Burrofobia

Para que nunca mais se perca.

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“Tenho preconceito com gente burra. Quer dizer, não sei se é preconceito. Não sou um burrófobo, sabe?, que nem as pessoas me chamam. Tenho inclusive uns conhecidos burros. Não os chamo de amigos, porque sabe como é, né? O pessoal comenta. Vai que achem que eu também sou burro? Deus me livre! Mas nada contra! Só não gosto perto de mim. Tem burro que dá muita pinta, sabe? Tem que ficar mostrando suas burrices por aí. Cada um sabe de si, mas não podiam ser burros mais discretos, no canto deles? Porque é escolha deles, né?, então perto da gente podiam escolher, ou fingir, pelo menos, não ser tão burros. Às vezes acho que é da criação, sabe? Mas aí penso “que pais iam querer que seus filhos fossem burros?”. Eu, se tivesse um filho ou uma filha burros, mandava pra fora de casa, mesmo amando muito! Claro, ia tentar curá-los antes, fazer o possível para não serem tão burros. Mas cada um é cada um, né?”

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André

Paganismo racional

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos) o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança?

Continuando a abordagem desendeusadora da ciência, gostamos de olhar para trás com escárnio das formas antigas de se explicarem as coisas. Como um trovão pode ser fruto da ira de Júpiter, do martelo de Thor ou da voz de Tupã quando sabemos que é apenas o barulho do ar deslocado por um relâmpago, que nada mais é do que um fenômeno elétrico? Podemos até usar o tratamento matemático Kratosiano (quem melhor que cálculos para matar deuses?) e fazer um monte de contas para saber à qual distância o raio aconteceu, com base no Δt entre o clarão e o barulho, certo?

Aliás, o conforto mental de se quantificar ou entender as coisas passa a falsa sensação de que temos algum tipo de controle sobre elas. Saber o quão longe estava um raio depois que ele cai não me impede de ser frito por um próximo. “Mas com a ciência conseguimos inventar o para-raios, que nos protege.” Sim, concordo, e não tiro o mérito das melhorias científicas, em absoluto. Mas estamos longe de controlar grandes fenômenos da natureza: vulcões, enchentes, terremotos, tsunamis, furacões, tornados, manchas solares… exemplos drásticos que, quando a Mãe Natura os invoca, contam-se as vítimas às centenas. Conseguimos, no máximo, alertas de fuga, que nada mais são que profecias apocalípticas às quais damos ouvidos.

E, mesmo entendendo COMO muitas coisas acontecem, nunca saberemos QUEM as realiza, se há alguém. E se a diferença de potencial elétrica entre nuvens, ou entre uma nuvem e o solo, é a forma que o Cronida têm de lançar seu corisco raivoso? E se o movimento de placas tectônicas é a forma que Atlas encontrou para que Njord pudesse surfar quando a Jaci não puxava ondas boas o bastante? E se doenças são o resultado de milhões de anos de experimentação da Peste em arrebanhar mais gente para o Averno? E se Caim, até então o quarto humano, continuou a linhagem ao cruzar com outra símia hominídea, suficientemente próxima geneticamente, em uma evolução convergente?

Se quem me lê ainda insistir na capacidade científica de previsão e adaptação, ainda que limitada, voltemos ao início: e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança? Quando rimos de uma tribo que faz dança da chuva para invocar água (parênteses, até governantes já pararam de rir, fecha parênteses) por achar que basta a pulverização de nuvens com sal para iniciar a precipitação, esquecemos do mais amplo: se tem uma coisa que um deus tem, é tempo. E com o tempo vem o tédio. Novidades científicas não poderiam estimulá-los a nos dar o que desejamos?

O ritual de criar um avião, destilar a água para se obter cloreto de sódio, subir às alturas, encontrar uma nuvem e fazer a oferenda do sal não pode ser encarado como uma prece que agrada mais à entidade do que a monótona dança no solo, e por isso mesmo mais atendida, inclusive com repetibilidade? E se o ritual de ir a um médico, pegar uma prescrição de antibiótico, tomá-lo três vezes ao dia, durante sete dias (3 e 7, sério?), com aguinha para descer e, para os mais fanáticos, com o sacrifício da abstenção de álcool, é o cântico de súplicas que apaziguam Sekhmet? E se a resistência bacteriana a esses medicamentos não é simplesmente a forma progressiva dessa deusa evitar o tédio, nos forçando a novas mandingas, paper após paper?

