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Reflexões Fezenistas II – “ué, cadê?”

Não sei se já lhes ocorreu um curioso fenômeno: o de perder a merda. Não, não me refiro àquela inusitada situação de correr para o banheiro com vontade e de repente ela passar, como aquele maldito espirro interrompido que entra para uma conta que você sabe que nunca será paga. Por mais desagradável que seja quando isso acontece, a questão hoje é um pouco mais literal, ou, pelo menos, sem a elipse da vontade.

Uma perda, em uma de suas acepções, se baseia em crer que algo está em um lugar, e não estar, quando procurado. Aqui, trata-se do evento de não encontrar a merda no vaso no momento da despedida, após todo o processo de limpeza, quando se tem certeza (ou quase certeza, efeito colateral da atenção desviada à prazerosa leitura, hábito sadio que certamente muito contribuiu para o nascimento de nossa escola filosófica) de a ter ali cagado.

Fica aquela dúvida, um pouco surreal, como um sonho invasor de uma rápida pescada no fim da tarde que se esvai deixando para trás a sensação de “será que aconteceu mesmo?” Mas o papel já se foi ao cesto (ou papéis? gastei muito? sujaram? não me lembro!), descuido de quem não sabia que a empreitada precisaria de documentos comprobatórios. Mas a angústia, e eis a beleza de tudo, não é essencial a ponto de revirar o lixo ou, pior, procurar alguma técnica que permita vasculhar a… límpida?… translúcida água atrás da suspeita fugitiva, de modo que não há o que fazer além de sair com uma feição culpada de quem pode ter ocupado o banheiro desnecessariamente.

Ou de relatar o ocorrido e esperar que outras almas já tenham padecido semelhante aflição.

André

PS – sobre o contrário, houve um post em meu facebook que dizia “pareço confiante mas sempre confiro o vaso quando a descarga não faz o ‘PROROLOLOLOL’ esperado no final”.

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Diabético?

Sou diabético. Isso significa que um exame meu saiu alterado. Significa que, lá dentro, um órgão não está fazendo o que devia da forma que devia.

Significa que tenho que ter algumas regras diferentes na minha vida, sobretudo na rotina. Significa que comida, para mim, sempre um glutão inveterado, já não representa o mesmo prazer de antes. Significa que exercícios físicos, já importantes, devem se tornar essenciais na minha vida. Significa que algumas feridas, em mim, ganham outra importância, e não cicatrizam como nas demais pessoas.

Significa que, quando descompensado, vou precisar de ajuda profissional. E significa que posso precisar dela sempre se o quadro se tornar cronicamente grave. No mínimo, significa que preciso de um acompanhamento médico periódico. Significa que pode ser que as coisas fiquem estáveis só com as alterações de conduta, mas também significa que eu sei que medicações podem entrar de vez na minha vida.

Significa que tenho chances maiores de isso me levar à morte em algum momento. Mas não significa que seja isso que eu queira. Pode até significar que algumas ações passadas minhas contribuíram para isso. Mas não significa que com certeza eu não teria nada disso sem elas. Significa que gostaria de ser normal como qualquer outra pessoa. E significa que é fazendo o tratamento corretamente que vou me aproximar dessa chamada vida normal, não o ignorando. Definitivamente, significa que só com pensamentos positivos eu não vou conseguir muita coisa.

Mas, principalmente, significa uma coisa: estou (ou sou) doente. A Patologia prega essencialmente que uma doença é o resultado de uma alteração em um órgão ou função que não está exatamente como deveria. Então, se você guardar apenas esse último significado, posso te contar uma coisa: não sou diabético. Sou depressivo. Eu não quis enganar ninguém. Pode substituir a palavra no início do texto. O resto é igual. Em vez de um pâncreas, é o cérebro lá dentro que soa defeituoso. Mas ainda é uma doença.

Pense nisso antes de chamar a depressão de alguém, ou qualquer outro transtorno psiquiátrico ou psicológico, de frescura e cobrar uma solução só com a força de vontade. Esse texto não é (inteiramente) autobiográfico, mas vale pra muita gente.

André

Update 21abr2016: achei um post muito bom no facebook que usa outra analogia do mesmo tipo, mais sintética e visual.

