Gato e sapato revisited

Este será uma republicação de um post que escrevi em um finado blog. Mas, como hoje é do dia dos animais, achei que valia trazê-lo pra cá devido ao tema, que é o estímulo da posse responsável de animais. Sobre minha pessoa, fiquem cientes da minha profissão veterinária, e de que não sou adepto de escrever e falar sobre o que sempre falam, e da forma que sempre falam.

Ainda assim, é um assunto que acho que vale a pena ser tratado, então não esperem muita complacência, pois tenho que compensar a ordinariedade do conteúdo na forma. E começo por dizer que as pessoas, quais minhas palavras iniciais, optam por adquirirem (escreveria “adotarem”, mas muitas compram, e essa é uma distinção que não cabe aqui; não no parágrafo, pelo menos) um animal de estimação, seja um cão, um gato, um ferret, um tucano, um porco, ou até um namorado (não, namorado não…) nos ímpetos desencadeados pela fofura dos bichinhos e prolactina liberada por isso. Mas, sem um devido planejamento, podem perder o interesse por eles, tão logo cresçam, destruam coisas, reproduzam-se, ou os donos inconsequentes descubram que não têm as condições financeiras necessárias, ou simplesmente enjoem. E mais um animal habitará as ruas.

Alguns cães ainda encontrarão refúgio sob carroças de mendigos, e os defenderão melhor que pastores das placas “Cuidado, cão bravo”. Mas e os gatos, tucanos e porcos? E os vários filhotes, ensacados e lançados ao rio ou uma via movimentada? Apenas alguns dos fins possíveis pela irresponsabilidade dos donos. Claro, nem todos os casos advêm de pessoas más; como costumo defender, as pessoas boazinhas são tão ou mais passíveis de cometerem atos de maldade.

Suponhamos uma bondosa alma que, não podendo adotar um cão da rua, resolve, pelo menos, garantir sua alimentação e algum carinho, sem efetivamente domiciliá-lo. Ela não sabe que um cão semi-domiciliado (o “cachorro da vizinhança”), por ter alimentação e certos cuidados médico-veterinários, porém sem restrição física, passa a ter uma taxa reprodutiva altíssima, gerando filhotes que engrossarão a camada dos cães não domiciliados, que nada mais são do que aqueles que nos matam de dó, por viverem doentes, em magreza e subnutrição subsaarianas, com baixíssima expectativa de vida. Resumindo uma aula de Epidemiologia em uma frase: Em sua bondade, a pessoa, ao ajudar um cão, condenou outros dez à completa miséria.

Concordo que a sensação de escravidão, associada com as obrigações inerentes a se ter um pet, quando descoberta já dentro da situação, pode acabar com o prazer de criá-lo. Mas o quão diferente ela é dos compromissos com um filho? Por essa razão, a falta de responsabilidade não se justifica. Então, o primeiro passo ao se pensar em adquirir um animal é: parta do princípio de não tê-lo. Depois, exclua uma a uma as razões para isso. Se conseguir, aí, sim, poderá ir atrás do seu bichinho.

Ou seus bichinhos… “Hum… quantos?” Uma conta bem simples pode ser feita da seguinte forma: Quantos filhos você pode criar decentemente? “X.” E quantos filhos você pretende ter? “Hum… Y!” Bem, poderá ter X-Y pets. “Mas e se eu quiser ter o mesmo número de filhos que eu puder criar??” Aí, X=Y, portanto X-Y=0, e você não pode ser um proprietário de animais de companhia. “Mas eu não tenho condições de ter nenhum filho!!! Não posso ter um gatinho pra me fazer companhia no meu cafofo?” Não, sorry. “Mas eu não posso criar nenhum filho e já tenho dois!” É, sua irresponsabilidade já está além da questão da posse animal.

Ter um animal é ter um filho. Tem que ser assim. Os cuidados de alimentação, saúde, educação e carinho não divergem nada do que se faz com um bebê. Aliás, são mais delicados, porque facilmente os proprietários projetam seus ricos e sábios valores humanos em seus companheiros de quatro patas (ou duas asas, ou nadadeiras, ou o que for). Dois exemplos típicos são a alimentação (“Ah, mas ele gosta tanto de pizza de gorgonzola com chocolate! Maldade ficar só comendo aquela ração ruim!”) e a esterilização (“Castrar o coitado?! Mas ele não pode nem se divertir dando umazinha?”)

