Fundamentalismo científico

“Aí eu penso que tem gente que acredita tanto na ciência que mais parecem fundamentalistas de papers sagrados.”

Não que eu não goste da ciência; formei-me cientista, e por muito tempo sonhei em trilhar os caminhos da glória acadêmica, até que não mais, embora ainda viva de suas aplicações de forma bem direta. É um modelo, um bastante eficiente, para explicar situações da natureza e propor formas de intervir nelas. Mas ainda um modelo, que segue a proposição básica de “tudo se passa como se acontecesse desse jeito aqui”, mas não necessariamente, menos ainda absolutamente, as coisas acontecem do jeito pregado.

É como um sujeito que cai do alto de um prédio: um modelo vetorial diz que a força gravitacional acelera o infeliz até o chão, enquanto um modelo escalar diz que ele partiu de um estágio de maior potencial gravitacional para um menor. Dentro da própria ciência, dois modelos explicam seu desfecho de modos distintos, sem que, no entanto, isso importe para o caído no segundo em que ele toca o chão.

Mas os defensores de um ou de outro costumam dar as mãos para atacar modelos que não os científicos, geralmente com alegações que giram em torno da capacidade de se provar. Eis aí a pedra de fé científica, o Santo Graal dos laboratórios, o nirvana da papercracia: a prova, um deus que se manifesta de diversas formas, qualitativas (como bandas em gel ou detecções radioativas) e quantitativas (c.q.d.’s e p<0,05’s), capaz de levar seus fiéis a defender todo tipo de informação que os profetas autores (ou autores profetas?) publicam. E, como em qualquer outra fé, quando alguns profetas querem que seu deus diga uma coisa, seus oráculos vão encontrar um jeito de dizê-la, ainda que criando contradições no fluxo do tempo. E assim temos artigos que crucificam o ovo em uma cesta, para ressuscitá-lo divinamente com estudos de coorte ao terceiro dia.

Este não é um texto para ser usado por aí em defesa da religião, veja bem. Consigo imaginar outros tipos de fanáticos de alguma crença excitados com a ideia do “tá vendo? isso só acontece porque meu deus quer!” que não sai (nem sairá) da minha boca, com a mesma facilidade com que vejo colegas cientistas me acusando de heresia. Se a lógica normalmente me seduz, reconheço que falácias e induções podem corromper a compreensão de seres imperfeitos, eu incluso. E isso facilmente poderia gerar o alento de “ah, a ciência é a verdadeira fé, são alguns que a corrompem”, discurso que vemos amplamente por aí em outros setores, e com o qual concordo.

Fato é que, se as descobertas científicas nos ajudam, ao mesmo tempo são norteadas pelo desejo de fama e riqueza. No limite, ou você quer um Nobel, ou quer enriquecer com uma patente. Provavelmente os dois. Pouco provável que se aventurou nisso porque perdeu o sono ao não entender como aquela chaperona influenciava na ativação de complemento pela via clássica em gnus sadios criados no Estado de Sergipe. Nada de errado, considerando que pesquisadores são profissionais, e devem ter ambições como tais.

Mas a ciência em si não é um fim, e sim um meio, diferente do que pregam em muitas fés, com suas deidades sendo a busca fundamental. Por isso, não é sadio que a prepotência científica seja tão xiita quando tudo o que consegue dizer é “era isso” (confirma H0) ou “não posso dizer que era isso” (rejeita H0, o que é muito diferente de afirmar “não é isso”).

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos)… e se eu parar aqui e continuar em outro post?

André

1 Response to “Fundamentalismo científico”



  1. 1 Paganismo racional | Andy Moreno's Blog Trackback em 31/03/2015 às 4:08 pm

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