Das assistências técnicas

Há anos tenho em minha cabeça uma certa convicção, a qual exporei a seguir: por mais que encham de pompa o estudo da medicina, ele nada mais é do que um curso técnico de reparo de maquinário biológico, uma assistência técnica de seres vivos, por assim dizer.

Se há alguma necessidade de argumentação a respeito, conste que sou um médico veterinário, filho de um aposentado técnico em eletrônica (TE), e, muito antes de sonhar em cursar a faculdade, já acompanhava meu pai em consertos de rádios, televisões e vídeos, enquanto outras crianças provavelmente faziam o mesmo, mas em concertos. Conforme avançava em minha graduação, as comparações foram inevitáveis, e, hoje (essa semana, na verdade), consegui imaginar dois diálogos paralelos que comprovam minha tese. Para evitar a referência direta à minha vida, os personagens analisados serão um médico (de humanos), em vez do veterinário, e um mecânico de carros, em vez do TE.

Antes, padronizemos alguns signos:

M – mecânico / médico

C – cliente / convalescente

(a) – na oficina

(b) – no hospital

(1) – queixa principal

(2) – anamnese

(3) – exame físico

(4) – exames complementares

(5) – diagnóstico

(6) – prescrição de tratamento cirúrgico

(7) – prescrição de tratamento médico

**

(a)

M: “Bom dia, senhor! Qual o problema?”

C: “É meu carro. Ele deu um problema e acabei perdendo o dia de serviço” (1)

(b)

M: “Bom dia, senhor! Qual o problema?”

C: “É minha barriga. Tive um problema e acabei perdendo o dia de serviço” (1)

(a)

M: “Hum… e como foi que aconteceu? (2)

C: “Então, tava tudo normal, aí de repente ele começou a fazer um baita barulho estranho e parei no meio da rua.”

(b)

M: “Hum… e como foi que aconteceu? (2)

C: “Então, tava tudo normal, aí de repente ela começou a fazer um baita barulho estranho e tive que parar no meio da rua.”

(a)

M: “Hum… entendi. Bem, vou dar uma olhada. Abre o capô, por favor.” (e mexe, aperta, puxa…) (3)

(b)

M: “Hum… entendi. Bem, vou dar uma olhada. Deite-se ali, por favor.” (e mexe, aperta, puxa…) (3)

(a)

C: “E então? Que que aconteceu?”

M: “Olha, vou precisar que ele fique aqui um ou dois dias pra ver melhor por dentro e falar com mais certeza. Sabe, olhar as peças de perto.” (4)

(b)

C: “E então? Que que aconteceu?”

M: “Olha, vou precisar que o senhor fique aqui um ou dois dias pra ver melhor por dentro e falar com mais certeza. Sabe, um ultrassom para olhar os órgãos de perto.” (4)

(a)

C: “Alguma novidade?”

M: “O problema é nesse “caninho”, a mangueira de óleo, que estava entupida.” (5)

(b)

C: “Alguma novidade?”

M : “O problema é nesse “caninho”, seu intestino, que estava obstruído.” (5)

(a)

M: “Desentupi com um arame, e isso deve resolver, senão vamos precisar cortar e trocar essa mangueira, se estragar.” (6)

(b)

M: “Desobstruí com uma sonda, e isso deve resolver, senão vamos precisar operar essa porção do intestino, se necrosar.” (6)

(a)

C: “Tá certo. Mais alguma coisa que eu deva fazer?”

M: “Olha, não use mais esse óleo que o senhor usou, e passe a usar esse aqui que vai ser muito bom pro funcionamento geral do veículo, além de prevenir que isso aconteça de novo.” (7)

(b)

C: “Tá certo. Mais alguma coisa que eu deva fazer?”

M: “Olha, evite comer essas coisas que o senhor comeu, e tome esse remédio aqui que vai ser muito bom pro funcionamento geral do seu organismo, além de prevenir que isso aconteça de novo.” (7)

(a)

C: “Muito obrigado! Quanto lhe devo?”

M: “Por nada. São R$100,00.”

(b)

C: “Muito obrigado! Quanto lhe devo?”

M: “Por nada. São R$1000,00.”

**

Só não entendo por que a maior diferença de todas está na última parte.

André

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