Especista

“We will see about that!” (Lyle, em “Double Switch”, act II)

Já fui chamado de muitas coisas, mas não me recordo de nenhuma outra sequer parecida com “especista”, ainda mais no contexto “você é legal, apesar de especista”. Não que eu tenha me incomodado; ao contrário, desde o último dia de curso da Sacavet tive a ideia do mote deste post, e ser alcunhado uns dois dias depois só me ajudou a maturar o projeto para poder publicá-lo mais cedo.

Especismo é a atribuição de valores ou direitos diferentes a seres dependendo da sua afiliação a determinada espécie.” O texto já dedura, em seguida, os autores do conceito: os protetores de animais. Eu poderia desenvolver laudas e laudas sobre essa classe, mas não o vou, em parte por não querer meu blog bombardeado por ativistas, mas, principalmente, porque não quero ser mal interpretado aqui. Eu SOU, sim, um grande defensor do bem estar dos animais, e NÃO comungo com práticas abusivas contra ninguém (aliás, nem contra nossa própria espécie, embora tenha ressalva com alguns espécimes, as exceções que consagram a regra).

Mas meu blog é fruto das minhas reflexões racionais. Nunca gostei de escrever movido por alguma sensação, porque era só ela ser dissipada para eu olhar o texto e começar a discordar. Então, tentarei manter a abordagem fria.

Posto isso, tenho que delimitar que existem basicamente duas abordagens para um trabalho: pelo lucro e pelo bem. Não me prenderei na questão do altruísmo, para não fugir muito do foco. Prefiro atentar à questão ética, que seria marcada pelo trabalho pelo lucro, usando o bem como norte para ações. Obviamente, os diferentes trabalhos não são exclusivamente de uma classe, ou de outra, mas uma composição, até pelo compromisso mínimo com a ética que devem ter. Uma pessoa pode fixar a busca dos ganhos, modulada pela ética, ou fixar a busca do bem, tendo seus ganhos apenas como consequência. Mas a noção de ética implica uma noção de bem, que exige uma noção de moralidade, assunto muito discutido no campo da Filosofia para que nós, meros mortais leigos, possamos afirmar categoricamente o que é bom, com base exclusiva nos nossos valores.

Podemos apenas inferir algumas coisas com base em linhas de raciocínio: se o que é bom pra mim pode não ser necessariamente bom para outro ser (humano ou não), é plausível supor que o mesmo valha para todos os demais. Por exemplo, se é conveniente a mim que não haja outros veterinários na área de que gosto, não lhes é nem um pouco interessante que desapareçam para que eu tenha mais mercado; se um lobo, ou coruja, se alimenta de determinada espécie animal, não está na lista de prioridades dessa presa compor o cardápio dos seus caçadores; se uma planta rasteira necessita do máximo de luz possível, as árvores gigantes que lhe fazem sombra não são suas melhores amigas. E por aí vai.

Então, a noção de bem, pontualmente um conceito de puro egoísmo, fruto de toda a competição natural entre as espécies, e dentro delas, que nos trouxe ao presente, só pode ser abordada de uma forma genérica, moralista, sob a concepção de um bem maior. Podemos pensar no bem maior da humanidade, por exemplo, a primeira somatória dos bens individuais da espécie. Utilizando a hipótese Gaia, sem muito fanatismo, apenas em sua porção determinista, na qual tudo interage e, portanto, tudo influi, podemos pensar no bem do planeta.

Acho que, até aqui, não houve muitos conflitos. Os radicais devem concordar que o planeta deve ser cuidado, assim como os “especistas” devem saber que eles saem perdendo se a Terra sucumbir (no limite, se ela explodir, não tem como extrair mais nada dela). Então, como fazer o melhor pra biosfera?

Uma opção é deixar do que jeito que está; a natureza passou por bilhões de anos (com vida ou sem vida, afinal, para ela, são as reações físico-químicas que contam) até chegar aqui, e não são alguns gases poluentes que a vão extinguir, posto que ela superou até asteróides caindo, e, antes ainda, conseguiu gerar vida de uma paisagem que lembrava o próprio inferno. A natureza dá um jeito, nem que esse jeito seja nos extinguir, com a destruição de todos os recursos de que precisamos, até nosso desaparecimento, e consequente cessão da devastação promovida por nós, para poder recomeçar da forma que lhe aprouver.

