Exposição – zero

Eis uma miscelânea total de assuntos. Aqueles que têm por costume acompanhar essas magras páginas, ou gostam de índices para se situarem em possíveis contextos, sabem que o título remete uma coletânea de poemas enviados pelo criador para uma exposição. Também devem saber que estou numa fase blogológica (em analogia à antropologia de se resgatar e estudar documentos antigos) com o tal fotolog, querendo resgatar o que for possível para enterrá-lo definitivamente.

Sendo assim, publico este post com a apresentação de um poema (por sinal, enviado para o concurso de poesias anterior) escrito há vários anos, em sua forma original, que, na data presente, sofreu alterações que não vêm ao caso aqui. Por se tratar de uma composição prévia às demais publicadas, justifica-se a numeração nula do título.

Em seguida, uma análise da obra, que foi ao ar pela primeira vez, e única, até agora, no extinto fotolog. Pensava-se estar perdida a crítica, mas eis que foi encontrada nos arquivos desenterrados. Ei-la.

***

De provocações (o espírito renega)

Prazer e culpa não são atos; são crenças

*

I

*

Algum tempo já passou, mas a memória ainda vive

talvez quando expirar ninguém mais a reconheça

por isso a imortalizo nesta escrita saudosista:

minha primeira vez, eu descrevo os arrepios.

*

Estávamos a sós, e os olhos dela os meus miraram.

Ela não acreditava, mas seu corpo já sabia,

assim os lábios trêmulos de mim ficaram próximos

e quando cobri sua boca, expectativas se acabaram.

*

Suas meninas já chorosas, e os braços me abraçaram,

a resposta, que prazer!, com grande força a agarrei.

Seu busto, arfante, então eu pude tatear

até o bom momento, no qual ela quis gritar.

*

Com média força penetrei, até a voz sumir;

as respirações, como eu, se aprofundaram

e quando dedos dela relaxaram e os meus se enrijeceram

seu rosto deslizou, a descer pelo meu corpo.

*

O prazer foi indescritível, arrepio só ao lembrar;

ao fim, deitada estava sem nem poder dizer

o quente caldo ainda escorria em sua boca

e dali parti, deixando-a (e) feliz.

*

Jamais me esquecerei, limpando o sangue da espada

Jamais me esquecerei, a primeira vida que tirei.

**
Cantiga de amigo
*
Com o coração pulsante já o amava sem igual.
Foi assim que aceitei visitar o aposento
que mais amor traria, como cri até o momento
mas se desonra não havia, por que sinto um funeral?
*
Quebraria (isso não!) as leis do Pai e as Leis do pai
mas um desejo, de amor puro, nos ofuscou por um instante.
E se no dia fora bom, muito hoje é angustiante
lembrar que nada houve, mas de pensar o Bem se esvai.
*
Mal aguento minha culpa de inconter minha vontade
ser querida, tão errado!, isso diz meu ensinamento
mas se não posso amar, de que vale essa bondade?
*
que tanto cobra a mim, ameaçando sofrimento
– não questiono! Estou errada, essa é a verdade.
Não quero as coisas boas, se me roubam meu alento.”
**
“Eis uma guinada na aparente serenidade dos bons sentimentos presentes até o momento. A essa altura, já devem ter reparado a pequena influência machadiana em minha escrita. Não o nego; aliás, Maquiavel e Sun Tzu não hesitam em ressaltar as vantagens de se basear em exemplos bem sucedidos. Agora, se me limito apenas a imitá-lo, não sei dizer precisamente. E não creio vir ao caso neste momento. O momento, sim, é de apresentar um poema, chamado “De provocações… (o espírito renega)”, título o qual se encaixa perfeitamente na minha dinâmica de títulos desse photoblog, embora a redação tenha ocorrido muitos meses antes de eu cogitar criar essa página. Algumas pessoas já leram essa obra, e não terão, provavelmente, a mesma sensação da primeira vez, fato natural, e observado em várias situações relacionadas a primeiras vezes. Mas a esses indivíduos, bem como aos que ainda não leram, ou que leram precisamente antes de chegar a essa descrição, fato correto, por sinal, e que deveria ser seguido pelos demais. Vão, leiam e voltem; não há pressa; não perderão o passeio turístico a uma filosofia psicológica que está por vir… vantagem suprema dos textos. Mas a essas pessoas todas dou a oportunidade de descobrir, enfim, o que passou por essa cabeça minha no momento da composição, as intenções, as construções, as figuras de linguagem, uma análise breve, em suma. Trata-se de uma concepção, que tive, de partir de premissas e provar um ponto de vista, uma tese, digamos, mas em forma de poesia… um poema-tese, o primeiro, de uma série de poemas-tese que até hoje não surgiram para acompanhar esse. A tese? Voltem e vejam o prólogo no alto, um pequeno texto que poderia ser tomado por título, se este não estivesse apresentado antes. Este é o ponto crucial, o eixo em torno do qual o poema se desenrola. Eis a relatividade dos sentimentos, contrapondo-se ao senso-comum de Bem e Mal. Já se perguntaram porque a opinião diz tão categoricamente que algo é ruim? Não seria esse algo ruim PARA alguém? Se não virmos erro em determinada ação, porque ela é fundamentalmente errada? Do outro lado, porque nos sentimos tão mal, às vezes, por fatos ditos irrisórios? Quem é essa opinião, tão forte a ponto de dizer que me equivoco em me preocupar por algo que ME aflige? Temos que o prazer e a culpa, ou qualquer sentido bom ou mau, não decorrem das ações certas e erradas, respectivamente, mas da interpretação que se tem delas. Duvida? Leu a primeira parte do poema, não? A parte “Primeiro”, expressa pelo numeral romano (que simboliza tanto a primeira parte como a primeira vez do eu-lírico), deu-lhe sensações, não? Por um momento, viu-se a saborear a escrita, não? Curtiu as “provocações”. Mas o que fez ao descobrir do que se tratava a descrição? Imagino que, talvez, algum leitor tenha até se deliciado mais, mas deixemos isso de lado. Passada a surpresa, pode ocorrer uma repulsa, pois o “espírito renega” o fato, não do relato, mas de você ter gostado tanto da cena, até a consciência tentar coibir esse sentimento. Mas é tarde; amou a um assassinato. Se tem ex-amores, sabe que é ex por não mais amar essa pessoa, e a condição sine qua non para isso é ter amado. Mesmo que repudie a cena agora, foi bom durante, não foi? É…… Quanto à “Cantiga de Amigo”, volte ao Trovadorismo e lembre-se do significado do termo, antes de levantar falso testemunho contra mim, e repare na angústia do eu-lírico feminino em agir contra valores seus, resultantes de uma rígida criação religiosa (leis do Pai) e familiar (Leis do pai). Repare que nada é omitido: essencialmente nada ocorreu. E você, em parte pelo choque recém-adquirido, em parte por seu estilo de vida, sabe que não tem nada demais, não é? Que que tem demais gostar de alguém? Ser gostado por alguém? Ter vontades decorrentes desse encontro, não pervertidas, mas de carinhos? Concorda? Pois, então, juntemo-nos à opinião, e privemos a garotinha de seu direito de sofrer. Estão claras, já, as provocações e a negação do espírito, nessa parte? Deixemo-na com seus sentimentos, posto que os valores dela que a afligem são unicamente dela. É tarde. Preciso dormir. Se quiser pensar a respeito, se quiser reler, discutir, ou mesmo deixar pra lá… Enjoy!”

***

Blog do André

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