“Alphaness” – a expansão de um conceito

Este post, “se acaso me fizeste o favor de ler” a matéria Tem pegada?, trata da reflexão acerca daquele conceito intangível da pegada feminina. Se tem similaridades, a ideia da qual pretendo tratar agora difere fundamentalmente da outra por ser relativa, e não absoluta.

Explico. Observando o comportamento das minhas gatas, tentando desesperadamente encontrar um veio por onde possa diminuir a hostilidade entre as duas, constatei que a Xena apresenta uma nítida relação de dominância sobre a Selina. Há indícios bastante óbvios, como a postura superior de uma frente ao agachamento da outra, posição das orelhas e da cauda etc. Nada que não se ache digitando “dominância” e o nome de uma espécie qualquer no Google.

Porém, caindo na abstrata névoa não factual, há entre elas alguma forma obscura de comunicação que informa a ocorrência e o desenrolar de uma briga bem antes de qualquer uma iniciar um movimento de ataque ou fuga, mínimo que seja. Uma mudança de cheiros, talvez? Não sei. Olhando em volta, parece-me que temos algo parecido, e a essa característica surgida da interação de dois indivíduos chamei de alphaness, não por uma grande valorização de estrangeirismos, apenas pela praticidade do sufixo -ness e da má sonoridade que “alfalidade” teria. O ph fica por conta estética de não contrastar idiomas.

Andando na rua, cruzamos olhares com outras pessoas. Algumas vezes, o terceiro desvia para baixo a direção dos olhos; por vezes, somos nós que o fazemos. Claro, existem situações extremas, como a de um sujeito mal encarado com duas vezes e meia seu tamanho, que tornam o alphaness bastante evidente, até por uma questão de autopreservação. Mas já passei pelo improvável caso de fazer um grandão se sentir intimidado. Talvez ele só quisesse olhar para o chão para se certificar que não pisaria em nenhum dejeto, não sei… eu mesmo já disfarcei minha submissão assim.

Também percebi essa tendência à dominância em rodas de conversa, antes de um tagarela desembestar a falar ou de um tímido desistir da participação. E não raro já reparei que um mudo do grupo detém o tal alphaness, passando aquela sensação de que nem se importa com o que se debate, enquanto algum desesperado parece o Mort em busca de atenção. A relação transcende as ações dominantes; ao contrário, ocorre antes delas, e acredito que elas surjam apenas como manifestação do que já está estabelecido.

De qualquer forma, o alphaness surge como um ranqueamento instantâneo entre dois ou mais indivíduos potencialmente rivais, de forma instintiva e inconsciente. Por essas característica primitivas, as situações em que aparece podem ser mais amplas do que a mera e ridícula disputa sem prêmios que suponho ter constatado, inclusive entre mulheres e interssexualmente. Já olhou para aquela pessoa que pareceu interessante e, quando ela olhou de volta, seus olhos foram compelidos a cair, não por timidez ou charme, mas pela simples e pura intimidação? É disso que falo, de uma pessoa, de repente, ser o cachorrinho de barriga para cima, sem nada palpável que justifique o ato.

Agora, uma conjectura de ordem prática: sendo o MMA um esporte que ganha cada vez mais fama, nossa rinha humana e último passo antes das arenas com os leões, as apostas movimentam quantidades generosas de dinheiro. Descobrir o alphaness entre dois ou duas participantes do UFC, caso o conceito proceda, é lucrar indefinidamente, ou acabar com a categoria, se o algoritmo se difundir o bastante.

Se as pegadas funcionam mesmo como atrativo, e os alphanesses como repelentes, somos bem menos complexos e mais dependentes dos nossos instintos do que a que os humanistas gostam de nos elevar. Hora das observações de campo.

André

1 Response to ““Alphaness” – a expansão de um conceito”



  1. 1 Tem pegada? | Andy Moreno's Blog Trackback em 30/03/2015 às 11:35 pm

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