Postulados para todos os tipos de serviço

Já deve ter ficado claro nas Críticas que não sou muito adepto ao trabalho, né? E, sinceramente, não acredito que alguém em sã consciência seja. Claro, não estou dizendo que não haja o comprometimento e a preocupação com um serviço bem feito; eu mesmo faço questão de cumprir minha parte da melhor forma possível, até porque não quero perder tempo corrigindo cagadas, minhas ou dos outros. No fim das contas, é o ganha pão, a fonte de rendas para eu poder viver da forma que gosto e a que me adaptei, e isso merece meu respeito.

Mas não muda o fato de que, se eu tivesse uma forma de ganhar exatamente o mesmo sem nenhuma obrigação laboral com ninguém, estaria a viver sem regras instantaneamente. E penso que todos são da mesma opinião. Os que discordarem ou estão mentindo para fazer média com seus serviços, ou têm uma vida consideravelmente vazia para fazer do trabalho um paliativo a seu tédio, ou estão doidas. Serviços voluntários costumam ser uma mistura dos dois últimos grupos.

Então, vou me atentar às formas de trabalho que visam renda para bancarem seus custos, e que podem ser divididos, a grosso modo, em dois grupos: do setor privado (empregados, empresários, autônomos e prestadores de serviço) e do setor público. Pretendo mostrar que ambos compartilham da minha empolgação pela labuta.

Em primeiro lugar, o serviço público. O preconceito com o setor já dá a ideia de que esse vai ser fácil de demonstrar, com as alegações de estabilidade e tal. De fato, há instituições nesse tipo de serviço que atendem perfeitamente aos conceitos de aspones (assim como há outras sérias e fanáticas que não devem nada a nenhum banco privado alemão), e, nessas, os postulados do serviço público caem como feitos sob medida.

Vou considerar como sucesso no seu emprego a tendência àquela condição ideal, de ganhar sem ter que fazer nada, utópica, mas cuja relação salário/trabalho possa ser medida conforme tenda para o infinito (salários exorbitantes ou trabalho nulo). Como o funcionalismo tem seus ganhos lícitos limitados por leis, não dá pra mexer muito no numerador, restando descobrir formas de diminuir o denominador. E é precisamente isso que frustra muitos que precisam desses serviços.

Para não se sobrecarregar de trabalho, o funcionário público pode se valer de três máximas, que na verdade são pedaços de uma piada sobre concursos públicos, que será contada oportunamente. Por ora, os três postulados do serviço público são:

1 – “Não é comigo.”

Definitivamente a frase mais usada para se livrar de um problema que, como se nota, não é seu. É o extremo oposto do clichê de autoajuda administrativo “faça parte da solução, não do problema”, que foi um jeito de te controlarem pra buscar mais e mais serviço, escravizando-o pela culpa. Fala sério: não se pode pedir uma modificação da sua senha de conta pro segurança do banco, certo? Casos mais acinzentados funcionam da mesma forma: se não for com a pessoa responsável pelo serviço que você procura, não é com ela!! Mesmo para situações extremas, como pedir informação. Acredite, sempre tem alguém designado para dar informações, legitimando que qualquer outro diga “não é comigo” quando alguém quer saber algo. Sim, irrita, mas, se pensar de forma lógica, e lembrando do segurança do banco, faz sentido.

2 – “Já estava assim quando eu cheguei.”

Uma máxima da criançada que vale muito bem no universo da burocracia. Newton provou a existência da inércia no universo, por que você quer ser do contra? Você é legislador? Se alguém se deu ao trabalho de padronizar o serviço daquele jeito, tendo que exigir três carimbos diferentes para o mesmo papel, por que você vai arriscar seu pescoço propondo um negócio diferente daquele que te ensinaram quando você tomou posse? Já ouviu “em time que está ganhando não se mexe”? Você está ganhando para isso; não mexa.

3 – “Não fui eu.”

