Archive for the 'Filosofia' Category

Reflexões Fezenistas V – paraíso anunciado

Arrisco-me a falhar como o Quincas Borba quando tentou expandir o Humanitismo de filosofia para religião, mas… Faça-se a anunciação!

“A privada é o Céu do Fezenismo.”

Vejam bem: o ato de cagar é o ponto máximo do Fezenismo, a razão de toda a existência da escola. Ele é tão sublime que chega a ser sagrado. A cagada é a comunhão do ser com o Fezenismo. “Mas e o Céu?”, perguntam os iniciados. Em verdade vos digo, na privada todas as merdas são iguais: não importa se você comeu caviar ou churrasquinho grego, tomou champanhe ou o suco que inteira o passe que paga o churrasquinho, lá dentro todos são merdificados para ascender para baixo juntos.

“Ah, mas caga-se em outros lugares, no mato, nas calças…”. Sim, mas quando tudo dá certo, é para a privada que as almas vão. É o prêmio da boa cagada, tal qual não se duvida do inferno em que uma borrada incontinente nos mete.

As diferenças de volume, consistência e cor são irrelevantes; tudo é merda. Assim como as condições do depósito: mesmo com dor e urgência, a sensação continua sendo tão libertadora quanto a abertura de espaço para mais rodízio.

Tudo é merda, e a cagada alivia.

André

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Reflexões Fezenistas IV – Entender-se por gente

Desde que eu me entendo por gente ouço essa expressão, “desde que eu me entendo por gente”. É uma daquelas definições de tempo indefinidas, que são um prato cheio para o tal do Present Perfect, para quem estudou formalmente inglês, mas não dizem muito sobre a quantidade de tempo acumulada por não terem um começo preciso. Em resumo, trata-se de um “faz muito tempo” modelado com uma carga de experiências pessoais e saudosismo: não serve como ligante nos parágrafos de uma dissertação de escola, mas funciona bem para chamar a atenção em desabafos e conversas de bar.

Mas, e se fôssemos tentar definir o momento de se entender por gente? Claro, ele é tão variável quanto o número de gente que se entendeu, e nem quero entrar no assunto psicológico e neurológico de quando as memórias de longo prazo se estabelecem, com que idade temos consciência dos nossos atos e tantos outros parâmetros técnicos que interessam aos estudiosos profissionais dessas áreas. Mas e se propuséssemos algo palpável ao público leigo, algum marco familiar, corriqueiro e ordinário, quiçá pouco nobre a muitos?

Minha proposta é a seguinte: a sua lembrança mais antiga de você limpando a própria bunda.

Argumento: limpar-se após uma cagada é a primeira manifestação de autonomia que uma pessoa pode demonstrar ao mesmo tempo em que lida com as consequências diretamente envolvidas no processo. Antes, ela cagava (o que por si só é sempre um feito), mas era outra pessoa que fazia o serviço inglório de trocar a fralda ou de se deparar com uma bunda suja virada para o alto, no topo de um ser dobrado ao meio que aguarda com uma paciência que nunca aparece quando se está em uma sala de espera ou de visita em alguma casa.

Dificilmente esse ser pode ser considerado gente, assim, em uma condição de submissão tão dependente. Mas quando essa pessoinha se torna capaz de manusear o papel de sua vida, adquire imenso poder e, consequentemente, responsabilidades. Primeiro, ela para de depender do tempo de terceiros, não precisando mais se dobrar enquanto outros terminam seus almoços para ver se se dignificam a demonstrar a boa vontade de libertá-la para seus demais afazeres.

Segundo, a criança (assumindo que esse aprendizado ocorra ainda na infância, mas pode ser que não, claro) aprende de forma empírica o conceito de controle de qualidade: pegou papel, limpou, papel sujo, pega outro papel e repete o processo; limpou, papel limpo, missão cumprida. Não te ensinam essa noção de procedimento operacional padronizado nas aulas de administração de forma tão clara.

Em terceiro vem o desenvolvimento da credibilidade. No início, as pessoas que já se entendem por gente vão querer conferir o serviço da pré-gente, mas estejam certos de que elas não vão estender essa fiscalização além do mínimo necessário para atestar a autonomia. Nada mais natural, é um ganha-ganha com liberdade para os dois lados. Uns podem até se ater um pouco na questão do rendimento e da ecologia do processo (quantidade de papel usada), nada que uma ou duas demonstrações de que economia porca gera mais retrabalho no futuro não resolvam.

