RPG Contemporâneo

Que levante a mão o nerd que nunca jogou RPG! Eu não tenho o menor pudor de confessar. Desambiguando, tanto que sou nerd, quanto que já joguei (ahá! Pensou que me pegava…). Embora não tenha sido um exemplo clássico de jogador, daqueles que se vestem, interpretam com amor, colecionam d20’s (dados de vinte lados, pra quem não tem a menor noção do que significa o símbolo, e acabou de descobrir que o cubinho de 6 lados não é o único tipo existente) lançados em edições limitadas, sabem o que significam termos como “conjurar” e a sigla “TACO“, e são posicionados (quiçá engajados) na rixa entre o sistema D&D e os (1-D&D), já pude desfrutar de várias horas de diversão nesse universo.

Particularmente, gosto dos de videogame, pela praticidade de seguir rumos predeterminados, dentro de um roteiro normalmente bem estabelecido por profissionais, que independa do bom humor do seu amigo que se propõe a ser mestre. Títulos como Shining Force e Pokémon são meus preferidos, e sempre adorei ficar assistindo a amigos jogarem ZeldaFinal Fantasy e Phantasy Star. Entretanto, também tive minha cota de Dungeons & Dragons, Advanced Dungeons & Dragons, Dragon Quest, Vampiro, Hero Quest etc., isso sem mencionar que a loucura adolescente fez um grupo de amigos criar uma versão em Word do famoso Carrossel RPG! Só que aí meu superego já me poda de tecer maiores comentários aqui.

Mas nem só por nerds as Terras Médias são habitadas. Como eu disse, prefiro as versões eletrônicas às clássicas, de tabuleiro ou só faladas. Aproveitando a breve diferenciação, o conceito de RPG pode ser estendido a muitos formatos que, por sua vez, absorveram usuários que negam fortemente a filosofia nerd de ser. Sinto muito dizer, mas seus adorados Mafia Wars, Vampire Wars e (pasmem!) Farmville, dentre outros tantos, nada mais são que a incorporação de personagens que precisam cumprir tarefas, acumular pontos e dinheiro, para poderem avançar para tarefas mais complexas, ganhar prestígio e seguirem suas vidas. É basicamente a definição de RPG!

Claro, sempre há a chance de alguém que pouco utiliza a internet, ou desconheça videogames, estar a ler meu blog, por mera fatalidade de ter aqui caído ao procurar uma página para reeducação postural global, mas se interessado em seguir essas humildes palavras, enquanto seu Big Brother Brasil não começa. A vocês, conto que não deixam de ser voyeurs de RPGs. Peço desculpas se me equivocar nos termos técnicos, pois nunca assisti a um episódio completo do programa, mas alguém personificar o papel de “líder” e “anjo”, e dar “imunidade” a fulano, e “emparedar” beltrana (sic) gera a mesma vergonha alheia em mim que minhas “conjurações de dardos místicos” produziam em quem passasse perto. Mais que isso, resolver quests para determinar quantas “estalecas” (sic) ou carros irão ganhar, e decidir contendas de quem morre no jogo (leia-se “sai da casa”) através de número de ligações, em vez de 2d4 + 1d20 + 1, soa-me deveras rpgista.

Mas não é sobre isso que me propus a falar. Espero, a essa altura, ter deixado clara a susceptibilidade de qualquer mamífero bípede de telencéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores, não alienado, a esse tipo de jogo. Então, por que não fazer o caminho oposto, e trazer os tipos cotidianos para o universo do RPG? E, por tipos, não pretendo fazer nenhuma idealização nobre para compor personagens, senão a utilização de figuras com as quais esbarramos o dia inteiro para formar o grupo base do RPG Contemporâneo, e assim ver se seriam capazes de resolver as missões de praxe que temos, com mais eficácia, eficiência e efetividade que nós.

Dito isso, todo time que se preze tem que ter um ladrão, e quem melhor do que um dos nossos urbanos trombadinhas poderia suprir a necessidade de agilidade e destreza manual? Seu carisma tende a zero, e a probabilidade dele furtar os próprios companheiros, por essa razão nunca contando com a confiança alheia, tende a 100%, exatamente como o personagem clássico.

Sempre há um anão, um ser habitante das cavernas, averso à luminosidade e familiarizado com as profundezas. Poderíamos, aqui, invocar um anão (A_) para o papel, mas algumas questões limitam sua escolha: a primeira é que eles estão rareando (pelo menos eu nunca mais os tenho visto); a segunda é que os anões verdadeiros não possuem as habilidades iguais aos do jogo, e seria muito preconceito e ignorância utilizá-los no RPG Contemporâneo meramente pela semelhança de tamanho; por último, bem…, até onde eu sei, os jogadores podem morrer, e como eu nunca vi enterro de anão… Então, optou-se pelo recrutamento de albinos (aa), pois quem melhor que eles entende a necessidade de refúgio da luz? Aliás, o único local em que os tenho visto é dentro do metrô.

Já são dois. Precisamos de alguém que cure os feridos, entenda de poções e seja hábil contra maldições. A alçada classicamente pertencente aos clérigos tem aqui que ser dividida: de um lado, um paramédico do SAMU, para a parte prática e carnal da tarefa (aliás, vindo de uma época tipicamente machista, os RPGs tinham poucas mulheres; deixemos uma paramédica); do outro lado, um pastor evangélico, para resolver as questões relacionadas à fé e espantar os maus espíritos, como tão excelentemente têm demonstrado nos canais de televisão.

E já que o místico foi citado, para as vezes de mago, a pessoa sábia por vivência e capaz de utilizar a magia como forma de ataque, bem como de invocar entidades para realizar várias tarefas, que tal uma mãe de santo? Sua capacidade para rituais complexos, associada com a relutância que a população tem em aceitar seus atos, porém sempre respeitando-os, tornam-na uma aquisição perfeita para a jornada.

Em cinco estamos. Falta a figura máscula, musculosa, truculenta, de muita força, pouco cérebro, pouca paciência e sempre disposta a encontrar uma desculpa para iniciar uma briga. O guerreiro, majestosamente encarnado por Conan, o Bárbaro, passa o bastão para o nosso pitboy jiujiteiro, assinante dos pay-per-views do UFC (antigo Vale-Tudo), de orelha deformada, e amante de seus músculos e anabolizantes que os moldaram. Já de antemão, ele porta um soco inglês de mithril.

Em oposição à toda essa barbárie, está o elfo, o ser encantado, amante da natureza a ponto de se confundir com ela, defensor dos animais, com sua aparência andrógina, sensível como a água e leve como o vento, o eterno incompreendido e um automarginalizado. Uma viadice só. Convocamos para a missão o emo vegan, que deverá se apresentar na taverna tão logo pare de chorar sobre sua alface orgânica!

Está composto o mais nobre grupo de herois que nossa sociedade pode vislumbrar. Os sete (doravante intitulados o Trombadinha, o Albino, a Paramédica, o Pastor, a Mãe-de-Santo, o Pitboy e o EmoVegan) devem agora explorar as dungeons das prefeituras, câmaras, assembleias, palácios de governo, congresso e tribunais para impedir que o Tesouro de tributos continue a ser usurpado pelas forças do Mal! Se não sucumbirem aos feitiços e se integrarem ao sistema, desejarão enfrentar 20 dragões dourados e 100 dragões vermelhos com unhas encravadas antes de terem concluído sua missão!

André

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