Assim, toda essa comoção pelo Save The Planet mostra que o foco não é tão abrangente assim. Salvamos o mundo para salvar nossa pele. O bem maior procurado é o da humanidade. Não há como negar milênios de seleção de seres que buscaram a preservação de seus genes; tentar é só desenvolver formas de fazermos o mesmo sem nos darmos conta (afinal, já o fazemos com os instintos sexuais). Para que florestas, atmosferas limpas? “Para um mundo melhor para nossos filhos.”, os ativistas mesmo dizem.

Disso nasce a famigerada sustentabilidade: conseguir o melhor para nós, mas no longo prazo (o que é óbvio!; coma toda a comida da dispensa enquanto os mercados estiverem em greve e você conhecerá a fome). Mas ela é muito atrativa, como manequim, para ser vestida com os panos ecologicamente corretos, e virou mais um tema explorado nas campanhas boazinhas e altruístas.

Volto ao ponto: ou você trabalha pelo lucro, ou pelo bem. Se, assumidamente, busca o lucro, caso encerrado; faça suas coisas buscando a otimização dos seus ganhos, com plena consciência do seu mercado. Quer enriquecer cobrando mais por alimentos orgânicos? Ótimo, go ahead! Quer notoriedade e viver de patentes por criações trangênicas? Maravilha! Quer vender 2 Ferraris por ano, ou prefere 1000 Unos? Ou, no mundo veterinário, prefere atender meia dúzia de proprietários milionários, ou centenas de baixa renda? Opções igualmente válidas, que só precisam de foco no seu mercado, e, claro, atender às requisições éticas inerentes.

Agora, se você busca o bem, a salvação, ou o nome que der, e considera a rentabilidade apenas como uma consequência necessária para sua própria sobrevivência, um prêmio de reconhecimento por suas ações, recebido passivamente, tudo bem, é igualmente válido! Contanto que assim seja, sem hipocrisia, e é aí em que mais se peca.

Aos vegans, de início, que querem que se pare de comer carne porque “animais são amigos, e não comida”. Não basta que não comamos animais mais exóticos, não cultiváveis, e que, por isso, poderia levá-los à extinção. Devemos parar de comer qualquer animal, pela crueldade que é matá-los. Em primeiro lugar, matar um animal é o mesmo que matar um vegetal, pois é encerrar o conjunto de reações de transporte ativo que caracterizam a vida. E não vale dizer que plantas não sentem dor; se a dor for considerada como uma sinalização e resposta a injúrias teciduais, aprendemos que nossas fitoirmãs fazem o mesmo, com o velho exemplo de gemas apicais e laterais que vemos no colégio (relembrando: se quiser que uma árvore dê fronde em vez de altura, corte sua gema apical; a lesão desencadeará uma série de reações que culminam na cessão da dormência das gemas apicais e sua resposta desenvolvendo galhos para compensar a perda de tecido). Julgar que uma espécie (no caso, do Metazoa) tem o direito de não virar alimento, mas outra (do Plantae) não tem soa deveras especista pra mim.

Em segundo lugar, e extrapolo aos protetores, de forma generalizada, que pregam que não se deva impor aos animais condições que difiram do que consideram como “seu natural”, pergunto: e nossa responsabilidade com as espécies? Após séculos de domesticação das espécies, o que é o natural delas? Um cão, já sumariamente adaptado à vida em companhia, deve ter um comportamento que deve ser considerado como natural, que o aproxime da vida selvagem dos seus nobres parentes lobos. Por essa razão, vamos deixá-los livres para caçarem o que melhor lhes apetecer, e tirá-los das paisagens urbanas para que habitem tocas nos matos? Creio que, se assim for, muitos não durariam dias, antes de virarem comida de outros seres, ou se machucarem nos ambientes desconhecidos, ou contraírem doenças às quais não desenvolveram imunidade. E, se assim é, não será o mesmo com outras espécies domésticas, como bovinos, suínos e aves de corte? Seres tão adaptados ao mundo que conhecem, e em que cumprem sua função, não têm muitas chances nas ditas condições naturais; sem muita divagação, um bezerro que contrair onfalite, cujas chances aumentam por minuto que se demora para curar o umbigo, terá morte certa, como os frangos que tiverem contato com qualquer resíduo de uma ave migratória, ou um leitão exposto às variações térmicas circadianas ou à prensagem por suas mães. Parece especismo que nós possamos viver num mundo controlado para o que nos faz mal, mas que os animais devam enfrentar sozinhos os demônios das condições naturais.

