Taxonomia

Vez ou outra sou acometido por um ímpeto divagador, que bem poderia ser chamado de Síndrome Marcelo Marmelo Martelo, dada sua característica taxonômica. Claro, imagino que todos de vez em quando passam por isso, senão o livro da Ruth Rocha não teria vendido tanto. Mas vamos ao caso.

Sou formado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, cuja sigla é FMVZ, e o apelido é Vet (sugestivo). É fato que, se eu terminar meu curso de Economia, e o blog perdurar por alguns anos, terei que editar esse parágrafo, acrescentando também a FEA (aliás, pausa para parabenizar oficialmente um colega da Vet que acabou de passar na Fuvest pra entrar lá também), mas solicitando que o foco da leitura se restrinja à primeira formação. Enfim, lá sou formado pela FMVZ-USP. Durante minhas várias estadas em Pirassununga, pude constatar, nos então vigentes armários, antes de serem substituídos por essas coisas novas que soube que lá estão, juntamente com a uspnet alimentando todas as dezenas de laptops nos alojamentos, e, assim, destruindo a vida rústica característica de lá… se bem que não sei o quanto isso soa como gente velha que insiste no “No meu tempo era melhor…”

Anyway, nos móveis tombados, vi as antigas plaquinhas de patrimoniação, inscritas com um “FMV”. Curioso, porque sempre pensava que não poderia ter um carro com uma placa que coincidisse com a faculdade (tá, com a FEA isso mudou, mas foquemos na Vet), e houve um tempo em que isso seria possível, sem a necessidade de ter um ZZZ-9999 caotizando o trânsito daqui, para se iniciarem as placas com 4 letras. (Aliás, nesse ritmo, um dia compensaria mais ter placas com o nome do carro, como CIVIC-2134.) Mas, além disso, também foi a primeira vez que me dei conta de que o nome da escola poderia ser mudado.

Por que a Faculdade de Medicina Veterinária precisou acrescentar um “e Zootecnia” à sua graça? Decerto pelas matérias pirassununguenses de produção que, legalmente, nos habilitam a exercer qualquer função que um zootecnista consiga realizar do alto do seu intelecto. Também por passar a existir uma Faculdade de Zootecnia (a FZEA), cujo nome poderia dar a entender que eles tinham um que ausente em nossa escola. E, sabidamente, houve um período em que nosso diploma nos conferia a dupla titulação de veterinário (ou melhor, médico veterinário) e de zootecnista.

Mas esses foram outros tempos. E chegou a época em que o diploma FMVZeano não nos conferia nem uma coisa, nem outra, senão um bacharelado em medicina veterinária. E veio a era em que a própria FZEA lançou seu curso de veterinária, ali, do nosso ladinho, em Pirassununga, só que seus alunos lá ficariam todos os anos. Ignoro minhas próprias perguntas técnicas, como “E eles pretendem aprender com que casos?! Do Hovet de lá? rs”, atendo-me aos nomes. Pelo menos até o fechamento desta edição, não se soube de nenhum movimento de rebatismo da FZEA para acrescentar um V em algum lugar de seu registro. E nem precisaria, afinal, a “Filô“, de Ribeirão Preto, tem o curso de Biologia, mas não o de Filosofia.

Mas a comoção daquela potencial ameaça à estadia da Vet no campus de Pira fez muitos pensarem em como afirmar nossa escola, em como mostrar o diferencial do nosso curso, ressaltando que a visão geral da veterinária (ou melhor, medicina veterinária) nos embasava melhor para resolver algumas questões produtivas. Eu mesmo sou favorável à ideia reacionária. Convenhamos: aprender as matérias básicas no ICB, com gente que realmente entende dessas matérias, é muito melhor que gente do ZAB, que só as aplica para o dia a dia. Mas insisto em que deixo as ideologias para outras discussões.

Nessa carpidação sobre a qualidade do meu curso, comecei a pensar que não devíamos tentar nos equiparar a eles com o nome, se éramos superiores, mais completos. “Veterinária e Zootecnia”, contra uma escola que oferecia, de forma independente, tanto a veterinária como a zootecnia, fez parecer que os primos interioranos poderiam até ser mais dignos da sigla que nós (FMVZEA, já pensou que beleza?! – <ironic mode: ON>). Como proceder?

