À sinistra

Não me perguntem como, mas há algum tempo me descobri com pensamentos novos. Também não me perguntem quando; não consigo nem precisar algum marco para chamar de histórico e eleger como uma data de mudança. Não foi um despertar, uma situação de estar alheio para, então, um belo dia, querer me posicionar de alguma forma: tinha opiniões pensadas e embasadas, só que opostas. Aliás, o título me veio a posteriori, com certa surpresa. Pensei, pensei, pensei, vi como me sentia, e depois descobri que tinha nome para isso. Sim, eu simpatizo com a esquerda.

Mas este não é mais um post de mais um blog esquerdista comunista marxista chavista cubano que vai tentar te convencer a abandonar a direita golpista coxinha por um mundo cor-de-rosas vermelhas. Eles nunca conseguiram ME convencer, nos destros tempos, não espero que façam melhor trabalho com outros.

Então, dedico essas linhas aos (todos os gêneros subentendidos, ou o texto ficará ainda mais cansativo pelos (a)/(as) de palavra em palavra, ok?) porta-vozes das implementações de melhoria de qualidade de vida, daquelas mudanças que podem fazer as pessoas se parecerem, não física mas socialmente, com suecos e noruegueses, e não com nortecoreanos e chineses, em uma situação de desigualdade menor.

Falo a esquerdistas como um ex-direitista. Primeiro, acredito que, quando promovem suas ideias, não só queiram aprovação dentro do seu grupo, com quem sempre encontram ressonância, mas esperam que outras pessoas entendam as boas coisas que vocês enxergam como importantes para que reforcem a necessidade de mudança. Neutros, sim, claro. Mas, se puderem converter o pessoal da direita, defensor das ideias opostas e ofensor das suas, melhor ainda. Questão de estratégia: se um adversário forte comprar a sua causa, essa força passa a ser usada em seu benefício.

Não faço ideia de como atingi-los. Como eu disse, nem sei o que foi que me fez pensar que reduzir a desigualdade é o melhor jeito de melhorar as coisas como um todo. Mas sei bem como NÃO atingi-los: é só me lembrar de tudo que me causava aversão enquanto coxinha, quando nem se usava esse termo para isso (coxinha era, na época, o jeito de falar da PM). E a principal forma, juro, é pelo discurso.

Acreditem, uma parcela importante da galera que bate panelas não é fria e indiferente aos problemas das pessoas e não acha que suas posses vão valer menos se outros também adquirirem seus exemplares. Claro que os mesquinhos existem e abundam, mas vocês realmente acham que o problema deles é falta de visão política? Então, pensando em quem vale ser pensado, creiam quando eu digo que o discurso clássico da esquerda afugenta, e “quiçá” converte ao outro lado, muitas pessoas que poderiam entender melhor a complicada rede do “sistema”.

Não tenho formação retórica, não sou nenhum líder nato ou de mérito, mas posso tentar ajudar ao mostrar alguns termos muito usados que fecham automaticamente os ouvidos de não simpatizantes, que, convenhamos, são quem importa, já que os demais já pensam igual aos locutores.

Metáforas – minha idolatrada professora de Português vai querer morrer, ou me matar, se chegar a ler isso. Mas, embora um recurso estético muito importante na produção literária, o saturado uso de figurações para descrever principalmente o lado contrário impregna as frases de parcialidade e subjetividade, coisas que, segundo me lembro das aulas de redação dissertativa, enfraquecem o poder argumentativo por fazer o ouvinte ou leitor pensar que não se trata de uma verdade, mas apenas da sua opinião, que não vale mais do que a dele. Então, quando o Suflê de Chuchu der entrevista à Toda-Poderosa defendendo o Playboy Cheirador para delírio dos coxinhas, maneirem a veia poética;

Sistema – uma entidade poderosa, complexa e pouco palpável a ser melhorada existe, mas tratá-la assim é dar-lhe os ares de ficção científica da Matrix, bastante indigesta para quem já não é fã do modelo;

