Das conversões e iluminações

Todo mundo tem aquela pessoa conhecida que um dia se converteu a uma religião evangélica, “virou crente”, e agora só sabe falar disso, de como o JC mudou sua vida, de como é mais feliz com o Senhor, de como sua vida passada era errada, de como a vida dos que ainda não tiveram sua chamada é errada, e por aí vai. Ela passa por chata em todo seu antigo círculo social.

O que nem todo mundo percebe é que o crente descrito é só um estereótipo de gente deslumbrada com uma nova fase da vida. Tal como ele, existe muita gente que se converteu ou encontrou a iluminação com as mais diferentes coisas, e é tão chata e insistente com seus bombardeios de empolgação saturante quanto a mais madrugadora das testemunhas de Jeová.

Religiões, ateísmo, filosofias, ciência, pseudociência, política, relacionamentos, sexualidade, esportes, exercícios, dietas, vegetarianismo, baconismo, nerdice, autoajuda, autopiedade, filantropia, trabalho, boemia, viagens, liberdade, solteirice, matrimônio, maternidade, música… entre tantos outros temas. Até dança, acreditam?

Um amigo meu de infância era tão carola que conseguiu me influenciar a fazer metade de um curso de catecismo. A gente até ia à missa juntos durante esse período. Quando eu vi que não era minha praia, ou meu céu, ele continuou. Um pouco maior, ele frequentava até estes grupos de jovens, que sei lá do que se trata. Mas nossa amizade se mantinha igual. Não foi o mesmo quando ele conheceu o tal do zouk, uma dança que todos que não conhecem acham parecida com a salsa. O cara desapareceu, e tudo da vida dele girava em torno dessa seita dançante: falava das meninas que ele conhecia dançando, dos amigos que fez na dança, das músicas novas que conhecia e treinava, dos problemas que surgiam no ambiente em que dançava… Todos os sábados, ele ia a um clube voltado para o gênero. TODOS os sábados! Era seu compromisso mais sagrado, a ponto de faltar em uma comemoração do meu aniversário (niver cair no próprio sabadão pode demorar até 11 anos) para marcar presença no lugar em que ele tinha ido na semana anterior, e em que iria na próxima. E quando eu descobri que ele tinha passado, mais de uma vez, suas férias em cruzeiros de zouk, eu aceitei que tinha sido trocado.

Mais exemplos proliferam no news feed do meu facebook, muitos antagônicos, muitos sinérgicos. Gente iluminada que precisa salvar os animais dá as mãos aos que decidiram não mais comer animais, e anunciam bichos achados, bichos perdidos, bichos estropiados, bichos abatidos,  bichos que escrevem posts, pedem ajuda e agradecem em primeira pessoa, em um ato de inclusão digital extrema. São geralmente combatidos pelos carnívoros, que nada têm contra os defensores sozinhos, mas se negam a curtir as fotos das receitas vegetarianas dos aliados, e postam os mesmos bichos abatidos virando pratos assados, pratos fritos, pratos cozidos, pratos crus, bacon nisso, bacon naquilo. Ganham a simpatia dos comilões sedentários, que informam cada refeição e indolência cardiopática que vivenciam. Contra essa aliança surge nova oposição, a dos esportistas, promotores do bem-estar físico e compartilhadores de todo seu suor fedido e aplicativos para mensurá-lo em mL, km, kcal, kg, cm, pedaladas e números adimensionais de medidas de roupa. Correndo ao lado deles aparecem os naturebas, que podem talvez ser sedentários como os rivais, mas ouvem o canto dos anjos nas refeições coloridas e sem gosto dos produtos ditos naturais (que não possuem tecnécio, promécio, astato, frâncio nem nada com Z>92, suponho), de preferência em porções rarefeitas ingeridas trinta e duas vezes ao dia, após sessenta e quatro mastigações cada, conforme viram nos estudos publicados nas revistas, programas de TV e posts das páginas e blogs de procedência holística, estes por sua vez atacados incessantemente pelos cien-nazis mais obcecados em provar que homeopatia, fitoterapia, cromoterapia, aromaterapia, punhetoterapia, florais de Bach, de Beethoven e de Mussorgsky, medicina ortomolecular, metamolecular, paramolecular, cis-, trans-, d-, l- ou quaisquer outras variações isoméricas da medicina estão erradas, em vez de gastar seus recursos e tempo em algo que pode ser trabalhado positivamente, do mesmo jeito que ateístas, tentando convencer católicos, protestantes, os crentes lá de cima, umbandistas, budistas, xintoístas, hinduístas, cientologistas, espíritas, semitas, sunitas, xiitas etc. de que sua crença na não-existência de um deus está certa sobre a crença deles, fazem, e ainda dizem que os religiosos estão errados ao serem intolerantes e tentarem impor seu Senhor sobre os Senhores e Senhoras dos vizinhos.

Os naturebas ainda espezinham os cientistas ao pregarem uma vida mais próxima à pré-civilizada, com menos remédios, menos cirurgias, e, óbvio, menos doenças, como se alguém em sã consciência quisesse mais doenças. Chamam isso de “mais humana”, e ganham a fidelidade da bancada das mães fanáticas que, depois da orgia de posts exaltando o casamento e todo o trabalho que deu para prepará-lo e como é bom sentir o amor de verdade da vida delas, ou depois de decidirem que nada dessas imposições sociais é necessária e que podem e vão ter quantos filhos quiserem sem ajuda de ninguém, defendem e professam o direito sobre o próprio corpo, sobre parirem como e onde quiserem, com ou sem médicos, com ou sem parteiras, com ou sem curandeiras, com ou sem úte… não, espera. E as crias passam a ser toda a fonte de conversas e registros escritos, fotográficos, sonoros e cinematográficos, tanto das mães quanto dos pais, pois são presentes divinos, de algum dos deuses ou não-deuses anteriormente citados. Tão angelicais quanto os animais de todos os autoproclamados pais e mães de não-humanos que inundam toda a seção de imagens da web. O amor desses donos é tão forte que precisam extravasá-lo em odes positivas e em combate a maus-tratos, aproximando-os dos protetores com que começamos o parágrafo anterior. Aí entram os machões, contra toda essa boiolice e contra a boiolice em si, hostilizados por quem defende a liberdade sexual, odiada por muitos religiosos, que não são os mais queridos dos mesmos machões. E, nessa salada toda, se nem PSDB e PT conseguem decidir direito de qual das coligações citadas dá menos problema se aproximar, quem dirá seus militantes coxinhas e risoles? E meu amigo dançando.

Chega! Mesmo ficar em cima do muro para observar tudo isso vira mais uma exaltação de um modo de vida neutro, quando se dedicam tantas linhas para falar do assunto. Fora todas as categorias em que já me enquadrei ou me enquadro ao longo dessa vida. Por exemplo, o metal! Já falei pra vocês por que o metal é o melhor estilo musical de todos? …………

André

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