Depressão asma

André

Empatia de Arrhenius e de Brönsted-Lowry

Uma pessoa tem um problema. É legal da sua parte, até para não piorar a situação, que tenha empatia suficiente para entender como ela se sente. Se puder ter a compaixão para ser movido a fazer algo para melhorar, ou pelo menos amenizar, tanto melhor. Mas e quando você também tem um problema?

Muitos conflitos se dão quando perrengues mútuos se encontram e não partilham de uma solução comum que levaria seus donos e donas a trabalharem juntos. Na disputa para ver quem se lascou mais, frases como “Mas só eu tenho que entender os outros, e quem me entende?” são comuns, até pelo senso de autopreservação. Normalmente, uma das partes acaba cedendo, ainda que temporariamente, para sanar a outra questão, e então focar na sua. Mas quais critérios são válidos para definir quem cede primeiro?

O primeiro deles, curiosamente, não é a importância dos dilemas, mas sim a capacidade de se doar, a popular bondade, se preferirem. Há pessoas que sempre se deixam de lado para ajudar outras, não importa quais os problemas envolvidos. Sua compaixão abunda, e elas não hesitam em se anular, de onde não gosto de chamar isso de bondade, se elas podem até se prejudicar.

Em segundo, aí sim, a importância de cada problema envolvido. Não vou reclamar da minha unha encravada, embora possa ser um martírio, para quem acabou de ter a perna amputada. “Pelo menos você não tem mais dedão pra doer como o meu” pode parecer uma boa piada de humor negro, mas em uma situação real é um enorme atrativo para levar a perna restante no meio dos dentes.

E, para todas as situações em que essas duas não se aplicam, mas o relacionamento com a outra desafortunada pessoa importa o bastante para não morrer no conflito, resta o carma do melhor entendimento. Veja bem, a empatia que eu cito no início do texto, a capacidade de entender os sentimentos alheios e se colocar no lugar deles, é uma empatia absoluta. Você deve cultivá-la, e seu interlocutor ou interlocutora também. Muitas vezes podem até cair no segundo argumento, com um entendendo que a aflição do outro tem alguma prioridade sobre a sua. A esse tipo absoluto chamei de empatia de Arrhenius, em analogia direta aos conceitos químicos de ácidos.

Expandindo a analogia, há a empatia de Brönsted-Lowry, para a qual, considerando dois indivíduos, um será melhor entendedor que o outro, ainda que o outro também possa entender os sentimentos do um em algum grau. O empático de Brönsted-Lowry, o ácido, tem a responsabilidade (daí o carma) de doar seu entendimento para aliviar as mágoas da base. Uma vez melhor, mais calma e mais feliz, a outra pessoa há de ter seu entendimento melhorado, podendo inverter o sentido da ajuda, tal qual acontece com a reversibilidade dos pares conjugados.

Trata-se da expressão inglesa da bigger person, a maior pessoa, aquela que pode ser mais grandiosa moralmente num dado momento. Para os humanoides, eu poderia usar a analogia econômica das vantagens absolutas de Adam Smith e das vantagens comparativas de David Ricardo. Mas ainda acho a aproximação exatoide mais legal, até para diminuir os traumas que as pessoas têm da escola.

André

Reflexões Fezenistas I – dos aparadores

Toda vez que vejo uma alteração no tamanho do papel higiênico sou tomado por uma aflição.

Eu sei quanto é um metro – não é aquela sensação de analfabetismo como se as medidas viessem em pés e polegadas – mas não sei o quanto isso influi na utilidade perdida do produto. Os reguladores das relações de consumo até instituíram que a porcentagem alterada deva ser expressa na embalagem, podendo extrapolar que o uso diminua na mesma proporção, mas a ideia de “Quanto a menos posso cagar com este rolo?” ainda lateja.

Não seria melhor, por exemplo, se o tamanho do rolo viesse expresso em número de cagadas? Os senhores argumentarão, evidentemente, que cada merda é uma merda, que algumas exigem mais papel, e algumas menos, e que nem é algo linear para se medir – se uma cagamerdeira for muito intensa, posso dispensar o Alfredo e ir direto para o banho.

Não discordo. Mas, tal qual um pasto é uma oferta limitada de alimento para o gado e os animais lá colocados podem diferir na ingestão de acordo com seu tamanho e com a qualidade do capim, e a conclusão para isso foi a adoção da capacidade de unidades animais (UA) por área como medida de lotação, da mesma forma a utilidade dos rolos de papel higiênico poderia ser expressa em unidades fecais (UF), unidade ainda a ser definida por estudos qualitativos (textura e umidade, talvez aderência) e quantitativos.