Mídia / midiática – essa é difícil, pois é trabalhoso se referir aos principais canais de comunicação, muitos alinhados (aliás, incluam “alinhados”) aos pensamentos conservadores (aliás, incluam “conservadores”). Mas nosso idioma tem mais de 400.000 palavras, há de existir outras que façam o serviço. Acho que “imprensa” passa, mas usem com moderação;

Golpista – quando uma fração do povo acha que é a esquerda que quer dar um golpe e transformar o Brasil em uma ditadura comunista stalinista chavista gayzista, usar a mesma palavra para o outro lado só é interpretado como um “mãe, ele que começou!”;

Luta – a saturação desse termo é mais culpa do Marx, ou melhor, de todos que nos falaram sobre Marx até hoje. Se você fala “luta”, o “de classes” já vem automático na cabeça, em letras garrafais e vermelhas. É claro que essa divergência entre estratos da população existe, sempre existiu, e há boas chances de que continue existindo de alguma forma, mas usar a palavra de violência sem o “jogos de” antes já desperta todo o preconceito político do ouvinte;

Blindagem – termo de sentido abstrato, quando não usado nos veículos policiais de contenção. Geralmente associado à “mídia”, é usado para denunciar a parcialidade de reportagens quando elas não abordam tudo o que pregam abordar, como mostrar… frangos sofridos só por um goleiro de um time e não de outro, em uma matéria chamada “E agora, todos os frangos da rodada”. No exemplo, a reputação do goleiro do outro time foi blindada. Assim como os ouvidos dos interlocutores;

Fascista / nazista / autoritário / reacionário / reaça – felizmente a nossa extrema direita no Brasil é hoje tão fraca e patética como a extrema esquerda. Esse “extrema” denota uma perda de liberdade à base de violência muito grande. Nem Hitler, nem Stalin, nem Mao, nem Costa e Silva. Quando acusam de uns, são ouvidos como os outros automaticamente;

Trocadilhos – outro recurso estético bastante criativo na literatura, peca no discurso pelas mesmas razões das metáforas. “Dilmais”, “Rachel Sheheranazi”, “Aécio Naves”, “Tucanistão”, “midiotas” etc. já denunciam seu envolvimento emocional, que desacredita o argumento.

Rebuscamento – muitas pessoas de esquerda são cultas e intelectuais, e deixam clara sua erudição nas suas palavras. Mas combater o analfabetismo funcional brasileiro não é tarefa que se faz armado de léxico. É como, usando o estereótipo da aversão das ciências humanas por exatas, e da afinidade daquelas pela esquerda, é como se quisessem provar um ponto para você através de funções de várias variáveis cheias de integrais duplas. Gera antipatia. Aliás, um “quiçá” lá em cima está destacado justamente por isso;

Pessoas com muito mais sensibilidade do que eu já se ligaram no aspecto caricato que jargões dão ao discurso da esquerda (ou, como gosto de pensar quando não estou afim de rótulos, do pessoal preocupado com questões sociais e igualdade), como o Marcelo Adnet com seu quadro do militante revoltado no programa Tá no Ar: a TV na TV.

Não consegui incorporar o vídeo, mas fica um link aqui.

Não consegui incorporar o vídeo, mas fica um link aqui para vê-lo na Rede “Gloebbels”.

Claro que o lado direito também é cheio de jargões contra a esquerda (nos trocadilhos, tem os “petralhas”, “esquerdopata”, entre outros). Mas, da minha parte, prefiro que eles continuem sem conseguir “desesquerdar” pessoas caindo nesses mesmos erros.

Que outras palavras, frases ou expressões a mais vocês podem acrescentar? Os não simpatizantes que ainda me leem talvez estejam cheios de exemplos. Por favor, colaborem. Se a esquerda conseguir falar de uma forma mais palatável, vocês continuarão sendo livres para aceitar ou não as ideias, prometo!

André

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