Das separações das bandas, ou um capítulo da era do politicamente correto

(Pode ser que o título seja mais longo do que o texto, já aviso.)

A internet divulga, denuncia, critica, brinca, faz piadas e memes sobre o assunto, mas sempre arruma um jeito de abordar a era de censura que se instalou. Claro, nada tão radical quanto o terror de invadirem nossa casa no meio da noite e sumir com alguns familiares nossos por alguma coisa que foi feita, dita ou, pior, entendida por alguém, mas convivemos com o medo da repercussão das nossas declarações, sobretudo no meio digital, em que se é muito fácil documentar provas para justificar retaliações. Que isso tem um lado positivo de combater preconceitos, não há dúvida (como no caso da twitteira que achincalhou os nordestinos), mas nos deixam como efeito colateral essa exagerada preocupação com o politicamente correto, uma versão tupiniquim da britânica politeness.

Ninguém mais fala o que pensa em nome da boa convivência ou da prevenção de possíveis problemas futuros. Quando falam, geralmente são prontamente atacados por sua sinceridade. Não faltam exemplos de ambos os casos, mas quero usar o ambiente musical metaleiro para ilustrar o que digo.

Fãs minimamente fiéis às suas bandas acompanham eventuais alterações de formação: trocam-se vocalistas, sai um guitarrista, entram dois, despedem-se baixistas, assumem-se tecladistas, encerram-se bandas, projetos e turnês e por aí vai. Independentemente da repercussão que isso gere no público (geralmente restrita a ‘era melhor antes’ ou ‘ainda bem que ele(a) voltou’ – sim, somos conservadores e reacionários), as declarações oficiais seguem um protocolo de etiqueta bem estabelecido.

Em primeiro lugar, a rasgação de seda. Todo músico sai de uma banda desejando todo o sucesso para os antigos companheiros, dizendo que a amizade continua, que os anos passados juntos foram especiais, que ficam as boas lembranças dos momentos bons e ruins, que tem a certeza de que aprendeu tanto quanto contribuiu. Parece-me que alguma coisa que andava tão bem assim não tinha por que acabar, certo?

Em segundo, as justificativas nebulosas. Qual membro não sai da banda, mesmo que expulso, alegando ser hora de expandir seus horizontes, e o grupo decidiu seguir caminhos diferentes, mas a música é o amor comum de todos e por isso vão sempre trabalhar juntos, ainda que paralelamente? Até citam que houve problemas, mas dizem que os ‘detalhes não vêm ao caso’. Porra, são os detalhes que vão explicar aos fãs o que de fato aconteceu, não os eufemismos vagos com tom de autoajuda!

Disso só concluo que eles seguram a língua por considerarem sempre o possível reencontro, como uma namorada que dá o pé na bunda do cara dizendo que ‘talvez no futuro, mas hoje não tá dando certo’, mantendo a chama da esperança acesa em quem espera a reconciliação. E, apesar do que eu disse da politeness brasileira, esse comportamento certinho é percebido globalmente. Creio que o último desabafo sincero que vi foi a carta de demissão da Tarja em 2005, quando o Tuomas, resumidamente, disse ‘Eu acho que você só pensa em dinheiro e não quero mais você na minha banda!’ Certo ou errado, verdadeiro ou falso, a merda foi para o ventilador.

Talvez essas bandas devessem aprender mais com os políticos, que, dependendo da conjuntura, adoram ou odeiam uns aos outros, sem nenhum remorso ou mágoa pela opinião passada, e, assim, não correrem riscos de infartarem por ficarem com tantas coisas engasgadas. O Ozzy não passou vontade e hoje vive bem em sua vigésima reunião com o Sabbath.

(Não, o texto ficou maior.)

André

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