Em primeiro lugar, pensei que a sigla deveria tornar-se FVMZ (olhem de novo, não ficou igual): Faculdade de Veterinária Médica e Zootécnica. Apesar de parecer uma alteração simples e boba, portanto inútil, ela encerra uma mudança gramatical importante: antes, era “Medicina Veterinária”, com a “Veterinária” sendo um adjetivo de “Medicina”, situação a qual só servia para nos diferenciar da medicina humana (que, aliás, deveria assim se chamar, se eu tivesse parado minha síndrome taxonômica aqui). O substantivo era a medicina, a preocupação com o restabelecimento e prevenção da saúde animal. Além disso, a conjunção “e” ligava “Zootecnia” à “Medicina”, equiparando os conhecimentos produzidos na escola, e restringindo-os ou à saúde animal, ou às técnicas de produção animal, que seriam as mesmas da FZEA.

Sob a alegação da holisticidade do curso sediado na capital, nossa zootecnia não poderia ser igual à deles; somos veterinários que praticam a zootecnia, com uma visão diferente! Uma visão veterinária. Daí a chave para a sigla proposta (relembrando, FVMZ), que coloca a “Veterinária” como um substantivo, a ciência fundamental ensinada na escola, que se desdobra com dois adjetivos, a veterinária médica (voltada para a saúde animal) e a veterinária zootécnica (voltada para a melhoria da produção animal, inclusive com uso de ferramentas exclusivas do universo veterinário, como a biotecnologia da reprodução – IATF, TE, FIV, clonagem etc.). E assim deixaríamos de ser só os “médicos de animais”, como fazem ao nos diferenciar dos médicos de humanos, e seríamos de verdade os veterinários, em vez dessa alcunha ser apenas uma abreviação da profissão.

Paralelamente, meu estudo semântico-linguistíco me levou a empacar em um outro termo: a medicina. Indo para o universo humano, do HC, HU e cia. ltda., meramente por eles possuírem uma amplitude de mercado menor (refiro-me aos tipos de exercício da profissão), qualquer um que já conversou com um(a) estudante de medicina eventualmente caiu no assunto de escolha de área dele(a): ou iria para a clínica, ou para a cirurgia. Essa designação é igualmente comum na veterinária, com os mesmos sentidos de clínica = tratar com remédio e cirugia = tratar com o bisturi. E um médico, seja humano ou veterinário, torna-se um médico clínico, ou um médico cirurgião.

Mas aí retomo minhas aulas, e relembro da importância dada às definições que me passaram. Tratamos essas palavras de forma invertida, ou suprimida. Enfim, com negligência. Ninguém estudou a matéria de clínica de não-sei-o-quê, assim como a de cirurgia de sei-lá-onde. Sério! Revejam suas grades horárias, boletins, boletos (vai saber quem me lê). No máximo, para os que forem da área, passaram pela “CLÍNICA MÉDICA de X” e pela “CLÍNICA CIRÚRGICA de Y”. Isso significa que o tratamento com remédio é um tratamento médico, e um tratamento com bisturi é um tratamento cirúrgico. Mas a arte de tratar é realizada pela clínica! Dessa forma, os médicos não são médicos. Antes de mais nada, são clínicos, de modo que seu curso tem o nome errado, embora seu hospital das CLÍNICAS obedeça às definições direitinho.

Não demorou muito para eu extrapolar esse conceito para minha proposta de alteração de nome da faculdade. Hoje, ela seria uma FVCZ, a Faculdade de Veterinária Clínica e Zootécnica. Reforçando, o nome, assim, diria que a escola leciona a ciência veterinária, aplicada tanto no tratamento quanto na produção animal.

Infelizmente, creio que essa divagação ainda não tenha encontrado seu desfecho. Como eu disse, o vocábulo “clínica” designa melhor a noção de tratamento do que “medicina”, mas me parece excessivamente voltado para o restabelecimento da saúde, deixando de englobar a prevenção, característica fundamental da saúde animal. Além disso, ainda há a parte de alimentos. Quase ninguém (e uso o “quase” apenas para não ser taxativo, mas nunca encontrei um contraexemplo) fora da área sabe a respeito dessa atuação veterinária, que reside tanto no conhecimento técnico para produção de alimentos de origem animal (encerrando, assim, toda a cadeia produtiva do termo “zootécnica”), como no domínio da detecção e prevenção de problemas relacionados a esses produtos, caracterizando um ramo veterinário com vistas à saúde pública.

Diante das limitações encontradas por não conseguir assimilar os conceitos de saúde animal (de forma completa, pois falta a prevenção) nem de saúde pública, o projeto de encontrar o melhor nome que designe minha escola em sua essência ainda não está concluído, podendo FVSZ (Faculdade de Veterinária Sanitária e Zootécnica) ser um molde para prosseguir, mas confesso que o “sanitária” estraga um pouco do apelo de marketing. Mas Aristóteles ficaria orgulhoso!

André

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