, tatuagens etc. da cruz?! “A cruz é pra nos lembrar do sacrifício que Ele fez por nós.” Sim, isso eu entendo, e consigo entender as orações contritas perante o Big T, a cruzinha na ponta do terço ou rosário e por aí vai. Mas e os adornos, pelamor? Conseguem imaginar afrodescendentes ostentando grilhões de ouro nos pulsos para se lembrarem dos antepassados que sofreram com escravidão, ou judeus com brincos em forma de Auschwitz 18k cravejados nas baladas, em memória da perseguição de sua fé? É mais ou menos do mesmo jeito que eu, aqui de fora, enxergo. Mas divago…

Aliás, a razão de eu começar a escrever esse post está muito mais relacionada à divagação do que ao humor, o que já deve aliviar os leitores que perceberam por que não me aventuro no mundo dos stand-ups. Então, voltando à ideia de que não sou uma pessoa de grande fé, começo colocando um grande “E se…?” ao assumir a ideia espírita – espiritismo geral, sem rixa sobre se é da umbanda, do candomblé, do budismo, do hinduísmo, do Alan Kardeck, do David Luiz ou de quem for – de que um espírito continua a viver depois que o corpo morre. Acrescento ainda a justificativa dada de que a entidade faz isso porque precisa “evoluir” ou o termo que for que defina uma melhora progressiva de sua existência, reencarnando quantas vezes for necessário até que atinja o nível de XP para passar a um outro plano.

Considerando isso, por que então eles se dão ao trabalho de interagir conosco, ajudando ou atrapalhando? Se for mesmo parte do processo de aprendizado do “lado de lá”, como uma lista de tarefas e preparações de terreno antes de terem que voltar pra campanha terrestre, fico com mais dúvidas do que respostas. Primeiro: se existe essa sucessão de planos, inúmeros de onde viemos e inúmeros para onde vamos, não é petulância antropocêntrica demais achar que estamos no único ponto em que, para a evolução, é possível esse intercâmbio de informações, como galinha e cachaça pela pessoa amada?

Se sim, será razoável pensar que no além-vida as almas também recebam relacionamentos das instâncias superiores? Mais importante, então cadê nossas conversas com os estágios anteriores? E se elas já acontecem, dia após dia, minuto após minuto? E se, cada vez que criamos uma história, damos vida a seres, majores Knag de suas Sofias? Ou, cada vez que interagimos com uma história, por exemplo criticando e cobrando o andamento de uma novela ou série ou desenho, o espírito dos personagens é influenciado por encostos de audiência? Ou, na metafísica de minha fé, jogos e outras programações constantemente sofrem as oscilações de nossos humores olímpicos, matando o Mario para pegar um cogumelo ou alterando a sequência das próximas músicas do setlist no iTunes?

Se algo disso tudo fizer algum sentido, voltemos aos nossos orixás, espíritos de luz e oráculos: será que eles têm consciência do que fazem com a gente? Isso explicaria porque, às vezes, as mensagens carecem de clareza. A menos que, claro, … e se eu viajei demais?

André

Exército – uma opinião

(Caso a ditadura volte um dia, espero ter tempo suficiente para tirar esse post do ar, caso contrário estarei bem ferrado.)

Em tempos de sufrágio, todo mundo é um pouco cientista político, economista, gestor público e adivinho. Eu não escapo à regra, e aproveito o contexto para expressar uma singela opinião sobre o que é, ao meu ver, um dos maiores desperdícios de dinheiro público que temos: o Exército. Digo exército, mas quero dizer as Forças Armadas como um todo, com a marinha e a aeronáutica no pacote.