Por fim, o pequeno indivíduo aprende a responsabilidade do peso de sua assinatura. Se trabalhar mal, a falha pode transparecer, e ele arcará com os efeitos sociais e profissionais de sua negligência. Saberá em pouco tempo que não adianta culpar quem quer que o tenha liberado: é como um profissional diplomado que quer responsabilizar sua instituição formadora, não dá mais, ela era responsável por você até você querer e provar que podia labutar sem ela. E uma calça da escolinha sem uma assinatura marrom é garantia de felicidade entre as crianças, acreditem.

Certamente há mais benefícios na proclamação de independência bundística, mas não adianta alongar suas citações quando o foco é justificar que, antes dela, não podemos ser considerados propriamente gente. Quem dirá, então, entender-se como uma? Se convenci alguém até aqui, talvez estejam a se perguntar quando foi que cruzaram essa linha histórica, e lhes digo que não se preocupem com isso. A proposta é que vocês se entendem por gente após a lembrança mais antiga de vocês limpando a própria bunda, certo?

Não precisa ser a primeira, ou a segunda, ou a décima. Mas de alguma lá atrás vocês se recordam, e muito provavelmente qualquer ato que queiram enfatizar em um diálogo como sabido “desde que vocês se entendem por gente” deve ser posterior a isso, e deve, ainda, demandar mais autonomia que isso, para se gabarem no colóquio. Então, relaxem e se resignem daquelas imagens, quase em terceira pessoa, que tinham de alguma travessura da tenra infância; vocês ainda não se entendiam por gente.

André

Reflexões Fezenistas III – Taoísmo aplicado ao Fezenismo

Conta-se que, na China antiga, um nobre visitou um monge em seu templo à procura de iluminação.

– Mestre, como faço para me disciplinar na leitura?

– Isso é simples, basta que leia no banheiro.

– Mas, mestre, isso é impossível! Como poderia me concentrar na leitura quando já tenho que me concentrar na cagada?

– Ah, mas aí é que está o seu erro. Uma cagada é algo natural, não exige concentração. Você não deve se concentrar em cagar, e sim não se concentrar em não cagar. Leia seus pergaminhos, reflita sobre eles. Quando aprender a se concentrar na leitura como se deve, então não terá atrapalhado o caminho natural da merda.

– … e de quebra ainda me livro da constipação. Mestre, o senhor é um gênio!

E saiu agradecido.

André

Reflexões Fezenistas II – “ué, cadê?”

Não sei se já lhes ocorreu um curioso fenômeno: o de perder a merda. Não, não me refiro àquela inusitada situação de correr para o banheiro com vontade e de repente ela passar, como aquele maldito espirro interrompido que entra para uma conta que você sabe que nunca será paga. Por mais desagradável que seja quando isso acontece, a questão hoje é um pouco mais literal, ou, pelo menos, sem a elipse da vontade.

Uma perda, em uma de suas acepções, se baseia em crer que algo está em um lugar, e não estar, quando procurado. Aqui, trata-se do evento de não encontrar a merda no vaso no momento da despedida, após todo o processo de limpeza, quando se tem certeza (ou quase certeza, efeito colateral da atenção desviada à prazerosa leitura, hábito sadio que certamente muito contribuiu para o nascimento de nossa escola filosófica) de a ter ali cagado.

Fica aquela dúvida, um pouco surreal, como um sonho invasor de uma rápida pescada no fim da tarde que se esvai deixando para trás a sensação de “será que aconteceu mesmo?” Mas o papel já se foi ao cesto (ou papéis? gastei muito? sujaram? não me lembro!), descuido de quem não sabia que a empreitada precisaria de documentos comprobatórios. Mas a angústia, e eis a beleza de tudo, não é essencial a ponto de revirar o lixo ou, pior, procurar alguma técnica que permita vasculhar a… límpida?… translúcida água atrás da suspeita fugitiva, de modo que não há o que fazer além de sair com uma feição culpada de quem pode ter ocupado o banheiro desnecessariamente.

Ou de relatar o ocorrido e esperar que outras almas já tenham padecido semelhante aflição.