Aí, quando eu me deparasse com um produto que confessasse uma “redução de x UF” (com sua porcentagem em seguida, obviamente), minha aflição se extinguiria… Talvez UB (unidades bostais), caso siglas homônimas se incomodassem com sua xará… não sei.

André

À sinistra

Não me perguntem como, mas há algum tempo me descobri com pensamentos novos. Também não me perguntem quando; não consigo nem precisar algum marco para chamar de histórico e eleger como uma data de mudança. Não foi um despertar, uma situação de estar alheio para, então, um belo dia, querer me posicionar de alguma forma: tinha opiniões pensadas e embasadas, só que opostas. Aliás, o título me veio a posteriori, com certa surpresa. Pensei, pensei, pensei, vi como me sentia, e depois descobri que tinha nome para isso. Sim, eu simpatizo com a esquerda.

Mas este não é mais um post de mais um blog esquerdista comunista marxista chavista cubano que vai tentar te convencer a abandonar a direita golpista coxinha por um mundo cor-de-rosas vermelhas. Eles nunca conseguiram ME convencer, nos destros tempos, não espero que façam melhor trabalho com outros.

Então, dedico essas linhas aos (todos os gêneros subentendidos, ou o texto ficará ainda mais cansativo pelos (a)/(as) de palavra em palavra, ok?) porta-vozes das implementações de melhoria de qualidade de vida, daquelas mudanças que podem fazer as pessoas se parecerem, não física mas socialmente, com suecos e noruegueses, e não com nortecoreanos e chineses, em uma situação de desigualdade menor.

Falo a esquerdistas como um ex-direitista. Primeiro, acredito que, quando promovem suas ideias, não só queiram aprovação dentro do seu grupo, com quem sempre encontram ressonância, mas esperam que outras pessoas entendam as boas coisas que vocês enxergam como importantes para que reforcem a necessidade de mudança. Neutros, sim, claro. Mas, se puderem converter o pessoal da direita, defensor das ideias opostas e ofensor das suas, melhor ainda. Questão de estratégia: se um adversário forte comprar a sua causa, essa força passa a ser usada em seu benefício.

Não faço ideia de como atingi-los. Como eu disse, nem sei o que foi que me fez pensar que reduzir a desigualdade é o melhor jeito de melhorar as coisas como um todo. Mas sei bem como NÃO atingi-los: é só me lembrar de tudo que me causava aversão enquanto coxinha, quando nem se usava esse termo para isso (coxinha era, na época, o jeito de falar da PM). E a principal forma, juro, é pelo discurso.

Acreditem, uma parcela importante da galera que bate panelas não é fria e indiferente aos problemas das pessoas e não acha que suas posses vão valer menos se outros também adquirirem seus exemplares. Claro que os mesquinhos existem e abundam, mas vocês realmente acham que o problema deles é falta de visão política? Então, pensando em quem vale ser pensado, creiam quando eu digo que o discurso clássico da esquerda afugenta, e “quiçá” converte ao outro lado, muitas pessoas que poderiam entender melhor a complicada rede do “sistema”.

Não tenho formação retórica, não sou nenhum líder nato ou de mérito, mas posso tentar ajudar ao mostrar alguns termos muito usados que fecham automaticamente os ouvidos de não simpatizantes, que, convenhamos, são quem importa, já que os demais já pensam igual aos locutores.

Metáforas – minha idolatrada professora de Português vai querer morrer, ou me matar, se chegar a ler isso. Mas, embora um recurso estético muito importante na produção literária, o saturado uso de figurações para descrever principalmente o lado contrário impregna as frases de parcialidade e subjetividade, coisas que, segundo me lembro das aulas de redação dissertativa, enfraquecem o poder argumentativo por fazer o ouvinte ou leitor pensar que não se trata de uma verdade, mas apenas da sua opinião, que não vale mais do que a dele. Então, quando o Suflê de Chuchu der entrevista à Toda-Poderosa defendendo o Playboy Cheirador para delírio dos coxinhas, maneirem a veia poética;

Sistema – uma entidade poderosa, complexa e pouco palpável a ser melhorada existe, mas tratá-la assim é dar-lhe os ares de ficção científica da Matrix, bastante indigesta para quem já não é fã do modelo;