Em primeiro lugar, temos um Ministério da Defesa, e não um Ministério da Guerra ou um Ministério do Ataque, o que permite supor que os milicos estão aí não para tomar a dianteira em questões geopolíticas, mas sim para manter a paz contra agressões externas. Não obstante, vira e mexe lá se vão os verdinhos para ajudar algum outro país. Não nego a benevolência da ajuda humanitária; ao contrário, acredito que a solidariedade é imprescindível para consertar um pouco do tanto que esse mundão tem de errado. Só acho que um fuzil não é o melhor jeito de socorrer famílias devastadas por terremotos, tsunamis, vulcões e outros flagelos olimpianos. Só falando…

Depois, e isso vem de morar perto de um quartel e acordar aos sustos nos finais de semana com frases ininteligíveis repetidas por um grandão e por grupos de educandos físicos, como “Ei-dou-rei-rei! – EI-DOU-REI-REI! – Nãrudãru-berei! – NÃRUDÃRU-BEREI! – Brasil!! – BRASIL!! – Brasil!! – BRASIL!!”, o que diabos eles estão fazendo aqui?!! O Ministério não é da Defesa? Contra o que eles estão nos defendendo aqui neste fim de mundo?!! Alguns certamente irão argumentar “Oras, eles estão treinando, para o dia que o inimigo vier.” Pelo tanto que vejo esse pessoal correndo, só posso dizer que, num caso de invasão, não tem ninguém mais preparado para fugir do que esses recos magrelos.

E aí você percebe como eles estão espalhados pelas cidades, e isso preocupa. Raciocinemos: se eles devem impedir invasões, por onde seríamos invadidos? Pelos vizinhos, temos as fronteiras terrestres. Por água, as fronteiras marítimas. Pelo ar, vão ter que passar pelas projeções dos outros dois, a menos que seja uma invasão alienígena (fosse o caso, convenhamos: não teríamos a menor chance). Então, melhor seria pegar todo (TODO) esse contingente e espalhar pelas fronteiras. Nas terrestres, o Exército. Nas marítimas, a Marinha. E a Aeronáutica sobrevoando ambas com um auxílio dinâmico de reconhecimento e inteligência. A Marinha e o Exército podem ainda se apoiar na monitoração fluvial da bacia do Amazonas, e outras de interesse estratégico, como locais de usinas. Podem montar postos próximos a plataformas petrolíferas e outras matrizes energéticas. Podem até ter uma guaritinha em Brasília, pela simbologia de defender o centro da União.

Que firmem parcerias com o Ministério da Agricultura, a Receita e a Polícia Federal e o Itamaraty, garantindo segurança na entrada de pessoas, animais e produtos, e prevenindo (ou defendendo de) entrada de drogas, armas, doenças e recursos humanos do crime. Que levem todos os selecionados do alistamento militar obrigatório para treinar nesses locais úteis; eles seriam convocados mesmo se surgisse uma crise. Aqueles alguns lá de cima podem ainda dizer “Mas e nas favelas do Rio? O exército foi importante na vitória contra o tráfico!” Sério que você quer um tanque de guerra passando na sua rua para se sentir protegido? Isso não é só um reflexo do fracasso do sistema policial, que deve ser o único a proteger a segurança pública nos tempos de paz?

Nosso país é gigantesco, vão ter trabalho suficiente para se entreter enquanto nos defendem. A menos que a preocupação seja mesmo estar no meio da população, para SE protegerem. Do povo. De novo.

André

“Alphaness” – a expansão de um conceito

Este post, “se acaso me fizeste o favor de ler” a matéria Tem pegada?, trata da reflexão acerca daquele conceito intangível da pegada feminina. Se tem similaridades, a ideia da qual pretendo tratar agora difere fundamentalmente da outra por ser relativa, e não absoluta.

Explico. Observando o comportamento das minhas gatas, tentando desesperadamente encontrar um veio por onde possa diminuir a hostilidade entre as duas, constatei que a Xena apresenta uma nítida relação de dominância sobre a Selina. Há indícios bastante óbvios, como a postura superior de uma frente ao agachamento da outra, posição das orelhas e da cauda etc. Nada que não se ache digitando “dominância” e o nome de uma espécie qualquer no Google.

Porém, caindo na abstrata névoa não factual, há entre elas alguma forma obscura de comunicação que informa a ocorrência e o desenrolar de uma briga bem antes de qualquer uma iniciar um movimento de ataque ou fuga, mínimo que seja. Uma mudança de cheiros, talvez? Não sei. Olhando em volta, parece-me que temos algo parecido, e a essa característica surgida da interação de dois indivíduos chamei de alphaness, não por uma grande valorização de estrangeirismos, apenas pela praticidade do sufixo -ness e da má sonoridade que “alfalidade” teria. O ph fica por conta estética de não contrastar idiomas.