André

PS – sobre o contrário, houve um post em meu facebook que dizia “pareço confiante mas sempre confiro o vaso quando a descarga não faz o ‘PROROLOLOLOL’ esperado no final”.

Empatia de Arrhenius e de Brönsted-Lowry

Uma pessoa tem um problema. É legal da sua parte, até para não piorar a situação, que tenha empatia suficiente para entender como ela se sente. Se puder ter a compaixão para ser movido a fazer algo para melhorar, ou pelo menos amenizar, tanto melhor. Mas e quando você também tem um problema?

Muitos conflitos se dão quando perrengues mútuos se encontram e não partilham de uma solução comum que levaria seus donos e donas a trabalharem juntos. Na disputa para ver quem se lascou mais, frases como “Mas só eu tenho que entender os outros, e quem me entende?” são comuns, até pelo senso de autopreservação. Normalmente, uma das partes acaba cedendo, ainda que temporariamente, para sanar a outra questão, e então focar na sua. Mas quais critérios são válidos para definir quem cede primeiro?

O primeiro deles, curiosamente, não é a importância dos dilemas, mas sim a capacidade de se doar, a popular bondade, se preferirem. Há pessoas que sempre se deixam de lado para ajudar outras, não importa quais os problemas envolvidos. Sua compaixão abunda, e elas não hesitam em se anular, de onde não gosto de chamar isso de bondade, se elas podem até se prejudicar.

Em segundo, aí sim, a importância de cada problema envolvido. Não vou reclamar da minha unha encravada, embora possa ser um martírio, para quem acabou de ter a perna amputada. “Pelo menos você não tem mais dedão pra doer como o meu” pode parecer uma boa piada de humor negro, mas em uma situação real é um enorme atrativo para levar a perna restante no meio dos dentes.

E, para todas as situações em que essas duas não se aplicam, mas o relacionamento com a outra desafortunada pessoa importa o bastante para não morrer no conflito, resta o carma do melhor entendimento. Veja bem, a empatia que eu cito no início do texto, a capacidade de entender os sentimentos alheios e se colocar no lugar deles, é uma empatia absoluta. Você deve cultivá-la, e seu interlocutor ou interlocutora também. Muitas vezes podem até cair no segundo argumento, com um entendendo que a aflição do outro tem alguma prioridade sobre a sua. A esse tipo absoluto chamei de empatia de Arrhenius, em analogia direta aos conceitos químicos de ácidos.

Expandindo a analogia, há a empatia de Brönsted-Lowry, para a qual, considerando dois indivíduos, um será melhor entendedor que o outro, ainda que o outro também possa entender os sentimentos do um em algum grau. O empático de Brönsted-Lowry, o ácido, tem a responsabilidade (daí o carma) de doar seu entendimento para aliviar as mágoas da base. Uma vez melhor, mais calma e mais feliz, a outra pessoa há de ter seu entendimento melhorado, podendo inverter o sentido da ajuda, tal qual acontece com a reversibilidade dos pares conjugados.

Trata-se da expressão inglesa da bigger person, a maior pessoa, aquela que pode ser mais grandiosa moralmente num dado momento. Para os humanoides, eu poderia usar a analogia econômica das vantagens absolutas de Adam Smith e das vantagens comparativas de David Ricardo. Mas ainda acho a aproximação exatoide mais legal, até para diminuir os traumas que as pessoas têm da escola.

André

Reflexões Fezenistas I – dos aparadores

Toda vez que vejo uma alteração no tamanho do papel higiênico sou tomado por uma aflição.

Eu sei quanto é um metro – não é aquela sensação de analfabetismo como se as medidas viessem em pés e polegadas – mas não sei o quanto isso influi na utilidade perdida do produto. Os reguladores das relações de consumo até instituíram que a porcentagem alterada deva ser expressa na embalagem, podendo extrapolar que o uso diminua na mesma proporção, mas a ideia de “Quanto a menos posso cagar com este rolo?” ainda lateja.

Não seria melhor, por exemplo, se o tamanho do rolo viesse expresso em número de cagadas? Os senhores argumentarão, evidentemente, que cada merda é uma merda, que algumas exigem mais papel, e algumas menos, e que nem é algo linear para se medir – se uma cagamerdeira for muito intensa, posso dispensar o Alfredo e ir direto para o banho.

