Philosophiae Naturalis – Teoria do Gostar Puro

“Há muitos anos venho me adestrando no Caminho da Estratégia, chamado Ni Ten Ichi Ryu, e acho que agora posso, pela primeira vez, explicá-lo por escrito.” (Musashi) Embora saiba tanto do manejo das minhas espadas quanto sei da arte de tocar meu baixo, algumas coisas consegui entender sobre o mundo dos sentimentos, iluminado pelo brilho da razão. Não sei se estão certas, mas ao menos fazem sentido suficiente para que eu possa me guiar por elas. Por essa razão, enuncio uma ideia existente apenas em diálogos via MSN.

Considere uma árvore genérica A, situada em um local de abundância de outras árvores semelhantes a ela, como, por exemplo, uma sequoia no Parque das Sequoias. Pense e enumere as características que lhe permitem reconhecê-la como uma árvore do parque. Muito provavelmente, a morfologia resolveu grande parte da questão, uma vez que um tronco espesso, com altura descomunal e suas folhas arranhando os céus foram suficientes para diferenciá-la de esquilos que porventura habitassem a região. Agora, pense nas características que permitem o isolamento desta árvore em relação às suas semelhantes, e você passará a enxergá-la como indivíduo único.

Considere, agora, uma árvore B, com B≠A. Exercendo os mesmos apontamentos de A, conclui-se rapidamente tratarem-se de dois seres distintos. No limite, ainda que B seja um clone de A, criando uma condição ceteris paribus de comparação entre as árvores, você saberá que A ainda é A, e B ainda é B. Nesse momento, pode surgir um argumento de que elas se diferenciam pela posição que ocupam no espaço. Ora, se a pessoa indagadora for vendada, e as árvores trocadas de posição, por mais que ela não mais possa diferenciá-las, A e B fundamentalmente não são as mesmas.

O que nos leva a uma nova etapa (Chupa!): mesmo alterando as características que inicialmente nos permitiram identificar A e B, isso em nada muda quem elas são. Podemos derrubá-las, de modo a levar suas altíssimas folhas a tocar o chão, desfolhá-las, então, e até passar a motosserra nelas, mas A se manteria A (uma destruída A), tal qual B. Disso, parece-me plausível que haja algo em A que independe de suas características, mas que ainda assim permite distingui-la de todas suas companheiras, mesmo as clonadas.

Extrapolando essa ideia para todos os demais seres, animados ou não, em princípio, todos podem ser individualizados por esse algo inerente à sua existência. Chamemos a esse algo de “essência”, que pode, em última análise, ser contabilizada como mais uma característica de um ser (o Totó é um cão, macho, idoso, marrom, bonzinho, e É o Totó, que o diferencia de todos os outros cães com as demais características iguais). Guarde isso!

Vamos ao universo dos relacionamentos. Um local bem mais restrito que nossas divagações generalistas anteriores. Quando nos interessamos por alguém, podemos dizer com facilidade coisas de que gostamos e de que não gostamos nelas. Uma garota, por exemplo, pode adorar o físico de seu namorado, gostar de seus olhos, odiar seus roncos, gostar de seu jeito quando carinhoso, e detestar suas explosões. Até aí, nada surpreendente. O problema é que as pessoas se esquecem da sua opinião sobre TODAS as características do ente amado, e acham que gostam de alguém simplesmente por gostarem, talvez, de um maior número de coisas do que o de que desgostam. Ou, então, por as coisas de que gostam terem um peso maior do que as intragáveis (mera questão de média simples ou ponderada). Nesse modelo de gostar, enxergo algo tão parecido, e mesquinho, como dizer que gosto de alguém por ela ter milhões de dólares (afinal, ser rica é uma característica), ou que a desprezo por ter a unha do mindinho torta. Podem criticar pelo extremismo, mas se trata de gostar ou não das características da pessoa.

Proponho, então, um modelo mais nobre de se gostar de alguém. Retomando a noção de essência de um indivíduo, e a possibilidade de considerá-la, sob alguns aspectos, como uma outra característica do ser, há de se convir que, como tal, ela é passível de análise por parte da opinião (você gosta ou não dos olhos, gosta ou não dos roncos, gosta ou não da essência). Ora, se a essência independe das características do ente, e você pode gostar dela, o que se confunde com gostar do ente em si, não seria esta uma forma de se gostar puramente? Eis remeto o título e enuncio a Teoria do Gostar Puro, numa tentativa de elucidar dúvidas humanas e, assim, facilitar algumas de suas decisões críticas:

Um indivíduo A gosta de um indivíduo B se, e somente se, gostar de sua essência, a despeito de suas demais características, sem, no entanto, obrigatoriedade de prejuízo destas, as quais são analisadas de forma paralela à essência, possibilitando os limites de a) se gostar de uma pessoa apesar de detestar tudo nela, ou de b) se gostar de tudo em alguém, mas simplesmente não suportá-lo.

Fica a lição de casa: Q. “Você está com a pessoa atual por realmente gostar dela, ou porque ela tem coisas de que você gosta muito?”

André

PP (Post post): Não me responsabilizo por términos decorrentes da resolução do exercício!

3 Responses to “<i>Philosophiae Naturalis</i> – Teoria do Gostar Puro”


  1. 1 alexcosmo 07/06/2009 às 10:22 pm

    Cara, perdoe-me se faço um comentário meio desalinhado ao tema do seu texto, mas tinha que encontrar algum espaço que fosse seu, diferente do orkut, para expressar uma admiração específica:
    “Muleque”, você é um gênio no que diz respeito à comunicação, à forma de se expressar! O discordar é possível e, em muitas vezes, e ultimamente, praticamente certo, mas a estruturação das suas palavras me deixa orgulhoso. Se parte das pessoas que convivem comigo tivessem essa habilidade ou se todas as pessoas que convivem comigo tivessem parte dessa habilidade, tenho certeza, seríamos todos textualmente mais felizes.
    Mais uma vez, meus parabéns e deixo aqui um abraço!


  1. 1 Consequências – act I « Andy Moreno’s Blog Trackback em 30/06/2012 às 2:40 am
  2. 2 Consequências – act III « Andy Moreno’s Blog Trackback em 30/06/2012 às 2:53 am

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