Teologia (somente leitura)

Assim como a Grande Abóbora, fé é um assunto que não se pode discutir. Por essa razão, esse post não está passível de argumentações, nem tampouco busca convencer alguém a adotar a mesma postura que tenho. Trata-se apenas de uma exposição dos conceitos em que acredito, e de como cheguei a eles. Mas, também, não acredito que muitos cheguem ao final apenas pela curiosidade de me classificarem. Em todo caso…

Curioso é que as pessoas ficam menos espantadas quando acham que eu sou ateu e/ou satanista, devido às músicas que ouço, com agravação pelo sinal dos chifres com os dedos, do que quando digo que estão erradas e tento explicar minhas crenças, talvez por já existir um pacote com nome e destino definidos (ateu = abismo) dentro de suas religiões. Ainda assim, é engraçado que lhes seja mais confortável me tacar no inferno do que entender minhas motivações.

Entre as primeiras, digo que acho muito válido as pessoas terem fé em alguma coisa, pois, no mínimo, isso traz uma paz de espírito, que é o mais importante da vida. Mas as fés tradicionais não me dão esse alento, e eu não ficaria feliz seguindo um conjunto de dogmas cuja raiz não me convence. Nem aceitaria o popular, porém hipócrita, sincretismo, em que os fiéis agarram os pedacinhos que os mais agradam em cada religião e tecem seus próprios preceitos justificados em nome de outros. O que, então, é capaz de me confortar com a mesma eficiência? Razão. Tenho a forte tendência de aceitar como verdade as coisas que fazem sentido, e preciso ser bem chato metodologicamente para não ser enganado a toda hora pelos sofismos que vemos por aí. Todavia, é fato que o apelo racional me tenta com a mesma sedução da serpente Genesiana, e aceito nossas explicações científicas e filosóficas pros diversos fenômenos como o modelo mais eficiente de que dispomos para entender o Mistério da criação.

Concebendo a razão e a ciência como forças motrizes capazes de explicar as observações naturais, estas passam a existir segundo as leis da causalidade. Tudo é consequência de algo, e servirá como causa de coisas futuras. Podemos pensar numa grande reação química composta, com diversos reagentes gerando produtos, que por sua vez reagem com outros compostos, formando outros produtos, e assim sucessivamente. Tal qual em um vestibular podemos predizer alguma substância em algum ponto da equação, da mesma forma, acredito que os diversos pontos dessa equação universal estão definidos e resultarão de e em interações termodinâmicas. Alguns anos depois de chegar a essa ideia, descobri que existia um rótulo pra mim: determinista. Olhando para trás, poderíamos rastrear item a item, perguntando “de onde vem isso?”, até chegar a um princípio que, necessariamente, deve começar em si mesmo, ou as perguntas nunca acabariam.

Sob a luz da razão, a esse princípio chamo Deus e atribuo sua plausibilidade, o me leva ao segundo tópico das minhas concepções. Parece-me totalmente razoável que o universo que conhecemos tenha sido originado de algo maior, e que tudo deriva dessa essência (incluindo todas as leis naturais que já conseguimos qualificar e quantificar, e todas as outras que ainda jazem na escuridão da nossa ignorância), seja lá o que ela for, e que convencionamos chamar de Deus. Para minha sorte, a História se encarregou de dar um nome a essa abordagem: deísmo. Como deísta, aceito a existência divina como origem dos processos naturais, sem contudo aceitar, necessariamente, nenhuma atribuição que as diversas religiões lhe dão (algo como dizer “Eu creio em Deus, mas não no seu Deus ou no Deus de qualquer outro”).

Dentre essas atribuições, uma que particularmente me incomoda é a de moldá-lo em alguma forma física palpável. Não me importa se é um velhinho de barbas, um filhinho de barbas, uma família de incestuosos no alto da montanha, uma pomba branca, um corpo com cara de cachorro ou elefante ou meme, um nabo, um alien ou uma pedra. Parece-me deveras simplista que uma entidade de tamanho poder seja um ser comum como a gente. Talvez fizesse sentido quando os elefantes eram o máximo de grandiosidade que os hindus vissem, ou quando tivemos os primeiros progressos filosóficos antes dos outros animais, dando a ideia de que éramos superiores a eles, e, por isso, o resto do mundo foi criado para nós. Aliás, é exatamente por esse relativismo temporal que as formas corpóreas divinas não me apetecem. Um dia, Thor e Jove bastaram pra explicar os trovões e raios, até que Benjamin Franklin percebeu suas descargas elétricas e hoje temos todos os modelos elétricos (de Coulomb à Itaipu). Talvez no futuro a Santíssima Trindade ou os orixás também nos pareçam mitológicos.

Bem, se não as deidades individualizadas, então o quê, já que admito a existência divina? Eu poderia dizer de pronto a resposta, mas não soaria racional, e sim um misticismo poético de Caeiro. E, embora o tivesse lido antes de concluir a terceira característica de minha fé, o texto só me fez sentido depois de atinar para a ideia de equação universal determinista. A trajetória para esse sentido pode ser alcançada por um exercício de pensamento com um modelo informático: suponhamos a programação de um jogo não muito elaborado tecnologicamente, como Sonic, por exemplo. Ela lhe atribui um universo com suas leis, como gravidade, aceleração, quantidade de movimento, colisão, tempo e morte, e os elementos de seu mundo estão sujeitos a elas, como nós às leis da Física, Química e Biologia (que, no fundo, são uma coisa só). De certa forma, Naoto Oshima poderia ser considerado o deus desse universo, por ser o princípio antes do qual nenhuma lei do jogo existia.

Agora, suponhamos duas pessoas que fazem um curso de programação com o antigo staff da Sonic Team, e têm, um dia, aula de como criar o jogo do exemplo. Admitindo que ambos se empenhem e aprendam igualmente bem, é de se supor que o resultado da lição de casa sejam dois jogos iguais ao modelo. Assim, cada um se torna o deus de sua versão, embora os universos, suas leis e elementos sejam fundamentalmente os mesmos. Então, mais importante que o programador é a programação. Não sei quem definiu nossa equação determinista, e este bem poderia ser o Deus material em que acreditam, mas poderia ser um de seus alunos, ou um outro programa programado para nos programar. Mas a equação está aí, presente em todas as causas e consequências desde o princípio, sendo que nada existia antes dela e senão por ela, dando-lhe a onipotência, onisciência e onipresença que um nume deve ter, e que me satisfaz para assumir o papel divino. Aí veio a Filosofia e me chamou de panteísta. Mas tudo bem; Einstein também o era.

E eis que expus minhas convicções teológicas, e agora sabem porque respondo que sou um determinista deísta panteísta quando acham que sou um enviado do tinhoso. Enquanto estudava para redigir esse texto, descobri que podia fundir os dois últimos termos em pandeísta, mas a imediata referência sonora aos fofos guaxinins me inibe um pouco de assumir o título. Restam ainda as consequências dessas crenças, mas um texto desse tamanho sobre um assunto tão indigesto e sem pretensão de gerar discussões já merece um ponto final após o agradecimento a quem chegou até aqui. Obrigado.

André

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