Pró-História

Curioso como a gente guarda umas coisas que aprende no ensino fundamental de forma tão convicta que conseguimos reproduzir alguns tópicos como se estivéssemos com os livros de Estudos Sociais e Programas de Saúde no colo. “O vento é o ar em movimento”. Não sei se é a rima, mas nunca hesitei em definir a ação eólica exatamente com essas palavras.

Duas dessas definições da infância, particularmente, têm me vindo à cabeça nos últimos meses, e sobre elas quero refletir. Ao chegar na 5a série, hoje 6o ano, comecei a ter a matéria de História. Era uma grande mudança: deixei os livros de Estudos Sociais e uma tia que lecionava todas as disciplinas para adotar um livrão com professor próprio. Chamava-se Valter, e começou por tentar explicar o que seria nosso objeto de estudo naquele ano.

Eis as frases: “A Pré-História é o período que vai desde o surgimento do homem até a invenção da escrita.” “História é o período que vai desde a invenção da escrita até os dias atuais.” O intervalo aberto no domínio da História propriamente dita, embora me fosse ensinado em 1994, fica válido até hoje, já que os “dias atuais” vêm me acompanhando. E eis que vivemos a História a cada minuto.

Aí paro pra pensar nos historiadores e em como eles trabalham. De forma leiga e resumida, eles precisam encontrar dados passados existentes e criar interpretações sobre eles. Isso cria um viés muito importante: o trabalho é limitado pela existência das informações. Por exemplo, o professor Valter me explicou sobre o Egito Antigo, sobre a Pedra Roseta, a vida dos faraós e seus sacerdotes. Tudo graças aos registros dos escribas da época. Mas quem tinha escribas ao seu dispor há 3500 anos? Sabemos algo dos escravos hebreus pelas Escrituras judaicas e do Velho Testamento. E sobre a população ordinária, os súditos dos deuses vivos? Somente o que era citado pelas outras classes, e pelas interpretações de artigos não escritos encontrados (utensílios, vasos, pinturas, restos de construções etc), da mesma forma que fazem com estudos pré-históricos.

Como saber o que a Dona Osireide comeu com seus filhos Amonzinho e Razinha no almoço comemorativo da cheia do Nilo? Como era a relação das crianças com o gato sagrado da família (como sabem, os egípcios adoravam os animais, como o gato, o crocodilo e, principalmente, o boi)? São respostas talvez conhecidas de pesquisadores muito especializados.

Seria diferente daqui a 3500 anos. Qualquer historiador poderia ter acesso ao que a Dona Ozyreia comeu hoje, e como Amonédison e Rahzianna adoram seus bichanos: bastaria acessar os arquivos do instagram em algum museu cibernético local, e escolher entre as zilhões de fotos de comida e de gatos do século XXI.

Nunca antes na história deste planeta houve tanto acervo como após a revolução digital. Se precisamos de um marco, que conste a popularização da internet no final dos anos 1990. Após ela, a quantidade de registros de todas as classes, em praticamente qualquer sociedade, cresceu vertiginosamente. Não há comparação com a disponibilidade de dados de antes.

Por essa razão, julgo que talvez fosse hora de mudar as definições do professor Valter e seu livrão. A Pré-História fica como está, “do surgimento do homem até a invenção da escrita”, mas a História propriamente dita deveria começar com a revolução digital, “até os dias atuais”. O período da invenção da escrita até os primórdios da era internética (intervalo fechado) ficaria conhecido como Pró-História. É uma época de registros, mas em escala muito menor, e que caminha para essa vastidão de informações disponíveis hoje, daí o prefixo pró-.

Sim, no meio desse mar de potenciais documentos existe muito lixo boiando, coisas que historiadores futuros terão que ignorar para poder desenvolver uma análise crítica. Pode até mesmo ser que este blog cá não goze de nenhuma importância histórica ou antropológica. Mas será uma mudança de paradigma do trabalho do pesquisador: em vez de ter que descobrir o que existe, deverá filtrar o que tem à mão para poder gerar interpretações relevantes.

Quantos erros os paleontologistas não cometeram por imaginarem dinossauros de um determinado jeito, quando acharam uns poucos ossos, e viram que eram totalmente diferentes ao acharem ossadas completas? O Iguanodon é um exemplo perfeito, também aprendido na época da minha esponja pueril de conhecimento.

Fico pensando se meu professor pró-histórico sentiria orgulho dessas ideias, ou se sentiria ameaçado de ter ficado obsoleto.

André

2 Responses to “Pró-História”


  1. 1 Nilda 08/03/2013 às 5:09 pm

    Com o advento da era da informática, creio que realmente haverá, um divisor não só para a História mas para tudo.
    As pesquisas em qualquer ciência, mudam com as novas ferramentas. Obviamente a História será a mais beneficiada pois as pesquisas que hoje são feitas a partir de fragmentos de documentos, na maioria das vezes guardados sem os devidos cuidados, de difícil acesso e mais difícil ainda a localização , no futuro serão mais acessíveis. Não creio que será mais fácil pois o volume de informaçãoes é infinitamente maior.

    Tenho ressalva quanto ao nome…. “Pró-História”?

    • 2 milordandy 08/03/2013 às 5:43 pm

      É uma sugestão de nome com base no prefixo grego pró-, que denota anterioridade como o latino pré-, já usado comumente com História. Tem também um significado de “posição em frente”, para demonstrar a vanguarda que alavanca a História pós-internet, chamada no texto apenas de História.


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