Consequências – act I

Depois de estudar e reler minha própria teoria, percebi que ela abre espaço para algumas consequências (ainda é difícil não mais usar o trema; imagino por quanto tempo os colunistas de folhetins demoraram para abolir seus “ph’s”, considerando ainda que, à época, não se era possível receber dezenas de emails encaminhados com arquivos explicativos das mudanças patentes, uma vez que nem o “e” do email era nascido, mas divago…). Na verdade, conforme discorro, penso se são realmente consequências, se são premissas, ou apenas divagações paralelas, galhos brotados da centelha inspiradora que me encaminhou à ideia (também alterada, ortograficamente) do gostar puro.

A primeira delas, e creio ser talvez um caso de premissa, é a imutabilidade da essência de um ser. Se, a despeito das características de uma pessoa, sou capaz de gostar dela, através da sua essência (termo usado para designar aquilo inerente ao indivíduo, alheio às suas características efêmeras, como altura da árvore, ou meu fenótipo com cabelo/sem cabelo), é por essa essência ser a marca maior dessa pessoa, a ponto de defini-la como um ser único. Podem chamá-la alma, espírito, influxo, ou como preferirem; a retórica pouco interessa, uma vez que usamos os termos como sínteses das conceituações. Parece desnecessário, mas a primeira discussão sobre o post prévio (um paradoxo do mundo virtual, uma vez que post é a raiz latina para posterior) consistiu basicamente de pontos de vista diferentes sobre o termo “essência”.

Com a definição da essência sendo a marca da individualização, uma consequência lógica dela é sua perenidade. A tradução prática disso se resume em uma frase: “Ninguém muda.” <espaço reservado para os mais emotivos se acalmarem, pararem de blasfemar, ou xingar o autor> Sartre que me perdoe (e com ele todos os acadêmicos que porventura se deparem com essas leigas frases), mas não consigo enxergar seu existencialismo na raiz das coisas, embora ele seja extremamente útil para se evitar uma alienação mais superficial. Provavelmente, essa negação seja fruto da minha visão determinista da existência, mas isso é assunto para um post posterior (um pleonasmo do mundo virtual).

Ninguém muda… Claro que o espaço reservado acima deve ter sido bem preenchido com dezenas de justificativas para os leitores provarem que mudaram. E concordaria com praticamente 100% dos apontamentos, não fosse um detalhe: tudo o que foi mudado, e me incluo no momento, foram nossas características. Eu não fui sempre este louco metido a filósofo; considero que despertei para a razão após ter aprendido a superar as dores que eu próprio me causei na fase emotiva-adolescente-destrutiva da vida, DA MESMA FORMA que não fui sempre este ser de 1,80m, de loiros cabelos raspados, tendo partido de um lindo bebê de 54cm, no pós-parto Nildal. Apenas mudanças de características. Nunca deixei de ser o André, e essa constância, sim, é a manifestação da essência.

O que pode mudar é a percepção que temos da nossa essência, o que é completamente diferente. Aliás, creio que muitas das características que buscamos ativamente modificar se devem a uma alteração da nossa compreensão da essência, de modo a nos adaptarmos a ela, num processo de auto-aceitação contínuo. Isso, claro, de forma sadia. A manifestação patológica dessa percepção se daria com uma tentativa de negação do que somos, com mudanças que culminam em frustração, ou, otimisticamente, num reconhecimento de insucesso e inclinação para a sanidade.

Se a expressão prática da imutabilidade da essência é “Ninguém muda”, sua aplicabilidade prática consiste na aceitação desse fato, para então tomar decisões que não contrariem quem realmente somos. Da mesma forma, acatar a frase como verdade implica não tentar mudar os outros, já que a regra também se aplica a eles. Em vez disso, compreender como a essência alheia funciona permite desenvolver a empatia, e a encontrar de forma mais efetiva meios de ação menos frustrantes ou conflitantes.

Obviamente, não espero mudar a todos que lerem essas palavras. Seria, no mínimo, hipócrita da minha parte. Em vez disso, espero que elas possam, de alguma forma, ajudar a expandir a autocompreensão do(a) leitor(a), aproximando-o(a) de sua essência plena, como ocorreu comigo, ao tomar essas conclusões.

André

2 Responses to “Consequências – act I”


  1. 1 alexcosmo 11/06/2009 às 10:14 pm

    Rs… olha eu aqui.
    Meu texto feito há minutos, “Mudança”, “centelha” e “essência”.
    Coincidência ou não, o “Mudança” e o “ninguém muda”, acredito, tratam de assuntos diferentes.
    Quanto à “centelha”, completo, inxiridamente, com “divina”, independente do que o autor do referido texto ou mesmo o leitor deste comentário interprete por “divindade”.
    E “essência”, bom, é coisa demais pra me confundir (rs…). Confesso não ter opinião feita para tal expressão de tão óbvia que ela me parece ser. Obviedade, neste caso, me parece abrir brechas demais quanto à definição da presente palavra.
    Vamos à minha humilde opinião: chovi aqui para ser neutro, apenas para fazer algumas comparações e questionamentos soltos sobre conceitos meus.
    A começar pela essência, que me parece ser singular e imutável, costumo usar tal expressão, por mais que não a pronuncie e nem escreva, no conceito (meu conceito) de amor. Tipo de “coisa” que não nasce e nem morre, apenas desperta e adormece mas continua lá.
    Quanto à centelha (divina), lanço: e o antes e o depois? Imutável também? A pergunta vai pra mim, também. Se fosse pra eu arriscar, diria, com certo receio, que a tal essência é cíclica, que adoece e se regenera e, talvez até, seja sim, imutável
    Entendeu? Não? Então, eu, menos! Mas é isso aí!


  1. 1 Consequências – act III « Andy Moreno’s Blog Trackback em 30/06/2012 às 2:53 am

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