Não há como saber. Não acreditar em um “quem” torna-se tão irracional quanto acreditar e, por isso, ao mesmo tempo crer é tão racional quanto descrer. E se você sentindo tanto incômodo ao ler isso se dever à invocação de Éris contida nessas linhas? Não há como saber.

André

Fundamentalismo científico

“Aí eu penso que tem gente que acredita tanto na ciência que mais parecem fundamentalistas de papers sagrados.”

Não que eu não goste da ciência; formei-me cientista, e por muito tempo sonhei em trilhar os caminhos da glória acadêmica, até que não mais, embora ainda viva de suas aplicações de forma bem direta. É um modelo, um bastante eficiente, para explicar situações da natureza e propor formas de intervir nelas. Mas ainda um modelo, que segue a proposição básica de “tudo se passa como se acontecesse desse jeito aqui”, mas não necessariamente, menos ainda absolutamente, as coisas acontecem do jeito pregado.

É como um sujeito que cai do alto de um prédio: um modelo vetorial diz que a força gravitacional acelera o infeliz até o chão, enquanto um modelo escalar diz que ele partiu de um estágio de maior potencial gravitacional para um menor. Dentro da própria ciência, dois modelos explicam seu desfecho de modos distintos, sem que, no entanto, isso importe para o caído no segundo em que ele toca o chão.

Mas os defensores de um ou de outro costumam dar as mãos para atacar modelos que não os científicos, geralmente com alegações que giram em torno da capacidade de se provar. Eis aí a pedra de fé científica, o Santo Graal dos laboratórios, o nirvana da papercracia: a prova, um deus que se manifesta de diversas formas, qualitativas (como bandas em gel ou detecções radioativas) e quantitativas (c.q.d.’s e p<0,05’s), capaz de levar seus fiéis a defender todo tipo de informação que os profetas autores (ou autores profetas?) publicam. E, como em qualquer outra fé, quando alguns profetas querem que seu deus diga uma coisa, seus oráculos vão encontrar um jeito de dizê-la, ainda que criando contradições no fluxo do tempo. E assim temos artigos que crucificam o ovo em uma cesta, para ressuscitá-lo divinamente com estudos de coorte ao terceiro dia.

Este não é um texto para ser usado por aí em defesa da religião, veja bem. Consigo imaginar outros tipos de fanáticos de alguma crença excitados com a ideia do “tá vendo? isso só acontece porque meu deus quer!” que não sai (nem sairá) da minha boca, com a mesma facilidade com que vejo colegas cientistas me acusando de heresia. Se a lógica normalmente me seduz, reconheço que falácias e induções podem corromper a compreensão de seres imperfeitos, eu incluso. E isso facilmente poderia gerar o alento de “ah, a ciência é a verdadeira fé, são alguns que a corrompem”, discurso que vemos amplamente por aí em outros setores, e com o qual concordo.

Fato é que, se as descobertas científicas nos ajudam, ao mesmo tempo são norteadas pelo desejo de fama e riqueza. No limite, ou você quer um Nobel, ou quer enriquecer com uma patente. Provavelmente os dois. Pouco provável que se aventurou nisso porque perdeu o sono ao não entender como aquela chaperona influenciava na ativação de complemento pela via clássica em gnus sadios criados no Estado de Sergipe. Nada de errado, considerando que pesquisadores são profissionais, e devem ter ambições como tais.

Mas a ciência em si não é um fim, e sim um meio, diferente do que pregam em muitas fés, com suas deidades sendo a busca fundamental. Por isso, não é sadio que a prepotência científica seja tão xiita quando tudo o que consegue dizer é “era isso” (confirma H0) ou “não posso dizer que era isso” (rejeita H0, o que é muito diferente de afirmar “não é isso”).

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos)… e se eu parar aqui e continuar em outro post?

André

Burocrata literário

Há alguns anos, em 2009, precisamente, li este texto do Drummond em um momento rico das minhas produções escritas. Mas perdi o acesso a ele, só encontrando-o novamente hoje, neste blog. Caso o dono da página resolva tirar o texto do ar, compilo-o aqui.

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A Rotina e a Quimera

Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevendo literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionalização do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo, tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é imposta. Se não escrever no espaço de tempo destinado à produção de ofícios, escreverá na hora do sono ou da comida, escreverá debaixo do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem papel – no interior do próprio cérebro, como poetas prisioneiros da última guerra, que voltaram ao soneto como uma forma que por si mesma grava na memória.

E por que se maldizia tanto o literato-funcionário? Porque desperdiçava os minutos de seu dia, reservados aos interesses da nação, no trato de quimeras pessoais. A nação pagava-lhe para estudar papéis obscuros e emaranhados, ordenar casos difíceis, promover medidas úteis, ouvir com benignidade as “partes”. Em vez disso, nosso poeta afinava a lira, nosso romancista convocava suas personagens, e toca a povoar o papel da repartição com palavras, figuras e abstrações que em nada adiantam à sorte do público.

É bem verdade que esse público, logo em seguida, ia consolar-se de suas penas na trova do poeta ou no mundo imaginado pelo ficcionista. Mas, sem gratidão especial ao autor, ou talvez separando neste o artista rond-de-cuir [burocrata], para estimar o primeiro sem reabilitar o segundo.

O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este determina aquele. O emprego do Estado concede com que viver de ordinário sem folga, e essa é condição ideal para om número de espíritos: certa mediania que elimina os cuidados imediatos, porém não abre perspectiva de ócio absoluto. O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir na mediocridade de uma vida que não conhece a fome e nem o fausto: sente o peso dos regulamentos, que lhe compete observar ou fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos objetos naturais, como uma cortina parda. É então que intervém a imaginação criadora, para fazer desse papel precisamente o veículo de fuga, sorte de tapete mágico, em que o funcionário embarca, arrebatando consigo a doce ou amarga invenção, que irá maravilhar outros indivíduos, igualmente prisioneiros de outras rotinas, por este vasto mundo de obrigações não escolhidas.

Retire-se tal rotina ao temperamento literário a que me reporto, e cessará sua veia criadora. Instalado confortavelmente num escritório de capitão de indústria, já não se produzirá essa inconformidade entre o real e o individual, que tantas vezes gera a obra de arte. As forças de ação aplicam-se ao objeto imediato, e o homem fabricará as coisas de uso cotidiano, planejará a competição nos mercados, desprezará tanto o ofício das letras como as frágeis produções de seus oficiais.

Cortem-se os víveres ao mesmo temperamento, e as questões de subsistência imediata, sobrelevando a quaisquer outras, igualmente lhe extinguirão o sopro mágico. Há, é claro, os exemplares da boêmia ou da miséria fecunda, que nos legaram obras imperecíveis. Mas aqui se trata de certo tipo de criador literário, aquele que não ama velejar por mares lendários nem ancorar à sombra do botequim: o escrito homem-comum, despido de qualquer romantismo, sujeito a distúrbios abdominais, em geral preso à vida civil pelos laços do matrimônio, cauteloso, tímido, delicado. A organização burocrática situa-o, protege-o, melancoliza-o e inspira-o.

Observa-se que quase toda a literatura brasileira, no passado como no presente, é literatura de funcionários públicos. Nossa figura máxima, aquela que podemos mostrar ao mundo como a que mais e desenganadamente aprofundou entre nós os negócios do coração humano, foi o diretor-geral de contabilidade do Ministério da Viação, Machado de Assis; e nas suas mãos, como lembra a sra. Lúcia Miguel Pereira: “a pena de burocrata não foi menos tocante instrumento de trabalho, nem menor penhor de independência e dignidade do que a ferramenta de operário nas de Spinoza”.