Andando na rua, cruzamos olhares com outras pessoas. Algumas vezes, o terceiro desvia para baixo a direção dos olhos; por vezes, somos nós que o fazemos. Claro, existem situações extremas, como a de um sujeito mal encarado com duas vezes e meia seu tamanho, que tornam o alphaness bastante evidente, até por uma questão de autopreservação. Mas já passei pelo improvável caso de fazer um grandão se sentir intimidado. Talvez ele só quisesse olhar para o chão para se certificar que não pisaria em nenhum dejeto, não sei… eu mesmo já disfarcei minha submissão assim.

Também percebi essa tendência à dominância em rodas de conversa, antes de um tagarela desembestar a falar ou de um tímido desistir da participação. E não raro já reparei que um mudo do grupo detém o tal alphaness, passando aquela sensação de que nem se importa com o que se debate, enquanto algum desesperado parece o Mort em busca de atenção. A relação transcende as ações dominantes; ao contrário, ocorre antes delas, e acredito que elas surjam apenas como manifestação do que já está estabelecido.

De qualquer forma, o alphaness surge como um ranqueamento instantâneo entre dois ou mais indivíduos potencialmente rivais, de forma instintiva e inconsciente. Por essas característica primitivas, as situações em que aparece podem ser mais amplas do que a mera e ridícula disputa sem prêmios que suponho ter constatado, inclusive entre mulheres e interssexualmente. Já olhou para aquela pessoa que pareceu interessante e, quando ela olhou de volta, seus olhos foram compelidos a cair, não por timidez ou charme, mas pela simples e pura intimidação? É disso que falo, de uma pessoa, de repente, ser o cachorrinho de barriga para cima, sem nada palpável que justifique o ato.

Agora, uma conjectura de ordem prática: sendo o MMA um esporte que ganha cada vez mais fama, nossa rinha humana e último passo antes das arenas com os leões, as apostas movimentam quantidades generosas de dinheiro. Descobrir o alphaness entre dois ou duas participantes do UFC, caso o conceito proceda, é lucrar indefinidamente, ou acabar com a categoria, se o algoritmo se difundir o bastante.

Se as pegadas funcionam mesmo como atrativo, e os alphanesses como repelentes, somos bem menos complexos e mais dependentes dos nossos instintos do que a que os humanistas gostam de nos elevar. Hora das observações de campo.

André

Das conversões e iluminações

Todo mundo tem aquela pessoa conhecida que um dia se converteu a uma religião evangélica, “virou crente”, e agora só sabe falar disso, de como o JC mudou sua vida, de como é mais feliz com o Senhor, de como sua vida passada era errada, de como a vida dos que ainda não tiveram sua chamada é errada, e por aí vai. Ela passa por chata em todo seu antigo círculo social.

O que nem todo mundo percebe é que o crente descrito é só um estereótipo de gente deslumbrada com uma nova fase da vida. Tal como ele, existe muita gente que se converteu ou encontrou a iluminação com as mais diferentes coisas, e é tão chata e insistente com seus bombardeios de empolgação saturante quanto a mais madrugadora das testemunhas de Jeová.

Religiões, ateísmo, filosofias, ciência, pseudociência, política, relacionamentos, sexualidade, esportes, exercícios, dietas, vegetarianismo, baconismo, nerdice, autoajuda, autopiedade, filantropia, trabalho, boemia, viagens, liberdade, solteirice, matrimônio, maternidade, música… entre tantos outros temas. Até dança, acreditam?