Estudiosos do mundo se matam para fazer pesquisas que determinem as necessidades nutricionais de seus amiguinhos, e indústrias investem milhões em formulações que garantam esses níveis. Eu, que tive que estudá-los, não tenho cacife para contestá-los. Por que você, em sua ignorância leiga baseada nos próprios e emotivos valores relativos e inconstantes, acha que tem o direito de complementar a dieta balanceada do seu animal?

Adenocarcinoma mamário (“tumor de mama”), hiperplasia prostática benigna, adenocarcinoma prostático (já conseguem inferir, né?), doenças infecciosas sexualmente transmissíveis, filhotes indesejados, aumento da população de cães e gatos errantes e, consequentemente, maior risco de doenças como raiva, leishmaniose, toxoplasmose etc., e de acidentes com agressões, inclusive do seu bichinho. São algumas consequências de um animal inteiro (não castrado). Se você não é um criador oficial, castre seu companheiro.

“Ah, mas assim ele é mais feliz!” (resposta que vale para os dois parágrafos anteriores) Se seu filho fosse… ou melhor, quando seu filho for um viciado em crack, certamente ele ficará mais feliz quando você vier com uma pedra para ele no dia das crianças. Mas isso é o melhor, quando você é a pessoa responsável por ela? Essa sensação que o(a) leitor(a) acabou de ter é a chave da posse responsável.

Fora os cuidados com a saúde. Não é uma propaganda para aumentar meu serviço, até porque nem atuo na área de animais de companhia, mas é preciso saber, antes de se adquirir um pet, que será preciso levá-lo ao veterinário com frequência maior até do que a que você vai em médicos, ou leva seus Y filhos. Isso porque ele não só não sabe explicar os sintomas que possui, como os apresenta de forma diferente da nossa, e tem um metabolismo particular da espécie, que faz com que muitos dos tratamentos caseiros a que submetemos nossos rebentos piorem os quadros (nota: nunca, NUNCA, never ever! dê Tylenol para seu gato!). Vale lembrar que a medicina veterinária não tem SUS, nem convênios difundidos na escala da medicina humana.

Se você chegou até aqui, e já pensou duas vezes se quer mesmo aquela fofura de estimação, a derradeira: considere todos esses aspectos em uma linha de tempo de uns 15 anos ou mais. De posse dessas novas informações, espero ter filtrado muitas intenções. Não é uma questão de crueldade, mas de responsabilidade. Porsches não são para todos, faculdades não são para todos (se todos se formarem engenheiros, vamos ter engenheiros trabalhando de pedreiros), filhos não são para todos. É triste, mas animais de estimação também não são. Quer dizer, pra eles não é triste.

Por fim, aos que constataram poder ter seus mascotes, acho que se faz válida uma discussão sobre a aquisição via compra, ou adoção. Não é, a partir daqui, uma análise técnica, mas uma opinião. Adotem. Há, sim, a questão do grande número de animais abandonados por quem não teve a sorte de ler essas palavras antes da decisão de tê-los, recolhidos pelos centros de controles de zoonoses e abrigos, e que aguardam sacrifício caso ninguém os queira (afinal, ainda há a questão de saúde pública). Mas isso é sabido, não tendo, portanto, influência maior nesse texto do que já tem na sociedade.

Mas há a questão do amor pelo bicho, que se manifesta na interação com o indivíduo, na sensação pessoal. Isso é fundamentalmente diferente de se escolher o pet por uma ficha cadastral, como um processo seletivo para um empregado, ou uma sessão de compras numa grife de sapatos. Perguntem a casais que não conseguem engravidar, e optam pela adoção de crianças, se eles as escolhem assim, ou pelo relacionamento afetivo que nasce junto a quem precisa deles. ”Ah, eu queria um gato marrom, de tamanho médio.” “Desculpe-nos, senhora. Os nossos marrons já acabaram. Mas nesse tamanho temos um branquinho que talvez a agrade.”

André

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