Das dublagens e versões brasileiras

Post de intertextualidade com as Pink Geeks, após uma proveitosa conversa via twitter durante a redação da matéria delas, e com artigos lidos por aí, tendo como exemplo estes da Época e do Estadão, o meu vem como mais uma opinião a ser agregada no tópico.

Se acaso me fizeste o favor de ler” os links acima, conste que não enfadarei com dados numéricos, análises sociológicas e afins; já tiveram todo o trabalho por mim, e de forma profissional, modus operandi estranho a quem escreve pelo entretenimento e desabafo. Fica mesmo como se fosse um comentário registrado em qualquer uma dessas páginas.

Em termos técnicos, os estúdios de dublagem brasileiros são os melhores do mundo. Basta considerar que boa parte deles se concentra no Rio de Janeiro e não escutamos o carioquês arrrraxtado nas falas dos personagens de filmes, séries e desenhos (ATUALIZAÇÃO 08/11/2014: dois anos depois, o sotaque chega a incomodar em algumas produções. O que houve?!). Isso sem contar a sincronia com os movimentos de boca, melhores até mesmo que os originais: lembro até hoje das falas japonesas do Sheng Long quando assisti ao último episódio de Dragon Ball GT numa fita da Liberdade emprestada de um amigo (em 1998). Claro que eu não entendia nada, mas via claramente que o movimento de boca não tinha nada a ver com o som que supostamente saía dela.

Nesse ponto, sou super favorável à dublagem, tendo me tornado fã de vários dubladores e treinado meus ouvidos para reconhecê-los sempre. É com base nisso que me posiciono contra o recrutamento de estrelas… como dizer?… de verdade?…  não… que mostram a cara (isso!) para fazer o serviço de profissionais da área. Claro, Bee Movie, que não deixa de ser uma grande piada do Seinfeld, tinha que ter a voz do Jerry, mas não precisavam do Bussunda pra fazer a voz do Shrek, personagem com vida própria.

Ainda assim, sou um defensor da legendagem. Primeiro, pela questão da tradução em si. Toda tradução tem perdas, e quando posso ter acesso a dois idiomas ao mesmo tempo, a compreensão fica melhor. Claro que isso só vale quando entendo o que é falado na língua original, o que não ocorre em filmes alemães, japoneses, ucranianos… na verdade, em 100% – (português, inglês e espanhol) dos idiomas.

Em segundo, já que o argumento anterior tem abrangência limitada, acredito que as traduções, em legenda ou dublagem, têm a obrigação de transmitir não só o sentido do texto original, mas também as sensações de forma fidedigna. E, embora a técnica em si de dublagem brasileira seja impecável, os roteiristas deixam muito a desejar na transposição do material. Dois exemplos muito fortes são os animes Samurai X e Yu Yu Hakusho: não os vi episódios legendados, mas li os mangás correspondentes. Quando assistia aos desenhos, muitas vezes não entendia direito alguma explicação da história, e só consegui quando li os impressos, mais fiéis. Especificamente com Yu Yu, senti mais diferença, pois na primeira dublagem (na Rede Manchete – R.I.P.) a compreensão era melhor que com a vigente (do Cartoon Network), mesmo sendo bem mais novo.

Quando se tem um trabalho a dublar, deve-se deixar o lado criacionista da arte para tentar se ater à responsabilidade de manter sentido e sensação. É como se encomendássemos uma réplica de um Monet para um pintor muito bom, e recebêssemos as neneias com umas pitadas de vitórias-régias, fruto da inspiração nacionalista do autor. Não haveria problemas se a encomenda fosse de uma releitura do Monet, mas a réplica é por desejarmos o original e não termos acesso a ele. O mesmo ocorre com as películas: queremos o original, mas por não o entendermos, precisamos de algo mais acessível; no caso, com tradução. Mas quando o produto adquirido se trata de uma “versão brasileira”, somos obrigados a consumir a releitura de um texto adaptado segundo os critérios dos roteiristas, às vezes com distorções graves como a censura feita nas declarações explícitas, ainda que puras e inocentes, de amor homossexual em Sakura Card Captors.

Como protetor ávido da liberdade de expressão (muito bem defendida hoje em um outro blog), prefiro as legendas por deixarem a fonte disponível para comparação (ainda que para poucos entendedores, em línguas mais esdrúxulas). Fora que ler 30 páginas em duas horas é importante para nossa cultura semi-analfabeta. Mas quando até essas linhas mal são lidas…

André

(ATUALIZAÇÃO 08/11/2014: recentes problemas com fansubs – legendas não oficiais, por e para grupos de fãs com distribuição gratuita na internet, aka pirataria – levam a constatar que essa necessidade de aparecer se estendeu ao mundo escrito das traduções também. Parafraseando o Oráculo, em Matrix Reloaded, “The ones doing their job, doing what they were meant to do, are invisible.” Traduzam no Google; eu não quero esse abacaxi.)

2 Responses to “Das dublagens e versões brasileiras”


  1. 1 metalgeisha 19/07/2012 às 10:22 am

    Aí não entendi se sua crítica é à dublagem ou à edição. Também tem muita legenda sofrível por aí, e nem sempre a pessoa vendo tem conhecimento de inglês suficiente pra entender. Tem muita dublagem excepcional também. Acho que no fim das contas é tudo questão de gosto, e o importante é dar a opção pro espectador de qual ele prefere.

    • 2 milordandy 19/07/2012 às 10:35 am

      Minha crítica nasceu de uma conversa sobre se é melhor ver um filme, seriado, desenho ou jogo dublado ou legendado. Pela qualidade técnica, poderíamos muitas vezes ver o dublado sem problemas, mas as edições andam sofríveis. Então, opto pelo legendado pelo menor risco de deturpações grosseiras. Embora muitas legendas são fracas, os responsáveis tendem a arriscar menos, já que o original está presente para eventuais comparações.

      Mas, sim, é questão de gosto e devemos ter a opção como espectadores, não há dúvidas. Só não gosto de me sentir enganado, roubado ou obrigado a consumir uma venda casada de “cenas originais + roteiro de acordo com a vontade do tradutor”.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: