Posts Tagged 'religião'

Reflexões Fezenistas V – paraíso anunciado

Arrisco-me a falhar como o Quincas Borba quando tentou expandir o Humanitismo de filosofia para religião, mas… Faça-se a anunciação!

“A privada é o Céu do Fezenismo.”

Vejam bem: o ato de cagar é o ponto máximo do Fezenismo, a razão de toda a existência da escola. Ele é tão sublime que chega a ser sagrado. A cagada é a comunhão do ser com o Fezenismo. “Mas e o Céu?”, perguntam os iniciados. Em verdade vos digo, na privada todas as merdas são iguais: não importa se você comeu caviar ou churrasquinho grego, tomou champanhe ou o suco que inteira o passe que paga o churrasquinho, lá dentro todos são merdificados para ascender para baixo juntos.

“Ah, mas caga-se em outros lugares, no mato, nas calças…”. Sim, mas quando tudo dá certo, é para a privada que as almas vão. É o prêmio da boa cagada, tal qual não se duvida do inferno em que uma borrada incontinente nos mete.

As diferenças de volume, consistência e cor são irrelevantes; tudo é merda. Assim como as condições do depósito: mesmo com dor e urgência, a sensação continua sendo tão libertadora quanto a abertura de espaço para mais rodízio.

Tudo é merda, e a cagada alivia.

André

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Paganismo racional

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos), e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança?

Continuando a abordagem desendeusadora da ciência, gostamos de olhar para trás com escárnio das formas antigas de se explicarem as coisas. Como um trovão pode ser fruto da ira de Júpiter, do martelo de Thor ou da voz de Tupã quando sabemos que é apenas o barulho do ar deslocado por um relâmpago, que nada mais é do que um fenômeno elétrico? Podemos até usar o tratamento matemático Kratosiano (quem melhor que cálculos para matar deuses?) e fazer um monte de contas para saber à qual distância o raio aconteceu, com base no Δt entre o clarão e o barulho, certo?

Aliás, o conforto mental de se quantificar ou entender as coisas passa a falsa sensação de que temos algum tipo de controle sobre elas. Saber o quão longe estava um raio depois que ele cai não me impede de ser frito por um próximo. “Mas com a ciência conseguimos inventar o para-raios, que nos protege.” Sim, concordo, e não tiro o mérito das melhorias científicas, em absoluto. Mas estamos longe de controlar grandes fenômenos da natureza: vulcões, enchentes, terremotos, tsunamis, furacões, tornados, manchas solares… exemplos drásticos que, quando a Mãe Natura os invoca, contam-se as vítimas às centenas. Conseguimos, no máximo, alertas de fuga, que nada mais são que profecias apocalípticas às quais damos ouvidos.

E, mesmo entendendo COMO muitas coisas acontecem, nunca saberemos QUEM as realiza, se é que há alguém. E se a diferença de potencial elétrica entre nuvens, ou entre uma nuvem e o solo, é a forma que o Cronida tem de lançar seu corisco raivoso? E se o movimento de placas tectônicas é a forma que Atlas encontrou para que Njord pudesse surfar quando a Jaci não puxava ondas boas o bastante? E se doenças são o resultado de milhões de anos de experimentação da Peste em arrebanhar mais gente para o Averno? E se Caim, até então o quarto humano, continuou a linhagem ao cruzar com outra símia hominídea, suficientemente próxima geneticamente, em uma evolução convergente?

Se quem me lê ainda insiste na capacidade científica de previsão e adaptação, ainda que limitada, voltemos ao início: e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança? Quando rimos de uma tribo que faz dança da chuva para invocar água (parênteses, até governantes já pararam de rir, fecha parênteses) por achar que basta a pulverização de nuvens com sal para iniciar a precipitação, esquecemos do mais amplo: se tem uma coisa que um deus tem, é tempo. E com o tempo vem o tédio. Novidades científicas não poderiam estimulá-los a nos dar o que desejamos?

O ritual de criar um avião, destilar a água para se obter cloreto de sódio, subir às alturas, encontrar uma nuvem e fazer a oferenda do sal não pode ser encarado como uma prece que agrada mais à entidade do que a monótona dança no solo, e por isso mesmo mais atendida, inclusive com repetibilidade? E se o ritual de ir a um médico, pegar uma prescrição de antibiótico, tomá-lo três vezes ao dia, durante sete dias (3 e 7, sério?), com aguinha para descer e, para os mais fanáticos, com o sacrifício da abstenção de álcool, é o cântico de súplicas que apaziguam Sekhmet? E se a resistência bacteriana a esses medicamentos não é simplesmente a forma progressiva dessa deusa evitar o tédio, nos forçando a novas mandingas, paper após paper?

Não há como saber. Não acreditar em um “quem” torna-se tão irracional quanto acreditar e, por isso, ao mesmo tempo crer é tão racional quanto descrer. E se você sentindo tanto incômodo ao ler isso se dever à invocação de Éris contida nessas linhas? Não há como saber.

André

Fundamentalismo científico

“Aí eu penso que tem gente que acredita tanto na ciência que mais parecem fundamentalistas de papers sagrados.”

Não que eu não goste da ciência; formei-me cientista, e por muito tempo sonhei em trilhar os caminhos da glória acadêmica, até que não mais, embora ainda viva de suas aplicações de forma bem direta. É um modelo, um bastante eficiente, para explicar situações da natureza e propor formas de intervir nelas. Mas ainda um modelo, que segue a proposição básica de “tudo se passa como se acontecesse desse jeito aqui”, mas não necessariamente, menos ainda absolutamente, as coisas acontecem do jeito pregado.

É como um sujeito que cai do alto de um prédio: um modelo vetorial diz que a força gravitacional acelera o infeliz até o chão, enquanto um modelo escalar diz que ele partiu de um estágio de maior potencial gravitacional para um menor. Dentro da própria ciência, dois modelos explicam seu desfecho de modos distintos, sem que, no entanto, isso importe para o caído no segundo em que ele toca o chão.

Mas os defensores de um ou de outro costumam dar as mãos para atacar modelos que não os científicos, geralmente com alegações que giram em torno da capacidade de se provar. Eis aí a pedra de fé científica, o Santo Graal dos laboratórios, o nirvana da papercracia: a prova, um deus que se manifesta de diversas formas, qualitativas (como bandas em gel ou detecções radioativas) e quantitativas (c.q.d.’s e p<0,05’s), capaz de levar seus fiéis a defender todo tipo de informação que os profetas autores (ou autores profetas?) publicam.

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E, como em qualquer outra fé, quando alguns profetas querem que seu deus diga uma coisa, seus oráculos vão encontrar um jeito de dizê-la, ainda que criando contradições no fluxo do tempo. E assim temos artigos que crucificam o ovo em uma cesta, para ressuscitá-lo divinamente com estudos de coorte ao terceiro dia.

Este não é um texto para ser usado por aí em defesa da religião, veja bem. Com a mesma facilidade com que vejo colegas cientistas me acusando de heresia, consigo imaginar outros tipos de fanáticos de alguma crença excitados com a ideia do “tá vendo? isso só acontece porque meu deus quer!” que não sai (nem sairá) da minha boca. Se a lógica normalmente me seduz, reconheço que falácias e induções podem corromper a compreensão de seres imperfeitos, eu incluso. E isso facilmente poderia gerar o alento de “ah, a ciência é a verdadeira fé, são alguns que a corrompem”, discurso que vemos amplamente por aí em outros setores, e com o qual concordo.

Fato é que, se as descobertas científicas nos ajudam, ao mesmo tempo são norteadas pelo desejo de fama e riqueza. No limite, ou você quer um Nobel, ou quer enriquecer com uma patente. Provavelmente os dois. Pouco provável que se aventurou nisso porque perdeu o sono ao não entender como aquela chaperona influenciava na ativação de complemento pela via clássica em gnus sadios criados no Estado de Sergipe. Nada de errado, considerando que pesquisadores são profissionais, e devem ter ambições como tais.

Mas a ciência em si não é um fim, e sim um meio, diferente do que pregam em muitas fés, as quais têm suas deidades como a busca fundamental. Por isso, não é sadio que a prepotência científica seja tão xiita quando tudo o que consegue dizer é “era isso” (confirma H0) ou “não posso dizer que era isso” (rejeita H0, o que é muito diferente de afirmar “não é isso”).

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos)… e se eu parar aqui e continuar em outro post?

André

Que trata de viagens, metafísica, espiritismo, Matrix, Mundo de Sofia, Lobsang Rampa, “e se”‘s e dá outras providências

Não sou a pessoa mais espiritualizada do mundo, mas gosto de aprender a dinâmica das crenças das pessoas. Quando não acrescenta mais nada, pelo menos serve de base para algum tipo de humor. Por exemplo, não existe maior pagão que um bom católico: ele trata imagens como se fossem as próprias entidades celestinas nas quais acredita (ou alguém realmente já parou pra pensar que o @SantoAntônioOficial, o lá de cima, não deve passar frio nem se afogar quando as solteironas inconformadas castigam suas estatuetas?), faz sinais, entoa mantras, acende velas, negocia sacrifícios e ritualiza um canibalismo do seu salvador (comer o corpo e beber o sangue? really?!).

Fora os símbolos: por que tanta gente usa brincos, anéis, pingentes, piercings, tatuagens etc. da cruz?! “A cruz é pra nos lembrar do sacrifício que Ele fez por nós.” Sim, isso eu entendo, e consigo entender as orações contritas perante o Big T, a cruzinha na ponta do terço ou rosário e por aí vai. Mas e os adornos, pelamor? Conseguem imaginar afrodescendentes ostentando grilhões de ouro nos pulsos para se lembrarem dos antepassados que sofreram com escravidão, ou judeus com brincos em forma de Auschwitz 18k cravejados nas baladas, em memória da perseguição de sua fé? É mais ou menos do mesmo jeito que eu, aqui de fora, enxergo. Mas divago…

Aliás, a razão de eu começar a escrever esse post está muito mais relacionada à divagação do que ao humor, o que já deve aliviar os leitores que perceberam por que não me aventuro no mundo dos stand-ups. Então, voltando à ideia de que não sou uma pessoa de grande fé, começo colocando um grande “E se…?” ao assumir a ideia espírita – espiritismo geral, sem rixa sobre se é da umbanda, do candomblé, do budismo, do hinduísmo, do Alan Kardeck, do David Luiz ou de quem for – de que um espírito continua a viver depois que o corpo morre. Acrescento ainda a justificativa dada de que a entidade faz isso porque precisa “evoluir” ou o termo que for que defina uma melhora progressiva de sua existência, reencarnando quantas vezes for necessário até que atinja o nível de XP para passar a um outro plano.

Considerando isso, por que então eles se dão ao trabalho de interagir conosco, ajudando ou atrapalhando? Se for mesmo parte do processo de aprendizado do “lado de lá”, como uma lista de tarefas e preparações de terreno antes de terem que voltar pra campanha terrestre, fico com mais dúvidas do que respostas. Primeiro: se existe essa sucessão de planos, inúmeros de onde viemos e inúmeros para onde vamos, não é petulância antropocêntrica demais achar que estamos no único ponto em que, para a evolução, é possível esse intercâmbio de informações, como galinha e cachaça pela pessoa amada?

Se sim, será razoável pensar que no além-vida as almas também recebam relacionamentos das instâncias superiores? Mais importante, então cadê nossas conversas com os estágios anteriores? E se elas já acontecem, dia após dia, minuto após minuto? E se, cada vez que criamos uma história, damos vida a seres, majores Knag de suas Sofias? Ou, cada vez que interagimos com uma história, por exemplo criticando e cobrando o andamento de uma novela ou série ou desenho, o espírito dos personagens é influenciado por encostos de audiência? Ou, na metafísica de minha fé, jogos e outras programações constantemente sofrem as oscilações de nossos humores olímpicos, matando o Mario para pegar um cogumelo ou alterando a sequência das próximas músicas do setlist no iTunes?

Se algo disso tudo fizer algum sentido, voltemos aos nossos orixás, espíritos de luz e oráculos: será que eles têm consciência do que fazem com a gente? Isso explicaria porque, às vezes, as mensagens carecem de clareza. A menos que, claro, … e se eu viajei demais?

André

Das conversões e iluminações

Todo mundo tem aquela pessoa conhecida que um dia se converteu a uma religião evangélica, “virou crente”, e agora só sabe falar disso, de como o JC mudou sua vida, de como é mais feliz com o Senhor, de como sua vida passada era errada, de como a vida dos que ainda não tiveram sua chamada é errada, e por aí vai. Ela passa por chata em todo seu antigo círculo social.

O que nem todo mundo percebe é que o crente descrito é só um estereótipo de gente deslumbrada com uma nova fase da vida. Tal como ele, existe muita gente que se converteu ou encontrou a iluminação com as mais diferentes coisas, e é tão chata e insistente com seus bombardeios de empolgação saturante quanto a mais madrugadora das testemunhas de Jeová.

Religiões, ateísmo, filosofias, ciência, pseudociência, política, relacionamentos, sexualidade, esportes, exercícios, dietas, vegetarianismo, baconismo, nerdice, autoajuda, autopiedade, filantropia, trabalho, boemia, viagens, liberdade, solteirice, matrimônio, maternidade, música… entre tantos outros temas. Até dança, acreditam?

Um amigo meu de infância era tão carola que conseguiu me influenciar a fazer metade de um curso de catecismo. A gente até ia à missa juntos durante esse período. Quando eu vi que não era minha praia, ou meu céu, ele continuou. Um pouco maior, ele frequentava até estes grupos de jovens, que sei lá do que se trata. Mas nossa amizade se mantinha igual. Não foi o mesmo quando ele conheceu o tal do zouk, uma dança que todos que não conhecem acham parecida com a salsa. O cara desapareceu, e tudo da vida dele girava em torno dessa seita dançante: falava das meninas que ele conhecia dançando, dos amigos que fez na dança, das músicas novas que conhecia e treinava, dos problemas que surgiam no ambiente em que dançava… Todos os sábados, ele ia a um clube voltado para o gênero. TODOS os sábados! Era seu compromisso mais sagrado, a ponto de faltar em uma comemoração do meu aniversário (niver cair no próprio sabadão pode demorar até 11 anos) para marcar presença no lugar em que ele tinha ido na semana anterior, e em que iria na próxima. E quando eu descobri que ele tinha passado, mais de uma vez, suas férias em cruzeiros de zouk, eu aceitei que tinha sido trocado.

Mais exemplos proliferam no news feed do meu facebook, muitos antagônicos, muitos sinérgicos. Gente iluminada que precisa salvar os animais dá as mãos aos que decidiram não mais comer animais, e anunciam bichos achados, bichos perdidos, bichos estropiados, bichos abatidos,  bichos que escrevem posts, pedem ajuda e agradecem em primeira pessoa, em um ato de inclusão digital extrema. São geralmente combatidos pelos carnívoros, que nada têm contra os defensores sozinhos, mas se negam a curtir as fotos das receitas vegetarianas dos aliados, e postam os mesmos bichos abatidos virando pratos assados, pratos fritos, pratos cozidos, pratos crus, bacon nisso, bacon naquilo. Ganham a simpatia dos comilões sedentários, que informam cada refeição e indolência cardiopática que vivenciam. Contra essa aliança surge nova oposição, a dos esportistas, promotores do bem-estar físico e compartilhadores de todo seu suor fedido e aplicativos para mensurá-lo em mL, km, kcal, kg, cm, pedaladas e números adimensionais de medidas de roupa. Correndo ao lado deles aparecem os naturebas, que podem talvez ser sedentários como os rivais, mas ouvem o canto dos anjos nas refeições coloridas e sem gosto dos produtos ditos naturais (que não possuem tecnécio, promécio, astato, frâncio nem nada com Z>92, suponho), de preferência em porções rarefeitas ingeridas trinta e duas vezes ao dia, após sessenta e quatro mastigações cada, conforme viram nos estudos publicados nas revistas, programas de TV e posts das páginas e blogs de procedência holística, estes por sua vez atacados incessantemente pelos cien-nazis mais obcecados em provar que homeopatia, fitoterapia, cromoterapia, aromaterapia, punhetoterapia, florais de Bach, de Beethoven e de Mussorgsky, medicina ortomolecular, metamolecular, paramolecular, cis-, trans-, d-, l- ou quaisquer outras variações isoméricas da medicina estão erradas, em vez de gastar seus recursos e tempo em algo que pode ser trabalhado positivamente, do mesmo jeito que ateístas, tentando convencer católicos, protestantes, os crentes lá de cima, umbandistas, budistas, xintoístas, hinduístas, cientologistas, espíritas, semitas, sunitas, xiitas etc. de que sua crença na não-existência de um deus está certa sobre a crença deles, fazem, e ainda dizem que os religiosos estão errados ao serem intolerantes e tentarem impor seu Senhor sobre os Senhores e Senhoras dos vizinhos.

