Ensaio sobre a localização da internet – uma abordagem metafísica

Alguém já parou pra pensar onde fica a internet? Algumas respostas vêm prontas, dizendo que vários locais hospedam o conteúdo da internet em seus servidores, ou que a internet é uma rede mundial, mas virtual, não estando em nenhum local físico. Pessoalmente, já pensei um pouco sobre o assunto, e expandi as ideias numa conversa com meu primo – pessoa igualmente viajante em assuntos banais. Eis um esboço do que conseguimos:

Considere uma conversa com uma pessoa, de forma direta ou através de um recurso da internet (msn, skype, facebook, twitter etc.). Considere que você esteja no Brasil e essa pessoa no Japão, ou quaisquer outros dois pontos que tendam ao diametralmente oposto no globo. É possível perceber que a conversa pela internet tornará a comunicação possível, enquanto a fala direta fará as duas pessoas parecerem loucas em seus locais. De onde se conclui que a internet aproximou esses dois indivíduos. Assim, a internet está localizada em algum local mais perto de você do que o Japão.

Por outro lado, e essa é uma cena familiar a vários ambientes de trabalho, considere essas duas pessoas frente a frente (em um lugar genérico chamado ‘aqui’), teclando suas mensagens pelo computador, em vez de falarem abertamente. Nesse caso, a internet os afasta. Então, a internet está em algum lugar mais longe do que essa distância entre você e o indivíduo.

Logo, a localização da internet, considerando esses dois extremos, está em algum ponto entre aqui e o Japão, de modo que, com o interlocutor aqui, ela afasta as pessoas, e as aproxima com ele lá, havendo, presumivelmente, um ponto crítico, um limite, em que ela os aproxima com igual intensidade com que os distancia. E nesse ponto ela residirá.

Até aqui eu fui sozinho, e me deparei com a pergunta “E onde é esse ponto?”, que se agrava com a ideia de que ele é móvel, conforme eu considere outros dois pontos quaisquer no planeta. Foi então que meu primo veio com a sugestão de considerar a internet não como puntiforme, mas como um corpo extenso. Com isso, esse ponto crítico que considerei seria um dos infinitos presentes na rede, havendo um ótimo para cada dois pontos limite considerados. A primeira ideia que veio sobre esse ótimo foi o limite do alcance da visão: o chat passa a aproximar tão logo as duas pessoas deixem de se enxergar e verem que uma fala com a outra.

Aí, um cenário: tenho uma pessoa ao alcance da minha visão, e bastaria olhar pra ela pra estabelecermos um contato e conversarmos diretamente, mas ambos estamos voltados para nossos computadores, e não percebemos o quão pequena era essa distância. A internet, então, nos afasta quanto mais vidrados nela estamos, a uma dada distância. Não seria culpa dela, mas nossa, esse distanciamento. Tem-se, então, que esse afastamento é variável conforme alguma característica do indivíduo que o prende mais ou menos a seu computador. Podemos usar como marcador dessa característica a introspecção; embora ela não justifique toda alienação do mundo físico para se restringir ao virtual, responde, em boa parte dos casos, por uma menor sociabilidade que leva uma pessoa a preferir conversar pela rede em vez de pessoalmente. Assim, o distanciamento do encontro ocular d = f(x) | x :: k, com k = constante de introspecção de um indivíduo em certas condições sociais.

Juntando essas ideias em um modelo geométrico, que, como já disse anteriormente, é só um jeito de dizer “desenhado”, podemos imaginar o campo de aproximação da internet como um manto sobre o mundo, com um halo de distanciamento que emana dos interlocutores, e que tanto maior é quanto maior for sua introspecção, até o alcance da visão. Nos limites, temos o sociável ciente de todos à sua volta, que já larga seu dispositivo para conversar e interagir pessoalmente assim que vê alguém, e o antissocial, cujo halo de distanciamento pela internet é tão grande que só vai perceber um amigo presente quando levar um safanão na orelha, e, assim, obter contato visual.

Não sei se isso responde à pergunta proposta. O ponto crítico estaria nessa interface do manto com o halo, em que o sociável poderia mandar uma mensagem para poupar uma fala um pouco mais alta, pedindo ao conhecido que se aproxime, e o antissocial mandar a sua para seu agressor, pedindo que se afaste sem esbravejar com ele.

Que é demasiada metafísica para um só veterinário, não há dúvida; mas há filósofos que são, em resumo, veterinários entediados.

André

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