Um amigo meu de infância era tão carola que conseguiu me influenciar a fazer metade de um curso de catecismo. A gente até ia à missa juntos durante esse período. Quando eu vi que não era minha praia, ou meu céu, ele continuou. Um pouco maior, ele frequentava até estes grupos de jovens, que sei lá do que se trata. Mas nossa amizade se mantinha igual. Não foi o mesmo quando ele conheceu o tal do zouk, uma dança que todos que não conhecem acham parecida com a salsa. O cara desapareceu, e tudo da vida dele girava em torno dessa seita dançante: falava das meninas que ele conhecia dançando, dos amigos que fez na dança, das músicas novas que conhecia e treinava, dos problemas que surgiam no ambiente em que dançava… Todos os sábados, ele ia a um clube voltado para o gênero. TODOS os sábados! Era seu compromisso mais sagrado, a ponto de faltar em uma comemoração do meu aniversário (niver cair no próprio sabadão pode demorar até 11 anos) para marcar presença no lugar em que ele tinha ido na semana anterior, e em que iria na próxima. E quando eu descobri que ele tinha passado, mais de uma vez, suas férias em cruzeiros de zouk, eu aceitei que tinha sido trocado.

Mais exemplos proliferam no news feed do meu facebook, muitos antagônicos, muitos sinérgicos. Gente iluminada que precisa salvar os animais dá as mãos aos que decidiram não mais comer animais, e anunciam bichos achados, bichos perdidos, bichos estropiados, bichos abatidos,  bichos que escrevem posts, pedem ajuda e agradecem em primeira pessoa, em um ato de inclusão digital extrema. São geralmente combatidos pelos carnívoros, que nada têm contra os defensores sozinhos, mas se negam a curtir as fotos das receitas vegetarianas dos aliados, e postam os mesmos bichos abatidos virando pratos assados, pratos fritos, pratos cozidos, pratos crus, bacon nisso, bacon naquilo. Ganham a simpatia dos comilões sedentários, que informam cada refeição e indolência cardiopática que vivenciam. Contra essa aliança surge nova oposição, a dos esportistas, promotores do bem-estar físico e compartilhadores de todo seu suor fedido e aplicativos para mensurá-lo em mL, km, kcal, kg, cm, pedaladas e números adimensionais de medidas de roupa. Correndo ao lado deles aparecem os naturebas, que podem talvez ser sedentários como os rivais, mas ouvem o canto dos anjos nas refeições coloridas e sem gosto dos produtos ditos naturais (que não possuem tecnécio, promécio, astato, frâncio nem nada com Z>92, suponho), de preferência em porções rarefeitas ingeridas trinta e duas vezes ao dia, após sessenta e quatro mastigações cada, conforme viram nos estudos publicados nas revistas, programas de TV e posts das páginas e blogs de procedência holística, estes por sua vez atacados incessantemente pelos cien-nazis mais obcecados em provar que homeopatia, fitoterapia, cromoterapia, aromaterapia, punhetoterapia, florais de Bach, de Beethoven e de Mussorgsky, medicina ortomolecular, metamolecular, paramolecular, cis-, trans-, d-, l- ou quaisquer outras variações isoméricas da medicina estão erradas, em vez de gastar seus recursos e tempo em algo que pode ser trabalhado positivamente, do mesmo jeito que ateístas, tentando convencer católicos, protestantes, os crentes lá de cima, umbandistas, budistas, xintoístas, hinduístas, cientologistas, espíritas, semitas, sunitas, xiitas etc. de que sua crença na não-existência de um deus está certa sobre a crença deles, fazem, e ainda dizem que os religiosos estão errados ao serem intolerantes e tentarem impor seu Senhor sobre os Senhores e Senhoras dos vizinhos.