Aliás, parênteses, o bucólico e arcádico mundo natural é composto de apenas três tarefas: lutar para buscar alimento, reproduzir para manter a espécie, e se cuidar para não virar alimento enquanto tenta as outras duas. Não me parece muito a concepção do Paraíso, pra não dizer que é um mundo estressante. E, se um animal selvagem, colocado em cativeiro, sofre, não é senão porque ele sente que tem as mesmas tarefas, porém agravadas por um ambiente estranho e restrito, em que é mais difícil não virar comida quando o espaço de fuga é menor. Tal é o processo de domesticação, que consiste, em última análise, em encontrar meios de que os animais percebam que não têm mais as preocupações clássicas e primitivas, asseguradas pelo convívio humano em algum grau (desde as vacas que sabem a hora de ordenha até o gato que sabe pedir sua ração, passando pelos peixes – de aquário ou pesqueiro – que sabem quando ir à superfície pra receber alimento).

Por fim, à questão do bem maior (já assumida que é o bem da humanidade). Há fome no mundo. Muita fome. Fome que minha cabeça, bem alimentada com os nuggets da janta, compositora dessas palavras, ou a cabeça de qualquer um em condições de as ler, não consegue conceber, senão pela leitura indiferente de notícias, que não geram a sensação. Uma fome que não existe pela falta de alimento, mas pela falta de recursos para obtê-lo. E que só ocorre porque toda a produção de alimentos é voltada para o lucro, para quem melhor puder pagar e, claro, mais tem força de exigir. Uma produção feita por aqueles que trabalham pelo lucro, usando a classificação dada.

E toda a hipocrisia jorra em que os dominantes, já devidamente saciados com as quantidades oferecidas, passaram a recrutar os que dizem trabalhar pelo bem, para que os alimentos que consomem sejam mais saudáveis, ecologicamente corretos e, quiçá, politicamente, também. Chegaram naquele nível de qualidade de vida que podem exigir formas menos produtivas (e mais corretas), porque podem pagar por elas, mais custosas. E os planeteers os servem felizes, acreditando que estão beneficiando o mundo, quando, na verdade, escolheram reforçar a fome de alguns espécimes para agradar a outros, dar direitos a uma melhor vida pra algumas espécies e manter a desgraça da sua mesma. A discrepância parece cair na definição de especismo com que começamos aqui.

Se o mundo é capitalista, e é assim mesmo, uns morrendo enquanto outros esbanjam, tudo bem, eu aceito bem. Só não aceito que alguém se diga contra as injustiças e não reconheça que trabalha pra elas tanto quanto. Especista? Sim, mas não mais do que um lobo que sabe que uma ovelha é comida, e um tigre não.

André

6 Responses to “Especista”


  1. 1 Daniel Trapo 07/04/2010 às 12:41 am

    Esse é uma discussão que talvez povoará nossa vida até o fim, visto a profissão que escolhemos. Não costumo ler blogs, acho extensos e desinteressantes. Mas gostei muito da sua construção textual, apesar de longa, me prendeu. Tenho minhas convicções e opiniões sobre o assunto que são parecidas e ao mesmo tempo divergentes das suas, mas gostei bastante da forma que abordou o tema. Parabéns!

  2. 2 Bruna 08/04/2010 às 5:15 pm

    Pexapéu, o seu texto contém uma desinformação importante: os bem-estaristas, pelomenos os mais estudas, valem-se da etiologia das diferentes espécies para avaliar e definir o comportamento masi adequado ao BEA, mas as definições de BEA não são necessariamente atreladas às condições naturais (próximas à vida selvagem), até pq, como vc mencionou, muitas espécies são tão domesticadas que já não se pode fazer esse tipo de paralelo.

    Portanto, tal argumento de que a vida selvagem é cruel por si só é falacioso. Além disso, não é a Ética e não são os valores morais justamente aquilo que destaca o homem na natureza? Os valores morais e éticos vão sim, contra a maioria dos nossos instintos, desde o remoto momento em que optamos por viver em sociedade e respeitar aquilo que chamamos de outro, seja pelo nosso próprio bem ou não.

