Empatia de Arrhenius e de Brönsted-Lowry

Uma pessoa tem um problema. É legal da sua parte, até para não piorar a situação, que tenha empatia suficiente para entender como ela se sente. Se puder ter a compaixão para ser movido a fazer algo para melhorar, ou pelo menos amenizar, tanto melhor. Mas e quando você também tem um problema?

Muitos conflitos se dão quando perrengues mútuos se encontram e não partilham de uma solução comum que levaria seus donos e donas a trabalharem juntos. Na disputa para ver quem se lascou mais, frases como “Mas só eu tenho que entender os outros, e quem me entende?” são comuns, até pelo senso de autopreservação. Normalmente, uma das partes acaba cedendo, ainda que temporariamente, para sanar a outra questão, e então focar na sua. Mas quais critérios são válidos para definir quem cede primeiro?

O primeiro deles, curiosamente, não é a importância dos dilemas, mas sim a capacidade de se doar, a popular bondade, se preferirem. Há pessoas que sempre se deixam de lado para ajudar outras, não importa quais os problemas envolvidos. Sua compaixão abunda, e elas não hesitam em se anular, de onde não gosto de chamar isso de bondade, se elas podem até se prejudicar.

Em segundo, aí sim, a importância de cada problema envolvido. Não vou reclamar da minha unha encravada, embora possa ser um martírio, para quem acabou de ter a perna amputada. “Pelo menos você não tem mais dedão pra doer como o meu” pode parecer uma boa piada de humor negro, mas em uma situação real é um enorme atrativo para levar a perna restante no meio dos dentes.

E, para todas as situações em que essas duas não se aplicam, mas o relacionamento com a outra desafortunada pessoa importa o bastante para não morrer no conflito, resta o carma do melhor entendimento. Veja bem, a empatia que eu cito no início do texto, a capacidade de entender os sentimentos alheios e se colocar no lugar deles, é uma empatia absoluta. Você deve cultivá-la, e seu interlocutor ou interlocutora também. Muitas vezes podem até cair no segundo argumento, com um entendendo que a aflição do outro tem alguma prioridade sobre a sua. A esse tipo absoluto chamei de empatia de Arrhenius, em analogia direta aos conceitos químicos de ácidos.

Expandindo a analogia, há a empatia de Brönsted-Lowry, para a qual, considerando dois indivíduos, um será melhor entendedor que o outro, ainda que o outro também possa entender os sentimentos do um em algum grau. O empático de Brönsted-Lowry, o ácido, tem a responsabilidade (daí o carma) de doar seu entendimento para aliviar as mágoas da base. Uma vez melhor, mais calma e mais feliz, a outra pessoa há de ter seu entendimento melhorado, podendo inverter o sentido da ajuda, tal qual acontece com a reversibilidade dos pares conjugados.

Trata-se da expressão inglesa da bigger person, a maior pessoa, aquela que pode ser mais grandiosa moralmente num dado momento. Para os humanoides, eu poderia usar a analogia econômica das vantagens absolutas de Adam Smith e das vantagens comparativas de David Ricardo. Mas ainda acho a aproximação exatoide mais legal, até para diminuir os traumas que as pessoas têm da escola.

André

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