Se mesmo com os postulados acima ainda sobrou pra você, sempre se pode negar. Até porque, se você fez sua parte para ter menos trabalho, as chances de não ter sido você mesmo são altas. Não digo que é pra mentir e tirar o seu da reta quando já fez merda, mas é uma ótima para quando já tem alguma merda prévia com risco de espirrar injustamente em você. Se não foi você, quem errou que corrija. Não deixa de ser uma variação de emergência para o “não é comigo”, porque a responsabilidade de reparo é de quem estragou, certo?

A piada de origem surgiu num contexto de pessoas reclamando de terem que estudar coisas para provas de concurso público que, segundo elas, jamais teriam que utilizar. Tentei tranquilizá-las dizendo “Mas se só fossem cobrar coisas que se usam de verdade no dia a dia do serviço, as provas só teriam três respostas certas: ‘não fui eu’, ‘não é comigo’ e ‘já tava assim quando cheguei’, independentemente da pergunta.”

Agora, se você está aí no seu escritório privado, lendo-me com uma planilha minimizada caso alguém apareça de repente, e está rindo indignado e falando mal de servidores, saiba que não escapa da regra. Claro, os postulados não podem ser usados com o mesmo vigor, dada a potencial retaliação de ser demitido por não seguir a cartilha do administrês opressor, mas são, em maior ou menor grau, aplicados. Algumas empresas, como de telefonia e tv por assinatura, parecem ter nascido com o dom que servidores levaram dias para desenvolver, conseguindo, em geral, despistar-nos só com o “não é comigo”.

Outros os praticam de forma mais velada, em empresas mais ferozes que não param de cobrar resultados. Nelas, diminuir o volume de trabalho chega a ser questão de sobrevivência, ou se viram as 24 horas em frente à papelada, computadores e ligações. Os três postulados foram moldados por esses zumbis em duas atitudes diferentes, a que chamo de postulados do serviço privado:

1 – delegar para baixo

Quem nunca foi atolado de tarefas pelo chefe? E quem nunca repassou algumas para algum subalterno? Descer a cadeia hierárquica é o recurso mais utilizado para se desafogar no mundo privado, e é exaltado pelo administrês como uma boa capacidade do gestor de confiar em sua equipe. É um recurso limitado pela sua posição de mando na empresa, justificando porque é sempre o estagiário quem se fode, e porque achamos que o diretor nunca faz nada.

Tem muito do “não é comigo” nessa atitude, mas de forma ativa, uma vez que você fez não ser mais com você.

2 – responsabilizar o de cima

Sempre tenha o aval do seu superior. Se conseguir isso, não importa que merda dê, foi ele quem autorizou. Talvez não lhe deem seus louros em caso de acerto, mas o chefe saberá que foi ideia sua mesmo. A cartilha legitima a prática valorizando a pró-atividade, e aí você pode ter suas ideias mirabolantes para serem filtradas pelo gestor. Se passar algo ruim pelo filtro, não é culpa da sua pró-atividade, mas sim da má avaliação da liderança. É um “não fui eu” ativo, limitado na outra ponta, a da presidência ou sociedade, e a única arma de defesa do estagiário.

Algumas formas de se garantir nessa prática são colher assinaturas, ter cópias de emails de autorização e conversas virtuais, copiar a pessoa superior em tudo… Cuidado com autorizações verbais, que podem ser rebatidas com o “não fui eu” clássico pela outra parte, que tem mais poder que você.

Aquele que dominar a arte de mandar um subalterno cumprir suas tarefas, fazendo um superior responder por isso, caso dê errado, talvez não chegue a se tornar presidente da empresa, mas certamente verá muito mais sua família e terá menos chances de morrer de estresse.

Se há um ícone que poderia espelhar o domínio perfeito dos cinco postulados, seria o Seu Madruga diplomado por Harvard. Impossível, mas inspirador.

André

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