    Também acho que vc confundiu o aspecto econômico do bem-estar animal com um certo maniqueísmo capitalista. Não se tratam, na minha opinião, de ativistas pseudofilantrópicos fingindo salvar o mundo, mas de uma tendência inexorável de evolução do mercado, que naturalmente começa com os consumidores mais elitizados, mas tende a se baratear e se popularizar com os avanços tecnológicos e desenvolvimento econômico dos diferentes países.

  3. 3 Bruna 11/04/2010 às 11:55 am

    só pra cutucar mais um pouquinho,😉

    Senciência, palavra originada do latim sentire, que significa sentir, é a
    “capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade” (Singer, 2002). De forma
    sintética é a capacidade de sentir, estar consciente de si próprio ou apenas do
    ambiente que o cerca. Não cabe aqui estabelecer uma discussão filosófica do termo
    senciência, mas sim das implicações práticas relacionadas ao fato inquestionável
    cientificamente de que pelo menos os animais vertebrados sofrem e são serem
    sencientes. A evidência de que os animais sentem dor se confirma pelo fato que
    estes evitam ou tentar escapar de um estímulo doloroso e quando apresentam
    limitação de capacidade física pela presença de dor, está é eliminada ou melhorada
    com o uso de analgésicos. Para muitos filósofos, a senciência fornece ao animal um
    valor moral intrínseco, dado que há interesses que emanam destes sentimentos.
    Estas evidências estão bem documentadas por estudos comportamentais, pela
    similaridade anatomo-fisiológica em relação ao ser humano e pela teoria da
    evolução (Luna, 2006).

  4. 4 milordandy 12/04/2010 às 12:01 am

    Oi, Bruna! Pelo visto não conseguiu descansar muito no finde, né? rs. Bem, contanto que a amizade se mantenha, pode perder o sono à vontade. rsrs =p

    Então, seguindo a linha sintética de “estar consciente de si próprio ou apenas do ambiente que o cerca”, as plantas têm sua fisiologia estomatal (por ex) regulada, ou desencadeada, por fatores externos, de modo que também têm mecanismos bioquímicos de recepção e tradução de sinais ambientais. Aliás, é uma coisa que existe “a nível de” célula (rsrs), pois até protozoários ruminais fogem da luz do microscópio (por saberem que é luz).

    Além disso, a noção de sofrimento é uma coisa também difundida até no mundo microscópico, como vcs bem verão em Pato, com todas as milhares de maneiras que uma célula tem para demonstrar que algo está errado. A tradução do sofrimento em sentimento de dor é APENAS uma via bioquímica dentre as várias que a natureza encontrou para registrar o que ocorre de ruim com seus vários filhos. Considerar que esse idioma (dor) é mais nobre do que qualquer outro que diga a mesma coisa em sua língua só parece mais uma forma de especismo pra mim. rs

    De qualquer forma, volto a dizer que não sou a favor de nenhuma prática abusiva contra nenhum tipo de ser. Todo meu ponto é de que não há como não ser especista, então não se pode acusar alguém de ser. Toda a Biologia se utilizou dos mesmos princípios para gerar todas as formas de vida, então, nenhuma tem preferência sobre outra. Infelizmente, como heterótrofos, sempre teremos que defender nosso direito perante alguma espécie qualquer, então não podemos nos dar ao luxo de não sermos especistas em algum nível.

    Anyway, não queria deixar isso como resposta no comentário, porque achei que seria presunção minha achar que vc ficaria vindo aqui toda hora. rs. Como não coube, vai aqui. rs. Beijão!

  5. 5 Phillip Pip 13/04/2010 às 10:34 am

    Comentando:
    “Senciência, palavra originada do latim sentire, que significa sentir, é a “capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade” (Singer, 2002).”

    Não. Senciência, historicamente, é a capacidade de receber um input sensório externo de maneira subjetiva, ou ainda, ‘qualia’ como conhecido entre os filósofos da mente. Singer só tentou manipular o conceito de Qualia cunhado por Wilhelm Van Orman Quine, incluindo ‘sofrer e sentir prazer e felicidade’, pois o conceito serve às suas teses vegetarianescas. Como uma rápida análise do texto citado do Singer revela, seu conceito de senciência não tem qualquer base científica ou filosófica.

    Uma pesquisa mais abrangente do conceito de senciência revela que não há nenhum consenso sobre o fato de que senciência inclui capacidade para sofrimento, prazer e felicidade, como Singer erroneamente deixa transparecer. Como exposto no artigo sobre ‘Sentientism’ no Routledge Companion to Environmental Philosophy, o filósofo Gary Varner (que inclusive é vegano) afirma que ‘não há consenso’ citando diversas fontes que dissentem sobre o tópico.

