Antivoto

Este será um post curto. Como de costume, ele parte de algo da minha personalidade que tenta ser extrapolado para algo geral, preferencialmente útil. Então, conste que sou uma pessoa bastante flexível, apenas não gosto que me contrariem. Apesar do humor implícito, tem uma pitada de verdade: em geral, costumo me abster de posicionamentos. Digo isso para casos mais simples, cotidianos, e, por isso mesmo, mais numerosos. “Onde vamos comer?”, “Em que brinquedo do parque você quer ir agora?”, “Que sabor de pizza você quer?” etc., são algumas das perguntas que recebem um “Qual você(s) quer(em)?” da minha parte, mesmo eu sabendo que somente os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta.

Isso porque, dentro de certo universo de escolhas, elas têm o mesmo peso pra mim, então prefiro deixar que escolham aqueles que de fato têm preferência por alguma delas. Só faço questão do direito de veto, que é a parte “não gosto que me contrariem”, geralmente usada quando saem daquele universo de equivalência (“Contanto que não peçam pizza de peixe ou fungo, por mim tudo bem.”).

E eis que acho que o mesmo veto deveria ser inserido na nossa democracia: deveríamos ter o direito de dizer quem não queremos no poder. A isso dei o nome de antivoto. Cada cidadão deveria ter direito, além de a um voto, a um antivoto, que reduziria em uma unidade a contagem do candidato desafeto. O recurso seria inválido (senão inútil) quando se escolhe apenas entre dois candidatos, afinal, escolher um já é dizer que não quer o outro. Mas, quando se tem mais opções, não raro, algumas, além da selecionada, são mais toleráveis que outras.

Posso voltar ao modelo da pizza: entre calabresa (C), mussarela (M) e aliche (A), eu opto pela de queijo (M+1). Mas não teria problemas com a calabra. Só pelo amor de deus não me deem a de peixe pra comer! (C0; M+1; A-1). Algum sufragista calabrês poderia ter a mesma aversão alíchea (C+1; M+1; A-2). Com um terceiro voto, agora de um ictívoro, a contagem positiva estaria empatada (C+1; M+1; A+1); independentemente de por qual sabor este tenha asco (suponhamos pela mussa = M-1), os antivotos impediriam a escolha píscea (C+1; M+1-1; A+1-2). Ganhando a calabresa, com 1 ponto, contra 0 da mussarela e -1 do aliche, um ficaria feliz, enquanto dois pensariam “Menos mal.” Parece melhor do que depender de um voto de Minerva que poderia desempatar a eleição excluindo da mesa dois comedores em prol do aliche, no pior cenário.

Assim, talvez, conseguiríamos combater a eleição de tantos Sarneys e Tiriricas. Os eleitores conscientes, ao votarem em seu candidato, antivotam em seguida nos ultrajantes. E, ainda que com ideologias políticas divergentes, diversos sérios estarão unidos contra a palhaçada. Fica a dica.

André

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