Mídia / midiática – essa é difícil, pois é trabalhoso se referir aos principais canais de comunicação, muitos alinhados (aliás, incluam “alinhados”) aos pensamentos conservadores (aliás, incluam “conservadores”). Mas nosso idioma tem mais de 400.000 palavras, há de existir outras que façam o serviço. Acho que “imprensa” passa, mas usem com moderação;

Golpista – quando uma fração do povo acha que é a esquerda que quer dar um golpe e transformar o Brasil em uma ditadura comunista stalinista chavista gayzista, usar a mesma palavra para o outro lado só é interpretado como um “mãe, ele que começou!”;

Luta – a saturação desse termo é mais culpa do Marx, ou melhor, de todos que nos falaram sobre Marx até hoje. Se você fala “luta”, o “de classes” já vem automático na cabeça, em letras garrafais e vermelhas. É claro que essa divergência entre estratos da população existe, sempre existiu, e há boas chances de que continue existindo de alguma forma, mas usar a palavra de violência sem o “jogos de” antes já desperta todo o preconceito político do ouvinte;

Blindagem – termo de sentido abstrato, quando não usado nos veículos policiais de contenção. Geralmente associado à “mídia”, é usado para denunciar a parcialidade de reportagens quando elas não abordam tudo o que pregam abordar, como mostrar… frangos sofridos só por um goleiro de um time e não de outro, em uma matéria chamada “E agora, todos os frangos da rodada”. No exemplo, a reputação do goleiro do outro time foi blindada. Assim como os ouvidos dos interlocutores;

Fascista / nazista / autoritário / reacionário / reaça – felizmente a nossa extrema direita no Brasil é hoje tão fraca e patética como a extrema esquerda. Esse “extrema” denota uma perda de liberdade à base de violência muito grande. Nem Hitler, nem Stalin, nem Mao, nem Costa e Silva. Quando acusam de uns, são ouvidos como os outros automaticamente;

Trocadilhos – outro recurso estético bastante criativo na literatura, peca no discurso pelas mesmas razões das metáforas. “Dilmais”, “Rachel Sheheranazi”, “Aécio Naves”, “Tucanistão”, “midiotas” etc. já denunciam seu envolvimento emocional, que desacredita o argumento.

Rebuscamento – muitas pessoas de esquerda são cultas e intelectuais, e deixam clara sua erudição nas suas palavras. Mas combater o analfabetismo funcional brasileiro não é tarefa que se faz armado de léxico. É como, usando o estereótipo da aversão das ciências humanas por exatas, e da afinidade daquelas pela esquerda, é como se quisessem provar um ponto para você através de funções de várias variáveis cheias de integrais duplas. Gera antipatia. Aliás, um “quiçá” lá em cima está destacado justamente por isso;

Pessoas com muito mais sensibilidade do que eu já se ligaram no aspecto caricato que jargões dão ao discurso da esquerda (ou, como gosto de pensar quando não estou afim de rótulos, do pessoal preocupado com questões sociais e igualdade), como o Marcelo Adnet com seu quadro do militante revoltado no programa Tá no Ar: a TV na TV.

Não consegui incorporar o vídeo, mas fica um link aqui.

Não consegui incorporar o vídeo, mas fica um link aqui para vê-lo na Rede “Gloebbels”.

Claro que o lado direito também é cheio de jargões contra a esquerda (nos trocadilhos, tem os “petralhas”, “esquerdopata”, entre outros). Mas, da minha parte, prefiro que eles continuem sem conseguir “desesquerdar” pessoas caindo nesses mesmos erros.

Que outras palavras, frases ou expressões a mais vocês podem acrescentar? Os não simpatizantes que ainda me leem talvez estejam cheios de exemplos. Por favor, colaborem. Se a esquerda conseguir falar de uma forma mais palatável, vocês continuarão sendo livres para aceitar ou não as ideias, prometo!

André

Burrofobia

Para que nunca mais se perca.