Os naturebas ainda espezinham os cientistas ao pregarem uma vida mais próxima à pré-civilizada, com menos remédios, menos cirurgias, e, óbvio, menos doenças, como se alguém em sã consciência quisesse mais doenças. Chamam isso de “mais humana”, e ganham a fidelidade da bancada das mães fanáticas que, depois da orgia de posts exaltando o casamento e todo o trabalho que deu para prepará-lo e como é bom sentir o amor de verdade da vida delas, ou depois de decidirem que nada dessas imposições sociais é necessária e que podem e vão ter quantos filhos quiserem sem ajuda de ninguém, defendem e professam o direito sobre o próprio corpo, sobre parirem como e onde quiserem, com ou sem médicos, com ou sem parteiras, com ou sem curandeiras, com ou sem úte… não, espera. E as crias passam a ser toda a fonte de conversas e registros escritos, fotográficos, sonoros e cinematográficos, tanto das mães quanto dos pais, pois são presentes divinos, de algum dos deuses ou não-deuses anteriormente citados. Tão angelicais quanto os animais de todos os autoproclamados pais e mães de não-humanos que inundam toda a seção de imagens da web. O amor desses donos é tão forte que precisam extravasá-lo em odes positivas e em combate a maus-tratos, aproximando-os dos protetores com que começamos o parágrafo anterior. Aí entram os machões, contra toda essa boiolice e contra a boiolice em si, hostilizados por quem defende a liberdade sexual, odiada por muitos religiosos, que não são os mais queridos dos mesmos machões. E, nessa salada toda, se nem PSDB e PT conseguem decidir direito de qual das coligações citadas dá menos problema se aproximar, quem dirá seus militantes coxinhas e risoles? E meu amigo dançando.

Chega! Mesmo ficar em cima do muro para observar tudo isso vira mais uma exaltação de um modo de vida neutro, quando se dedicam tantas linhas para falar do assunto. Fora todas as categorias em que já me enquadrei ou me enquadro ao longo dessa vida. Por exemplo, o metal! Já falei pra vocês por que o metal é o melhor estilo musical de todos? …………

André

Teologia (somente leitura)

Assim como a Grande Abóbora, fé é um assunto que não se pode discutir. Por essa razão, esse post não está passível de argumentações, nem tampouco busca convencer alguém a adotar a mesma postura que tenho. Trata-se apenas de uma exposição dos conceitos em que acredito, e de como cheguei a eles. Mas, também, não acredito que muitos cheguem ao final apenas pela curiosidade de me classificarem. Em todo caso…

Curioso é que as pessoas ficam menos espantadas quando acham que eu sou ateu e/ou satanista, devido às músicas que ouço, com agravação pelo sinal dos chifres com os dedos, do que quando digo que estão erradas e tento explicar minhas crenças, talvez por já existir um pacote com nome e destino definidos (ateu = abismo) dentro de suas religiões. Ainda assim, é engraçado que lhes seja mais confortável me tacar no inferno do que entender minhas motivações.

Entre as primeiras, digo que acho muito válido as pessoas terem fé em alguma coisa, pois, no mínimo, isso traz uma paz de espírito, que é o mais importante da vida. Mas as fés tradicionais não me dão esse alento, e eu não ficaria feliz seguindo um conjunto de dogmas cuja raiz não me convence. Nem aceitaria o popular, porém hipócrita, sincretismo, em que os fiéis agarram os pedacinhos que os mais agradam em cada religião e tecem seus próprios preceitos justificados em nome de outros. O que, então, é capaz de me confortar com a mesma eficiência? Razão. Tenho a forte tendência de aceitar como verdade as coisas que fazem sentido, e preciso ser bem chato metodologicamente para não ser enganado a toda hora pelos sofismos que vemos por aí. Todavia, é fato que o apelo racional me tenta com a mesma sedução da serpente Genesiana, e aceito nossas explicações científicas e filosóficas pros diversos fenômenos como o modelo mais eficiente de que dispomos para entender o Mistério da criação.

Concebendo a razão e a ciência como forças motrizes capazes de explicar as observações naturais, estas passam a existir segundo as leis da causalidade. Tudo é consequência de algo, e servirá como causa de coisas futuras. Podemos pensar numa grande reação química composta, com diversos reagentes gerando produtos, que por sua vez reagem com outros compostos, formando outros produtos, e assim sucessivamente. Tal qual em um vestibular podemos predizer alguma substância em algum ponto da equação, da mesma forma, acredito que os diversos pontos dessa equação universal estão definidos e resultarão de e em interações termodinâmicas. Alguns anos depois de chegar a essa ideia, descobri que existia um rótulo pra mim: determinista. Olhando para trás, poderíamos rastrear item a item, perguntando “de onde vem isso?”, até chegar a um princípio que, necessariamente, deve começar em si mesmo, ou as perguntas nunca acabariam.