Não discordo. Mas, tal qual um pasto é uma oferta limitada de alimento para o gado e os animais lá colocados podem diferir na ingestão de acordo com seu tamanho e com a qualidade do capim, e a conclusão para isso foi a adoção da capacidade de unidades animais (UA) por área como medida de lotação, da mesma forma a utilidade dos rolos de papel higiênico poderia ser expressa em unidades fecais (UF), unidade ainda a ser definida por estudos qualitativos (textura e umidade, talvez aderência) e quantitativos.

Aí, quando eu me deparasse com um produto que confessasse uma “redução de x UF” (com sua porcentagem em seguida, obviamente), minha aflição se extinguiria… Talvez UB (unidades bostais), caso siglas homônimas se incomodassem com sua xará… não sei.

André

Paganismo racional

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos), e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança?

Continuando a abordagem desendeusadora da ciência, gostamos de olhar para trás com escárnio das formas antigas de se explicarem as coisas. Como um trovão pode ser fruto da ira de Júpiter, do martelo de Thor ou da voz de Tupã quando sabemos que é apenas o barulho do ar deslocado por um relâmpago, que nada mais é do que um fenômeno elétrico? Podemos até usar o tratamento matemático Kratosiano (quem melhor que cálculos para matar deuses?) e fazer um monte de contas para saber à qual distância o raio aconteceu, com base no Δt entre o clarão e o barulho, certo?

Aliás, o conforto mental de se quantificar ou entender as coisas passa a falsa sensação de que temos algum tipo de controle sobre elas. Saber o quão longe estava um raio depois que ele cai não me impede de ser frito por um próximo. “Mas com a ciência conseguimos inventar o para-raios, que nos protege.” Sim, concordo, e não tiro o mérito das melhorias científicas, em absoluto. Mas estamos longe de controlar grandes fenômenos da natureza: vulcões, enchentes, terremotos, tsunamis, furacões, tornados, manchas solares… exemplos drásticos que, quando a Mãe Natura os invoca, contam-se as vítimas às centenas. Conseguimos, no máximo, alertas de fuga, que nada mais são que profecias apocalípticas às quais damos ouvidos.

E, mesmo entendendo COMO muitas coisas acontecem, nunca saberemos QUEM as realiza, se é que há alguém. E se a diferença de potencial elétrica entre nuvens, ou entre uma nuvem e o solo, é a forma que o Cronida tem de lançar seu corisco raivoso? E se o movimento de placas tectônicas é a forma que Atlas encontrou para que Njord pudesse surfar quando a Jaci não puxava ondas boas o bastante? E se doenças são o resultado de milhões de anos de experimentação da Peste em arrebanhar mais gente para o Averno? E se Caim, até então o quarto humano, continuou a linhagem ao cruzar com outra símia hominídea, suficientemente próxima geneticamente, em uma evolução convergente?

Se quem me lê ainda insiste na capacidade científica de previsão e adaptação, ainda que limitada, voltemos ao início: e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança? Quando rimos de uma tribo que faz dança da chuva para invocar água (parênteses, até governantes já pararam de rir, fecha parênteses) por achar que basta a pulverização de nuvens com sal para iniciar a precipitação, esquecemos do mais amplo: se tem uma coisa que um deus tem, é tempo. E com o tempo vem o tédio. Novidades científicas não poderiam estimulá-los a nos dar o que desejamos?

O ritual de criar um avião, destilar a água para se obter cloreto de sódio, subir às alturas, encontrar uma nuvem e fazer a oferenda do sal não pode ser encarado como uma prece que agrada mais à entidade do que a monótona dança no solo, e por isso mesmo mais atendida, inclusive com repetibilidade? E se o ritual de ir a um médico, pegar uma prescrição de antibiótico, tomá-lo três vezes ao dia, durante sete dias (3 e 7, sério?), com aguinha para descer e, para os mais fanáticos, com o sacrifício da abstenção de álcool, é o cântico de súplicas que apaziguam Sekhmet? E se a resistência bacteriana a esses medicamentos não é simplesmente a forma progressiva dessa deusa evitar o tédio, nos forçando a novas mandingas, paper após paper?

Não há como saber. Não acreditar em um “quem” torna-se tão irracional quanto acreditar e, por isso, ao mesmo tempo crer é tão racional quanto descrer. E se você sentindo tanto incômodo ao ler isso se dever à invocação de Éris contida nessas linhas? Não há como saber.

André



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