Raul Pompeia, diretor de estatística do Diário Oficial e da Biblioteca Nacional; Olavo Bilac, inspetor escolar no Rio; Alberto de Oliveira, diretor de instrução no estado do Rio, como também o foram José Veríssimo e Franklin Távora, respectivamente no Pará e em Pernambuco; Aluísio Azevedo, oficial-maior no estado do Rio e cônsul; Araújo Porto-Alegre, cônsul; Mário de Alencar, diretor de biblioteca na Câmara; Mário Pederneiras, taquígrafo no Senado; Gonzaga Duque, oficial da Fazenda na prefeitura do Rio; B. Lopes, empregado nos Correios, como Hermes Fontes; Ronald de Carvalho, praticante de secretaria e depois oficial do Itamaraty; Coelho Neto, diretor de Justiça no estado do Rio; Humberto de Campos, inspetor federal de ensino; João Ribeiro e Capistrano de Abreu, oficiais da Biblioteca Nacional; Guimarães Passos, arquivista da mordomia da Casa Imperial; Augusto de Lima, diretor do arquivo público de Minas; Araripe Júnior, oficial do Ministério do Império; Emílio de Menezes, funcionário do recenseamento, Raimundo Correia, diretor de Finanças do governo mineiro em Ouro Preto; Luís Carlos Pereira e Silva, da Central do Brasil; Ramiz Galvão e Constâncio Alves, respectivamente diretor e chefe de seção da Biblioteca Nacional; José de Alencar, diretor e consultor da Secretaria de Justiça; Farias Brito, secretário de governo no Ceará; Lúcio de Mendonça , delegado de instrução pública em Campanha; Manuel Antônio de Almeida, administrador da Tipografia Nacional e oficial da Secretaria da Fazenda; Lima Barreto, oficial da secretaria da Guerra (escrevia romances nas costas do papel almaço, usado, da repartição); João Alphonsos, funcionário da Secretaria das Finanças em Minas; o grande Gonçalves Dias, oficial da Secretaria de Estrangeiros… Mas seriam páginas e páginas de nomes, atestando o que as letras devem à burocracia, e como esta se engrandece com as letras, mesmo através de contato fortuito, como foi o caso de alguns exemplos citados sem método.

Sem método, escrevo tais coisas pensando nos poetas, nos contistas, nos ensaístas que a esta hora ainda não sabem o que o são, e lentamente se elaboram na Diretoria de Águas, no lapse, na Divisão de Fomento da Produção Vegetal. Há que contar com eles, para que prossiga entre nós certa tradição meditativa e irônica, certo jeito entre desencantado e piedoso de ver, interpretar e contar os homens, as ações que eles praticam, suas dores amorosas e suas aspirações profundas – o que talvez só um escritor-funcionário, ou um funcionário-escritor, seja capaz de oferecer-nos, ele que constrói, sob a proteção da Ordem Burocrática, o seu edifício de nuvens, como um louco manso e subvencionado.”

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André

A casa de Matacavalos

Tenho mais redes sociais do que dou conta de administrar. Aliás, mais do que dou conta de lembrar. Aliás, mais contas do que só redes sociais: onde há uma ficha de inscrição gratuita na internet, há boas chances de um milordandy estar cadastrado em meu nome.

Talvez eu seja um pouco early adopter, não fanático por contar vantagem delas, mas pelo experimentalismo. Se a conta vai vingar ou não, depende muito da sua usabilidade em função do momento em que vivo no ato da assinatura. No caso das redes sociais, ainda, depende de ter um círculo social nelas com que possa conviver para testar suas ferramentas.

Nessa semana, descobri a Alvanista, uma rede social brasileira voltada para o mundo dos games. Encontrei-a depois de pensar que seria muito legal uma rede de jogos nos moldes do que a Skoob é para os livros, para poder marcar o que já joguei, o que terminei, o que tenho e tive, e ter amigos para poder comparar as marcações e tal.

Além da mecânica, as duas redes ainda são muito parecidas em outro aspecto: são menos imediatistas, e mais baseadas no passado do usuário. Claro, eu postei que estou a ler A Tormenta de Espadas e que quero jogar Assassin’s Creed, mas a frequência com que uma ação presente ou futura pode aparecer na timeline é muito menos intensa do que contar “o que está pensando” ou mostrar tudo o que se come em fotos sépia.

E como mexer no passado com ferramentas tecnológicas atuais cutuca o saudosismo direto no centro da recompensa, né? Quero conhecer novas pessoas no Alvanista e usá-lo como minha fonte de informações para novidades e tomada de decisões sobre jogos, sim, mas, mais que tudo, eu me descubro ansioso para que as pessoas com quem cresci jogando (horas a fio!!) participem da rede comigo!

“Por quê?”, minha racionalidade me indaga com seu fervor por causalidade. Minha convivência com essas pessoas não deve se alterar por nos esbarrarmos nos assuntos comuns tão caros a nós outrora (com algumas mantenho contato frequente e de corpo presente). Mas ver numa outra timeline o mesmo Mortal Kombat que eu marquei na minha dá a sensação da metonímia que aprendi naquela época: o jogo da franquia pelo cartucho de casa.

“Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.” Sinto falta daqueles tempos. Não queria, entretanto, revivê-los. Talvez apenas que aqueles aspectos bons da jogatina pudessem se fazer mais presentes, durante conversas de autoanálise ou ajuda aos convivas, ou mesmo de amenidades inertes, tudo atualizado aos temas atuais. Queria, em suma, usufruir mais das minhas amizades de sempre, pois que me consolo de menos desse tipo de perda.

Se as capas dos jogos estampados nas paredes virtuais não alcançam reconstituir-me os idos tempos, que pegar da pena possa incitar os amigos a recriar a ilusão.

André

Que trata de viagens, metafísica, espiritismo, Matrix, Mundo de Sofia, Lobsang Rampa, “e se”‘s e dá outras providências

Não sou a pessoa mais espiritualizada do mundo, mas gosto de aprender a dinâmica das crenças das pessoas. Quando não acrescenta mais nada, pelo menos serve de base para algum tipo de humor. Por exemplo, não existe maior pagão que um bom católico: ele trata imagens como se fossem as próprias entidades celestinas nas quais acredita (ou alguém realmente já parou pra pensar que o @SantoAntônioOficial, o lá de cima, não deve passar frio nem se afogar quando as solteironas inconformadas castigam suas estatuetas?), faz sinais, entoa mantras, acende velas, negocia sacrifícios e ritualiza um canibalismo do seu salvador (comer o corpo e beber o sangue? really?!).

Fora os símbolos: por que tanta gente usa brincos, anéis, pingentes, piercings, tatuagens etc. da cruz?! “A cruz é pra nos lembrar do sacrifício que Ele fez por nós.” Sim, isso eu entendo, e consigo entender as orações contritas perante o Big T, a cruzinha na ponta do terço ou rosário e por aí vai. Mas e os adornos, pelamor? Conseguem imaginar afrodescendentes ostentando grilhões de ouro nos pulsos para se lembrarem dos antepassados que sofreram com escravidão, ou judeus com brincos em forma de Auschwitz 18k cravejados nas baladas, em memória da perseguição de sua fé? É mais ou menos do mesmo jeito que eu, aqui de fora, enxergo. Mas divago…

Aliás, a razão de eu começar a escrever esse post está muito mais relacionada à divagação do que ao humor, o que já deve aliviar os leitores que perceberam por que não me aventuro no mundo dos stand-ups. Então, voltando à ideia de que não sou uma pessoa de grande fé, começo colocando um grande “E se…?” ao assumir a ideia espírita – espiritismo geral, sem rixa sobre se é da umbanda, do candomblé, do budismo, do hinduísmo, do Alan Kardeck, do David Luiz ou de quem for – de que um espírito continua a viver depois que o corpo morre. Acrescento ainda a justificativa dada de que a entidade faz isso porque precisa “evoluir” ou o termo que for que defina uma melhora progressiva de sua existência, reencarnando quantas vezes for necessário até que atinja o nível de XP para passar a um outro plano.

Considerando isso, por que então eles se dão ao trabalho de interagir conosco, ajudando ou atrapalhando? Se for mesmo parte do processo de aprendizado do “lado de lá”, como uma lista de tarefas e preparações de terreno antes de terem que voltar pra campanha terrestre, fico com mais dúvidas do que respostas. Primeiro: se existe essa sucessão de planos, inúmeros de onde viemos e inúmeros para onde vamos, não é petulância antropocêntrica demais achar que estamos no único ponto em que, para a evolução, é possível esse intercâmbio de informações, como galinha e cachaça pela pessoa amada?

Se sim, será razoável pensar que no além-vida as almas também recebam relacionamentos das instâncias superiores? Mais importante, então cadê nossas conversas com os estágios anteriores? E se elas já acontecem, dia após dia, minuto após minuto? E se, cada vez que criamos uma história, damos vida a seres, majores Knag de suas Sofias? Ou, cada vez que interagimos com uma história, por exemplo criticando e cobrando o andamento de uma novela ou série ou desenho, o espírito dos personagens é influenciado por encostos de audiência? Ou, na metafísica de minha fé, jogos e outras programações constantemente sofrem as oscilações de nossos humores olímpicos, matando o Mario para pegar um cogumelo ou alterando a sequência das próximas músicas do setlist no iTunes?

