Repartição pública celestial

Retomando os assuntos divinos, mas dessa vez de forma menos árida. Claro, uma vez que quero dar um tom divertido pro post, preciso que fique claro que ele não conterá nenhuma forma de preconceito a nenhuma fé, e de que só usarei o catolicismo por ser culturalmente mais difundido no senso comum brasileiro. Dito isso, já repararam como nossa realidade social moldou o conceito do Céu de forma parecida com o funcionalismo público?

O Todo-Poderoso parece ter ido às aulas de administração e aprendido que a melhor forma de liderar é delegando, de modo a acabar com sua formação generalista e, consequentemente, ter um pouco de paz. Incumbiu uma legião de entidades de tomar conta de cada aspecto que sua criação (nós) pudesse demandar, e já de forma peculiar, com inchaço da folha de pagamento: se Milton nos aponta que existiam cerca de 6,5 milhões de anjos fiéis, havia necessidade de novas contratações? E, a julgar que a fila de espera para beatificações – concurso – no Vaticano é longa, as admissões só tendem a se acumular.

Mas os santos estão aí, cada qual com sua alçada, e, já que citamos um grande poeta, por que não outro, e contar que Dante era devoto de Santa Luzia, a oftalmologista celeste? E pra poder dizer que já estive ao lado dele, além de em meus parcos tercetos, minha veterinária condição profissional me confere como padroeiro o pobre São Francisco pobre.

Nem os jogos de futebol, meus árduos concorrentes quando algo é publicado neste blog no meio da semana, escapam de protocolar pedidos, fazendo com que até o Criador se pronunciasse. Fora os numerosos departamentos, às vezes com duplicidade de função: santo das crianças (Cosme e Damião), dos músicos (Cecília), das causas impossíveis (Judas Tadeu e Rita de Cássia), das causas urgentes (Expedito), dos objetos perdidos (Longuinho), dos pobres (Edwiges), dos casamentos (Antônio) etc. Tem até um para os advogados (Ivo), se bem que duvido que esse tenha muitas causas ganhas. Se formos considerar as Nossas Senhoras, então, aí teremos um panteão completo!

Até aí, poderiam me dizer que é implicância, que tudo o que mostrei só reflete uma descentralização das funções empíreas, como acontece em qualquer empresa. Mas se formos analisar a burocracia exigida para se obter deferência em alguma solicitação (peregrinações – a pé ou de joelhos, jejuns, impressões de milheiros, pedidos de missas, velas, pílulas de papel, distribuição de doces, pulos e gritos, exposição de órgãos protéticos, privações sexuais e de outras ordens, dízimos e outras doações pecuniárias etc.), vemos que seria mais simples recolher o DARF (ou DARD – documento de arrecadação da receita divina). Fora que às vezes não há garantias do benefício.

Também os santos serviços parecem obedecer a um dos três postulados do serviço público (os quais descreverei em ocasião oportuna, mas prometo atualizar um link aqui), o do “não é comigo”, o que parece bastante razoável, dada as especializações. Aliás, atinaram para esse fato antes de mim, com uma marchinha exemplificando a situação. Imagino os coitados indo com uma ficha de guichê em guichê, colecionando carimbos em sua gincana.

E, como todo servidor público que se preze tem que ter dias de descanso, os santos são responsáveis por vários feriados, sobretudo municipais, com seus padroeiros, termo que designa, na verdade, que a função de um dado canonizado é só a de apadrinhar a localidade. E lá se contam mais nomes, do Paulo ao Petersburgo, passando pelo Patrício…

Mas, como a data dessa redação não se trata de véspera de nenhum feriado santo, é preciso parar. Espero que tenha valido algum entretenimento, e que muitas pessoas passem por aqui para ler. Ou será que isso precisaria de uma ajudinha do SJT?

André

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