Os naturebas ainda espezinham os cientistas ao pregarem uma vida mais próxima à pré-civilizada, com menos remédios, menos cirurgias, e, óbvio, menos doenças, como se alguém em sã consciência quisesse mais doenças. Chamam isso de “mais humana”, e ganham a fidelidade da bancada das mães fanáticas que, depois da orgia de posts exaltando o casamento e todo o trabalho que deu para prepará-lo e como é bom sentir o amor de verdade da vida delas, ou depois de decidirem que nada dessas imposições sociais é necessária e que podem e vão ter quantos filhos quiserem sem ajuda de ninguém, defendem e professam o direito sobre o próprio corpo, sobre parirem como e onde quiserem, com ou sem médicos, com ou sem parteiras, com ou sem curandeiras, com ou sem úte… não, espera. E as crias passam a ser toda a fonte de conversas e registros escritos, fotográficos, sonoros e cinematográficos, tanto das mães quanto dos pais, pois são presentes divinos, de algum dos deuses ou não-deuses anteriormente citados. Tão angelicais quantos os animais de todos os autoproclamados pais e mães de não-humanos que inundam toda a seção de imagens da web. O amor desses donos é tão forte que precisam extravasá-lo em odes positivas e em combate a maus-tratos, aproximando-os dos protetores com que começamos o parágrafo anterior. Aí entram os machões, contra toda essa boiolice e contra a boiolice em si, hostilizados por quem defende a liberdade sexual, odiada por muitos religiosos, que não são os mais queridos dos mesmos machões. E, nessa salada toda, se nem PSDB e PT conseguem decidir direito de qual das coligações citadas dá menos problema se aproximar, quem dirá seus militantes coxinhas e risoles? E meu amigo dançando.

Chega! Mesmo ficar em cima do muro para observar tudo isso vira mais uma exaltação de um modo de vida neutro, quando se dedicam tantas linhas para falar do assunto. Fora todas as categorias em que já me enquadrei ou me enquadro ao longo dessa vida. Por exemplo, o metal! Já falei pra vocês por que o metal é o melhor estilo musical de todos? …………

André

Das listas: depletivos da qualidade de vida

Listas são sempre polêmicas. Esta não será exceção, fruto da pura subjetividade do autor. Por isso, sintam-se à vontade para enriquecê-la ou contrariá-la.

O dia a dia de todos possui altos e baixos, mas existem algumas situações que deterioram imediatamente a qualidade de vida. Não quer dizer que sejam coisas grandes, ou mesmo extremamente importantes, como fome e ignorância, mas muitas vezes besteiras que, quando ocorrem, fazem todo o resto perder importância até que a normalidade seja alcançada. Vamos a alguns itens.

- picada de borrachudo: essa veio em primeiro por ser o que mais me aflige no momento. Levei uma picada no braço, que ficou dormente por cerca de 1h, quente por umas 5hs, e amanheceu dolorido. Precisei de prometazina em creme e em comprimido e de betametasona tópica para controlar;

- torcicolo: você não sabe o quanto usa o pescoço até acordar com ele travado, não é? Não dá pra dirigir, cumprimentar as pessoas, responder quando chamam etc. sem parecer um robô duro que só articula a cintura;

- cólicas: deixo a cargo das leitoras os relatos menstruais e uso aqui o conceito genérico de dor abdominal. Tirando a obviedade de diarreias e disenterias, que são prioridade sobre qualquer coisa, até desarmamento de bombas, ainda há aquelas incômodas constipações e cólicas gasosas. Quem nunca comeu algo suspeito no self-service e se viu depois, no serviço, tendo que segurar uma produção de metano em escala boliviana?;

- dirigir com sono na estrada: faça uma viagem de 200km parecer que tem 1000, quando nem a adrenalina da consciência de que sua morte está a uma pescada ou piscada de distância consegue te manter alerta, e um mundo surreal de alucinações começa a aparecer no limiar entre a vigília e os sonhos;

- dedo do pé machucado: você só descobre que seus pés não são iguais aos da Mônica ou da Magali no dia em que algum dos dedos está machucado, desde a topada no dedinho à unha encravada no dedão. Andar, então, vira uma arte de como não apoiar os malditos no chão;

- coriza: poderia dizer genericamente “nariz entupido”, mas a coriza tem como agravante acabar com a sua dignidade, vazando e fungando, e quando você vê já está com o buço e as mangas da blusa cheios de casquinhas de meleca seca, mas estava em desespero demais tentando respirar para evitar a gafe estética;

- carne presa entre os dentes: daqueles casos em que você só percebe como estava infeliz depois do grande alívio de passar o fio dental e ouvir aquele barulho surdo de “tuc“, quando a meia carcaça da vaca para de empurrar seus dentes para os lados; ponto para você que confere o cheiro dela a essa altura;

- dor de cabeça: todos os sons e luzes do ambiente param o que estão fazendo e focam em apenas uma missão, que é agredir sua já latejante cefaleia, e a única saída é ignorar a aparência de antissocial e sem educação para procurar um local quieto e escuro;

- soluço: uma boa crise de soluços, além de fazer da vítima um alvo de chacotas, ainda deixa um efeito residual terrível; não basta a raiva de soluçar incessantemente, quando finalmente para, você fica com a sensação, quase uma expectativa, à beira da saudade, do próximo “hick-up“, que não vem.