Sob a luz da razão, a esse princípio chamo Deus e atribuo sua plausibilidade, o me leva ao segundo tópico das minhas concepções. Parece-me totalmente razoável que o universo que conhecemos tenha sido originado de algo maior, e que tudo deriva dessa essência (incluindo todas as leis naturais que já conseguimos qualificar e quantificar, e todas as outras que ainda jazem na escuridão da nossa ignorância), seja lá o que ela for, e que convencionamos chamar de Deus. Para minha sorte, a História se encarregou de dar um nome a essa abordagem: deísmo. Como deísta, aceito a existência divina como origem dos processos naturais, sem contudo aceitar, necessariamente, nenhuma atribuição que as diversas religiões lhe dão (algo como dizer “Eu creio em Deus, mas não no seu Deus ou no Deus de qualquer outro”).

Dentre essas atribuições, uma que particularmente me incomoda é a de moldá-lo em alguma forma física palpável. Não me importa se é um velhinho de barbas, um filhinho de barbas, uma família de incestuosos no alto da montanha, uma pomba branca, um corpo com cara de cachorro ou elefante ou meme, um nabo, um alien ou uma pedra. Parece-me deveras simplista que uma entidade de tamanho poder seja um ser comum como a gente. Talvez fizesse sentido quando os elefantes eram o máximo de grandiosidade que os hindus vissem, ou quando tivemos os primeiros progressos filosóficos antes dos outros animais, dando a ideia de que éramos superiores a eles, e, por isso, o resto do mundo foi criado para nós. Aliás, é exatamente por esse relativismo temporal que as formas corpóreas divinas não me apetecem. Um dia, Thor e Jove bastaram pra explicar os trovões e raios, até que Benjamin Franklin percebeu suas descargas elétricas e hoje temos todos os modelos elétricos (de Coulomb à Itaipu). Talvez no futuro a Santíssima Trindade ou os orixás também nos pareçam mitológicos.

Bem, se não as deidades individualizadas, então o quê, já que admito a existência divina? Eu poderia dizer de pronto a resposta, mas não soaria racional, e sim um misticismo poético de Caeiro. E, embora o tivesse lido antes de concluir a terceira característica de minha fé, o texto só me fez sentido depois de atinar para a ideia de equação universal determinista. A trajetória para esse sentido pode ser alcançada por um exercício de pensamento com um modelo informático: suponhamos a programação de um jogo não muito elaborado tecnologicamente, como Sonic, por exemplo. Ela lhe atribui um universo com suas leis, como gravidade, aceleração, quantidade de movimento, colisão, tempo e morte, e os elementos de seu mundo estão sujeitos a elas, como nós às leis da Física, Química e Biologia (que, no fundo, são uma coisa só). De certa forma, Naoto Oshima poderia ser considerado o deus desse universo, por ser o princípio antes do qual nenhuma lei do jogo existia.

Agora, suponhamos duas pessoas que fazem um curso de programação com o antigo staff da Sonic Team, e têm, um dia, aula de como criar o jogo do exemplo. Admitindo que ambos se empenhem e aprendam igualmente bem, é de se supor que o resultado da lição de casa sejam dois jogos iguais ao modelo. Assim, cada um se torna o deus de sua versão, embora os universos, suas leis e elementos sejam fundamentalmente os mesmos. Então, mais importante que o programador é a programação. Não sei quem definiu nossa equação determinista, e este bem poderia ser o Deus material em que acreditam, mas poderia ser um de seus alunos, ou um outro programa programado para nos programar. Mas a equação está aí, presente em todas as causas e consequências desde o princípio, sendo que nada existia antes dela e senão por ela, dando-lhe a onipotência, onisciência e onipresença que um nume deve ter, e que me satisfaz para assumir o papel divino. Aí veio a Filosofia e me chamou de panteísta. Mas tudo bem; Einstein também o era.

E eis que expus minhas convicções teológicas, e agora sabem porque respondo que sou um determinista deísta panteísta quando acham que sou um enviado do tinhoso. Enquanto estudava para redigir esse texto, descobri que podia fundir os dois últimos termos em pandeísta, mas a imediata referência sonora aos fofos guaxinins me inibe um pouco de assumir o título. Restam ainda as consequências dessas crenças, mas um texto desse tamanho sobre um assunto tão indigesto e sem pretensão de gerar discussões já merece um ponto final após o agradecimento a quem chegou até aqui. Obrigado.

André



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