    “De forma sintética é a capacidade de sentir, estar consciente de si próprio ou apenas do ambiente que o cerca. Não cabe aqui estabelecer uma discussão filosófica do termo senciência, mas sim das implicações práticas relacionadas ao fato inquestionável cientificamente de que pelo menos os animais vertebrados sofrem e são serem sencientes.”

    Bem conveniente a escolha de ‘não estabelecer uma discussão filosófica sobre o assunto’, visto que a ‘forma sintética’ na qual a questão foi posta não poderia estar mais equivocada.

    ‘Estar consciente de si próprio’ é uma habilidade RADICALMENTE diferente de ‘estar consciente do ambiente que o cerca’ dentro do estudo da cognição humana e animal. A conjunção adversativa ‘ou’, posta entre a descrição das habilidades, que dá a entender uma certa alteridade ou contiguidade das habilidades citadas só se aplica numa análise aplicada ao ser humano, que é o TOPO da capacidade cognitiva animal – ou seja – a lógica aplicada no comentário é totalmente ESPECISTA. Na natureza, há um oceano que separa, cognitiva e evolutivamente, essas duas habilidades, sendo impossível qualquer tipo de simplificação como a proposta.

    Como era de se esperar, a conclusão postada no comentário é absolutamente enviesada e errônea visto que, (a) o conceito de senciência de Singer não se aplica de forma pervasiva e, (b) logicamente, da senciência como ela de fato ocorre não segue, de maneira necessária, o ‘sofrimento’. Sofrimento, cognitivamente, é um conceito criado justamente A PARTIR da refinadíssima capacidade humana de auto-consciência e protensão do tempo (projeção de um tempo futuro) e abstração dentro desse raciocício auto-consciente. Como definida por Daniel Dennett, David Chalmers, Ned Block e outros especialistas no assunto, a auto-consciência é um espaço interno (ou um ‘teatro’ interno) onde ocorrem reflexões e abstrações acerca do ser em questão, tendo como substrato a capacidade de abstração. Só com a abstração o ser consegue se postar em diversas situações, compará-las, avaliá-las numa escala de valores internos, ou seja, ‘melhor’ ou ‘pior’, segundo possibilidades futuras (que requerem a habilidade de abstrair o tempo futuro).

    Concluindo, as habilidades necessárias para construir o conceito de ‘sofrimento’ não estão presentes em mais (bem mais) de 90% dos animais, segundo evidências científicas e cognitivas recentes (cf. ‘The Cognitive Animal’ ed. Bekoff, et al. e diversos outros textos). Certas teses supersimplificadas acabam por atropelar a ciência em prol do sentimentalismo e do antropomorfismo de animais – práticas essas que são absolutamente especistas, pois incorrem no erro que dizem combater: julgar outros seres vivos por parâmetros só aplicáveis a humanos.

    • 6 Bruna 14/04/2010 às 8:36 pm

      Cara, “tô bege” com essas citações…! hahaha Foi muito bom eu ter postado esse ultimo texto por que na verdade, eu estava lendo uns textos pra minha IC quando achei esse trecho e pensei que seria legal colocá-lo aqui pra vc (andré) ver. Nunca imaginei que o Singer pudesse ser contradito rsrsrs
      Esses pontos que o phillip levantou são muito interessantes e fazem total sentido. Ainda assim, acho que enorme parte dos mamíferos (tome-se por exemplo o cão, o cavalo, o suíno,os cetáceos, os outros primatas, etc) possui uma complexidade cognitiva e, ouso dizer, psicológica bem próxima à dos humanos, inclusive as formas de expressar não só dor, como doenças psíquicas como depressão.
      Além disso, acho que humanizar o ser humano, no sentido de tornar suas relações com os outros seres vivos mais éticas e incluir outras espécies na sua esfera moral, não é um processo pautado numa escolha racional de espécies de acordo com a capacidade cognitiva, mas um aprimoramento livre do nosso comportamento como humanos, entende?

      PS: não se preocupe quanto à amizade, primeiro pq eu dificilmente levo para o lado pessoal essas discussões, segundo pq eu gosto de pessoas inteligentes me contrapondo, me ajuda a pensar..rsrsrs


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