Efeito tara

Calma!!! Ao contrário do que qualquer ser humano médio, normal, razoável poderia pensar com esse título, não vou ferir o decoro neste post. Aqui é um blog de família. Aliás, o post não poderia ser de mais utilidade pública para as famílias desse mundo, e não só para elas, mas para qualquer espécie de relacionamento interpessoal e, arrisco-me, com produtos e serviços. Denunciarei abaixo uma das maiores causas de problemas quando se trata de convivência: o efeito tara.

Das acepções oferecidas pelo dicionário UOL Michaelis, utilizarei-me das duas primeiras, mas puxando para suas aplicações práticas no dia a dia, como, por exemplo, a balança de um restaurante self-service, que creio ser uma cena comum a todos que me leem. Antes de colocarmos o prato para aferir a massa da comida servida, vemos que a balança marca (ao menos deveria) um valor negativo, correspondente, em módulo, ao peso (uso leigo para massa) do prato vazio, para que este não seja cobrado indevidamente. Como a gerência do restaurante faz isso, sem ter que comprar uma balança calibrada para cada modelo de prato disponível no mercado? Com o botão tara, que leva qualquer valor marcado pelo aparelho imediatamente para o zero.

“E o que diabos isso tem a ver com relacionamentos?” Ora, conste que é possível se tarar as balanças com qualquer peso sobre elas, o que significa que mesmo o prato cheio de feijoada marcará zero se o botão for apertado enquanto ele estiver na bandeja. “E daí?” Daí que o mesmo tende a acontecer entre as pessoas: elas sempre apertam o botão.

Situação: em um casal, uma das partes resolve agradar a outra levando-lhe café na cama (repararam no politicamente correto?), o que, se nada for derrubado a ponto de manchar e estragar os lençóis, costuma ser recebido com um grande sorriso, admiração pelo gesto de carinho e um agradecimento; a uma repete o agrado no dia seguinte, e no próximo, e nos próximos d+1 dias; um dia, percebendo que a outra já não recebe o mimo com o mesmo entusiasmo do primeiro dia, a uma decide não trazer o desjejum; a outra pode esboçar mil reações a isso (do “hum…” ao “você não me ama mais?!”), mas grande parte delas terá como origem o estranhamento de não receber o café com que se habituou nos últimos dias. E isso ocorreu pois a outra apertou o botão tara com o café da manhã na cama na bandeja da balança.

“Então você tá falando das pessoas se acostumarem, é isso?” Não só isso. O efeito tara tem um agravante: não só o gesto da uma deixa de ser percebido (a balança marca zero), como a sua falta cria um valor negativo, como o da balança sem prato no restaurante, que é o fato gerador das conhecidas frases de cobrança da família do “Você mudou.” Em resumo, muitas das brigas e decepções ocorrem porque as pessoas se habituam aos benefícios, incorporando-os como obrigações, que obviamente incomodam quando não cumpridas. O raciocínio pode ser extrapolado à vontade: a mãe que não te acordou pra ir à escola, o empregado que não quis ficar além do horário, os downloads que não ocorreram naquelas super-taxas, as promoções de início de ano que voltaram aos preços normais… A frequência gera costume, o costume gera expectativa, a expectativa gera decepção, a decepção gera frustração, a frustração gera brigas e as brigas estragam relações.

“E como evitar isso, se é que dá?” É difícil. Parece que o ser humano foi programado com essa função. Talvez até os animais em geral (pelo menos na parte de se habituarem, embora eu ainda não tenha pensado o suficiente para concluir se há a mensuração negativa quando perdem os benefícios). Mas dizem que reconhecer o problema é metade da cura, então, se pudermos lembrar conscientemente, quando frustrados, que podemos estar sob influência do efeito tara, talvez fique mais fácil voltar ao bom estado em que tratamos o benefício como bônus, e que deixava todos os envolvidos felizes. Boa sorte.

André

2 Responses to “Efeito tara”


  1. 1 alexcosmo 01/04/2012 às 5:39 pm

    Sensacional!!! “Cuidado para a sua gentileza não tornar-se obrigação” Me disseram isso uma vez e faz todo sentido.
    Eu costumo dizer que só posso surpreender quem não espera nada de mim. Se esperar… zôa tudo!
    Parabéns pelo post!

  2. 2 Alessandra (@pikatchus) 02/04/2012 às 9:50 am

    “A frequência gera costume, o costume gera expectativa, a expectativa gera decepção, a decepção gera frustração, a frustração gera brigas e as brigas estragam relações.”

    Genial, André!
    Parabéns pelo texto!


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