Nerd Metal

Primeiramente, como inteligência é afrodisíaco, esse post é dedicado aos blogs das Garotas Nerds, Garotas Geeks, Pink Geeks e, principalmente, à minha amiga virtual Pikachu.

Segundamente, e agora desenvolvo, uma das coisas que amo é o metal, mas acho que isso já ficou claro na saga Amor no Metal. Só que metal é um gênero bastante abrangente, hoje em dia, a ponto de diversos aplicativos, sites e fotos fazerem até brincadeira com os vários subestilos (um dos meus preferidos é o Map of Metal). Então, dentre esses, quais são meus metais favoritos?

Poderia citar o progressivo, o power, o gótico e o sinfônico. Na verdade, não são propriamente os estilos que me fascinam. Sim, digo que gosto deles porque, via de regra, as características das bandas pertencentes a cada categoria me agradam, mas o fazem mais porque repetem as coisas que me chamaram a atenção nas minhas bandas favoritas, e essas são fáceis de enumerar, embora não poucas. Ou seja, digo que gosto dessas vertentes de uma forma retrospectiva, vendo primeiro quais bandas curto para depois ver em qual grupo elas estão, sendo fã, portanto, do estilo.

Só que até agora apenas girei em torno da questão do ovo e da galinha. O que diabo há nessas bandas que me faz gostar delas? Depois de refletir algum tempo, consegui achar o denominador comum, a regra geral que faz até com que outros tipos de metal aparentemente nada a ver entrem na dança agradando tanto quanto seus parentes listados, como é o caso do Sepultura. Gosto das músicas nerds!

E não me refiro aqui ao conceito pop de nerdice. Sim, posso falar das sagas das Enchanted Lands do Rhapsody Of Fire, no bolo dos RPG’s a la Senhor dos Anéis, ou do fascínio por tecnologia com criação de ficções científicas, como o álbum Iconoclast do Symphony X, a la The Matrix, ou a versão do Epica de Imperial March. Mas há um conceito nerd mais amplo, o espírito nerd per se: a paixão pelas coisas inteligentes, de beleza não necessariamente imediata e que requer uma cavoucada para ser exposta e dar o prazer de exclusividade em entendê-la. Ela engloba os outros dois, classicamente repudiados pela mainstream, mas que exigem massa cinzenta para ser apreciada (isso já está virando uma grande teoria dos conjuntos).

De posse dessa nerdice, descobri, por exemplo, que gosto muito da técnica empregada nas composições, afinal é preciso muito estudo para conseguir tocar determinadas coisas, e algum para compreendê-las no emaranhado de sons. Isso explica parte da predileção por prog metal (como Dream Theater, Symphony X, Pain Of Salvation e MindFlow), afinal, é o que de mais refinado há no metal.

Há também o mar de referências, que mostra que os músicos se empenharam em estudar sobre o que eles iriam tocar, ou que aquilo já era bagagem cultural deles, ambos os casos igualmente louváveis. É aqui que mais me delicio, mas deixarei como teaser apenas as releituras de grandes epopeias da humanidade, um tipo de literatura que, como já dito também, figura no meu hall de best of.

Em ordem cronológica (do surgimento da fonte, não da música), a Ilíada foi trabalhada pelo Blind Guardian, a Odisseia pelo Symphony X e a Eneida pelo Power Symphony, banda que também louvou sua conterrânea Comédia, assim como o Sepultura. O Paraíso Perdido foi também cantado pelo Symphony X, em mais de uma ocasião (primeiro em uma música e, futuramente, em um álbum completo), ao passo que o Fausto frutificou dois álbuns completos do Kamelot. Ficaram faltando Os Lusíadas, se alguma banda lusófona quiser ter a grande honra, e minha Lupíada, quem sabe um dia acabada e cantada por mim?

O dedo coça para elencar outras citações, mas prometi me conter nos teasers. Fiquem sabendo, para atiçar a curiosidade, que há músicas sobre Tolkien, Laranja Mecânica, Alice Através do Espelho (por que se restringir ao famigerado País das Maravilhas?), Atlântida, Bela e a Fera, Alexandre, a diáspora hebraica, fundamentalismo e muitos outros temas. Se não por nada, encontrar uma referência em uma música de uma banda de que se é fã é sempre uma forte motivação a ver os livros, filmes etc. que a inspiraram, cumprindo até um papel social em aumentar nossa cultura (já que hoje tudo tem que ter a maldita sustentabilidade, né?)

A extrapolação do conceito referencial surge nas Ópera Rocks, outra grande característica do nerd metal, com um álbum contando uma história, ou vários álbuns dedicados ao desenlace de uma saga (nesse ponto, Rhapsody Of Fire é campeã). Às vezes, vários álbuns contêm músicas que constroem outra narrativa, como a Twelve-step Suite do Dream Theater (ou seria só do Portnoy, agora?), ou a Embrace That Smothers do Mark Jansen, levada do After Forever para o Epica. E, com tudo isso, vamos reconhecendo as “parts” numeradas delas, criando playlists para poder ouvir a sequência completa. Um prato cheio pra se desenvolver TOC.

Por fim, os clássicos (Black Sabbath, Ozzy, Dio, Iron Maiden, Deep Purple, Motörhead, Metallica, AC/DC e toda a cia de tiozões headbangers). Não são enormemente elaborados tecnicamente, nem surgiram num contexto de músicos nerds lidos e escolados (na verdade, eram bem selvagens, sujos, burros, bêbados e drogados), mas a História os manteve vivos sobre todos os seus contemporâneos, e por isso os conhecemos (os que não somos tão velhos, claro). Como um bom Machado (de Assis, não do Manowar), que se sobressaiu entre os demais escritores de sua época e chegou a nós por ser muito bom, a mera existência dessas bandas é motivo para gostar delas, uma vez que se gosta de metal. Fora que sempre é possível nerdizar sobre as suas influências históricas e classificações que derivaram delas.

André

3 Responses to “Nerd Metal”


  1. 1 Pikachu 21/10/2011 às 1:32 am

    Geniaaal, André!
    Taí um post que eu gostaria de ter escrito! :]
    Valeu pela lembrança!


  1. 1 Literatura no metal (prólogo retroativo) « Andy Moreno’s Blog Trackback em 03/10/2012 às 7:56 pm

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