Se algo disso tudo fizer algum sentido, voltemos aos nossos orixás, espíritos de luz e oráculos: será que eles têm consciência do que fazem com a gente? Isso explicaria porque, às vezes, as mensagens carecem de clareza. A menos que, claro, … e se eu viajei demais?

André

Exército – uma opinião

(Caso a ditadura volte um dia, espero ter tempo suficiente para tirar esse post do ar, caso contrário estarei bem ferrado.)

Em tempos de sufrágio, todo mundo é um pouco cientista político, economista, gestor público e adivinho. Eu não escapo à regra, e aproveito o contexto para expressar uma singela opinião sobre o que é, ao meu ver, um dos maiores desperdícios de dinheiro público que temos: o Exército. Digo exército, mas quero dizer as Forças Armadas como um todo, com a marinha e a aeronáutica no pacote.

Em primeiro lugar, temos um Ministério da Defesa, e não um Ministério da Guerra ou um Ministério do Ataque, o que permite supor que os milicos estão aí não para tomar a dianteira em questões geopolíticas, mas sim para manter a paz contra agressões externas. Não obstante, vira e mexe lá se vão os verdinhos para ajudar algum outro país. Não nego a benevolência da ajuda humanitária; ao contrário, acredito que a solidariedade é imprescindível para consertar um pouco do tanto que esse mundão tem de errado. Só acho que um fuzil não é o melhor jeito de socorrer famílias devastadas por terremotos, tsunamis, vulcões e outros flagelos olimpianos. Só falando…

Depois, e isso vem de morar perto de um quartel e acordar aos sustos nos finais de semana com frases ininteligíveis repetidas por um grandão e por grupos de educandos físicos, como “Ei-dou-rei-rei! – EI-DOU-REI-REI! – Nãrudãru-berei! – NÃRUDÃRU-BEREI! – Brasil!! – BRASIL!! – Brasil!! – BRASIL!!”, o que diabos eles estão fazendo aqui?!! O Ministério não é da Defesa? Contra o que eles estão nos defendendo aqui neste fim de mundo?!! Alguns certamente irão argumentar “Oras, eles estão treinando, para o dia que o inimigo vier.” Pelo tanto que vejo esse pessoal correndo, só posso dizer que, num caso de invasão, não tem ninguém mais preparado para fugir do que esses recos magrelos.

E aí você percebe como eles estão espalhados pelas cidades, e isso preocupa. Raciocinemos: se eles devem impedir invasões, por onde seríamos invadidos? Pelos vizinhos, temos as fronteiras terrestres. Por água, as fronteiras marítimas. Pelo ar, vão ter que passar pelas projeções dos outros dois, a menos que seja uma invasão alienígena (fosse o caso, convenhamos: não teríamos a menor chance). Então, melhor seria pegar todo (TODO) esse contingente e espalhar pelas fronteiras. Nas terrestres, o Exército. Nas marítimas, a Marinha. E a Aeronáutica sobrevoando ambas com um auxílio dinâmico de reconhecimento e inteligência. A Marinha e o Exército podem ainda se apoiar na monitoração fluvial da bacia do Amazonas, e outras de interesse estratégico, como locais de usinas. Podem montar postos próximos a plataformas petrolíferas e outras matrizes energéticas. Podem até ter uma guaritinha em Brasília, pela simbologia de defender o centro da União.

Que firmem parcerias com o Ministério da Agricultura, a Receita e a Polícia Federal e o Itamaraty, garantindo segurança na entrada de pessoas, animais e produtos, e prevenindo (ou defendendo de) entrada de drogas, armas, doenças e recursos humanos do crime. Que levem todos os selecionados do alistamento militar obrigatório para treinar nesses locais úteis; eles seriam convocados mesmo se surgisse uma crise. Aqueles alguns lá de cima podem ainda dizer “Mas e nas favelas do Rio? O exército foi importante na vitória contra o tráfico!” Sério que você quer um tanque de guerra passando na sua rua para se sentir protegido? Isso não é só um reflexo do fracasso do sistema policial, que deve ser o único a proteger a segurança pública nos tempos de paz?

Nosso país é gigantesco, vão ter trabalho suficiente para se entreter enquanto nos defendem. A menos que a preocupação seja mesmo estar no meio da população, para SE protegerem. Do povo. De novo.

André


Bombou por aqui


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