Quase toda lista da internet apresenta itens em múltiplos de 10, mas vou deixar pelos 9 mesmo. E aí, algo a acrescentar?

André

TAG: Um livro para você

Sugestão do blog Frescurinhas.

Se eu tiver que apontar um autor como meu favorito, ou uma obra preferida, sou obrigado a começar por Dante Alighieri e sua Comédia. Não para pagar de culto e intelectual, até porque estou me deliciando, orgulhosamente, com o mainstream Crônicas de Fogo e Gelo, mas porque o trabalho é magnífico mesmo. Para quem não me conhece, não sou uma pessoa de muita fé, e, juntamente com o Paraíso Perdido de Milton, a Comédia conseguiu me cativar em seu mundo cristão sofredor e temente ao deus e seu JC. Há de ser mérito das obras, mais que do assunto.

Em primeiro lugar, como fui me encontrar na floresta escura, muito antes do que é suposto que fosse a metade da minha vida (embora ainda faltem dois a três anos para saber se era de fato o meio dela)? Eis um ponto nada intelectualoide: lendo as HQ’s do Spawn e ouvindo a música Inferno Suite da banda italiana Power Symphony. Metido? Não. Nerd? Provavelmente. Mas, a menos que se queira parecer foda e imaculado, qual o problema em começar a gostar de algo com referências não tão nobres?

Posso transformar esse post em algo “nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra”, se for escrever sobre a vida do florentino Dante. Assumo que você faça a lição de casa em uma aba paralela aberta na wikipedia, caso desconheça a biografia do poeta, mas tenha interesse nela. Conste aqui seu amor pela menina Beatrice e pela política medieval vigente na península italiana da época, e seu respeito por grandes nomes da Antiguidade Clássica, a ponto de escalar o mantuano Virgílio como seu guia em dois terços de seu tour divino. Se esse acompanhamento se dá no enredo, é muito mais forte na forma, dado que o latino foi, por séculos, a maior inspiração poética da humanidade.

Sobre o enredo, também não serei spoiler ou darei a cara a tapa para doutos de plantão sedentos por me apontarem falhas interpretativas. Antes, cito um amigo que resenhou a Comédia na língua dos manos. Aliás, caso alguém esteja se perguntando o porquê de eu citar o livro sempre como “Comédia”, não é por eu ser íntimo da obra ou do autor, ou o chamaria Dandan. Ocorre que este é o nome de batismo do texto, antes da Igreja e dos estudiosos acharem que poderiam renomeá-lo acrescentando o “Divina”.

O que mais me fascina na Divina Comédia é seu poder de descrever toda a sociedade medieval ressaltando seus valores morais e religiosos, condenando a alma de todos os que considerava maus, e inclusive algumas de queridos, mas com ações no currículo passíveis da ira celestial. Se você é daquelas pessoas que preferem aprender psicologia com Machado de Assis ou Shakespeare em vez de Freud, esqueça boa parte do que seus professores da escola falaram sobre Idade Média e leia o livro. Não é uma leitura fácil, tampouco fluida como bestsellers dominam a arte de ser (provavelmente levarei menos tempo para ler todos os livros do George R. R. Martin do que levei para terminar o Paraíso). Mas, apesar das minhas descrenças, fico sempre com aquele pé atrás de “vai que o outro lado seja como ele descreveu”, o que é mais do que qualquer padre ou catequista conseguiu tirar de mim nessa vida.

Dante conseguiu despertar meu amor pela poesia, e me iniciou na leitura dos épicos, a ponto de eu mesmo resolver escrever um, com ele como mestre.

André


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