*

“Tenho preconceito com gente burra. Quer dizer, não sei se é preconceito. Não sou um burrófobo, sabe?, que nem as pessoas me chamam. Tenho inclusive uns conhecidos burros. Não os chamo de amigos, porque sabe como é, né? O pessoal comenta. Vai que achem que eu também sou burro? Deus me livre! Mas nada contra! Só não gosto perto de mim. Tem burro que dá muita pinta, sabe? Tem que ficar mostrando suas burrices por aí. Cada um sabe de si, mas não podiam ser burros mais discretos, no canto deles? Porque é escolha deles, né?, então perto da gente podiam escolher, ou fingir, pelo menos, não ser tão burros. Às vezes acho que é da criação, sabe? Mas aí penso “que pais iam querer que seus filhos fossem burros?”. Eu, se tivesse um filho ou uma filha burros, mandava pra fora de casa, mesmo amando muito! Claro, ia tentar curá-los antes, fazer o possível para não serem tão burros. Mas cada um é cada um, né?”

*

André

Paganismo racional

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos), e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança?

Continuando a abordagem desendeusadora da ciência, gostamos de olhar para trás com escárnio das formas antigas de se explicarem as coisas. Como um trovão pode ser fruto da ira de Júpiter, do martelo de Thor ou da voz de Tupã quando sabemos que é apenas o barulho do ar deslocado por um relâmpago, que nada mais é do que um fenômeno elétrico? Podemos até usar o tratamento matemático Kratosiano (quem melhor que cálculos para matar deuses?) e fazer um monte de contas para saber à qual distância o raio aconteceu, com base no Δt entre o clarão e o barulho, certo?

Aliás, o conforto mental de se quantificar ou entender as coisas passa a falsa sensação de que temos algum tipo de controle sobre elas. Saber o quão longe estava um raio depois que ele cai não me impede de ser frito por um próximo. “Mas com a ciência conseguimos inventar o para-raios, que nos protege.” Sim, concordo, e não tiro o mérito das melhorias científicas, em absoluto. Mas estamos longe de controlar grandes fenômenos da natureza: vulcões, enchentes, terremotos, tsunamis, furacões, tornados, manchas solares… exemplos drásticos que, quando a Mãe Natura os invoca, contam-se as vítimas às centenas. Conseguimos, no máximo, alertas de fuga, que nada mais são que profecias apocalípticas às quais damos ouvidos.

E, mesmo entendendo COMO muitas coisas acontecem, nunca saberemos QUEM as realiza, se é que há alguém. E se a diferença de potencial elétrica entre nuvens, ou entre uma nuvem e o solo, é a forma que o Cronida tem de lançar seu corisco raivoso? E se o movimento de placas tectônicas é a forma que Atlas encontrou para que Njord pudesse surfar quando a Jaci não puxava ondas boas o bastante? E se doenças são o resultado de milhões de anos de experimentação da Peste em arrebanhar mais gente para o Averno? E se Caim, até então o quarto humano, continuou a linhagem ao cruzar com outra símia hominídea, suficientemente próxima geneticamente, em uma evolução convergente?

Se quem me lê ainda insiste na capacidade científica de previsão e adaptação, ainda que limitada, voltemos ao início: e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança? Quando rimos de uma tribo que faz dança da chuva para invocar água (parênteses, até governantes já pararam de rir, fecha parênteses) por achar que basta a pulverização de nuvens com sal para iniciar a precipitação, esquecemos do mais amplo: se tem uma coisa que um deus tem, é tempo. E com o tempo vem o tédio. Novidades científicas não poderiam estimulá-los a nos dar o que desejamos?

O ritual de criar um avião, destilar a água para se obter cloreto de sódio, subir às alturas, encontrar uma nuvem e fazer a oferenda do sal não pode ser encarado como uma prece que agrada mais à entidade do que a monótona dança no solo, e por isso mesmo mais atendida, inclusive com repetibilidade? E se o ritual de ir a um médico, pegar uma prescrição de antibiótico, tomá-lo três vezes ao dia, durante sete dias (3 e 7, sério?), com aguinha para descer e, para os mais fanáticos, com o sacrifício da abstenção de álcool, é o cântico de súplicas que apaziguam Sekhmet? E se a resistência bacteriana a esses medicamentos não é simplesmente a forma progressiva dessa deusa evitar o tédio, nos forçando a novas mandingas, paper após paper?

Não há como saber. Não acreditar em um “quem” torna-se tão irracional quanto acreditar e, por isso, ao mesmo tempo crer é tão racional quanto descrer. E se você sentindo tanto incômodo ao ler isso se dever à invocação de Éris contida nessas linhas? Não há como saber.

André



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