Empatia de Arrhenius e de Brönsted-Lowry

Uma pessoa tem um problema. É legal da sua parte, até para não piorar a situação, que tenha empatia suficiente para entender como ela se sente. Se puder ter a compaixão para ser movido a fazer algo para melhorar, ou pelo menos amenizar, tanto melhor. Mas e quando você também tem um problema?

Muitos conflitos se dão quando perrengues mútuos se encontram e não partilham de uma solução comum que levaria seus donos e donas a trabalharem juntos. Na disputa para ver quem se lascou mais, frases como “Mas só eu tenho que entender os outros, e quem me entende?” são comuns, até pelo senso de autopreservação. Normalmente, uma das partes acaba cedendo, ainda que temporariamente, para sanar a outra questão, e então focar na sua. Mas quais critérios são válidos para definir quem cede primeiro?

O primeiro deles, curiosamente, não é a importância dos dilemas, mas sim a capacidade de se doar, a popular bondade, se preferirem. Há pessoas que sempre se deixam de lado para ajudar outras, não importa quais os problemas envolvidos. Sua compaixão abunda, e elas não hesitam em se anular, de onde não gosto de chamar isso de bondade, se elas podem até se prejudicar.

Em segundo, aí sim, a importância de cada problema envolvido. Não vou reclamar da minha unha encravada, embora possa ser um martírio, para quem acabou de ter a perna amputada. “Pelo menos você não tem mais dedão pra doer como o meu” pode parecer uma boa piada de humor negro, mas em uma situação real é um enorme atrativo para levar a perna restante no meio dos dentes.

E, para todas as situações em que essas duas não se aplicam, mas o relacionamento com a outra desafortunada pessoa importa o bastante para não morrer no conflito, resta o carma do melhor entendimento. Veja bem, a empatia que eu cito no início do texto, a capacidade de entender os sentimentos alheios e se colocar no lugar deles, é uma empatia absoluta. Você deve cultivá-la, e seu interlocutor ou interlocutora também. Muitas vezes podem até cair no segundo argumento, com um entendendo que a aflição do outro tem alguma prioridade sobre a sua. A esse tipo absoluto chamei de empatia de Arrhenius, em analogia direta aos conceitos químicos de ácidos.

Expandindo a analogia, há a empatia de Brönsted-Lowry, para a qual, considerando dois indivíduos, um será melhor entendedor que o outro, ainda que o outro também possa entender os sentimentos do um em algum grau. O empático de Brönsted-Lowry, o ácido, tem a responsabilidade (daí o carma) de doar seu entendimento para aliviar as mágoas da base. Uma vez melhor, mais calma e mais feliz, a outra pessoa há de ter seu entendimento melhorado, podendo inverter o sentido da ajuda, tal qual acontece com a reversibilidade dos pares conjugados.

Trata-se da expressão inglesa da bigger person, a maior pessoa, aquela que pode ser mais grandiosa moralmente num dado momento. Para os humanoides, eu poderia usar a analogia econômica das vantagens absolutas de Adam Smith e das vantagens comparativas de David Ricardo. Mas ainda acho a aproximação exatoide mais legal, até para diminuir os traumas que as pessoas têm da escola.

André

Reflexões Fezenistas I – dos aparadores

Toda vez que vejo uma alteração no tamanho do papel higiênico sou tomado por uma aflição.

Eu sei quanto é um metro – não é aquela sensação de analfabetismo como se as medidas viessem em pés e polegadas – mas não sei o quanto isso influi na utilidade perdida do produto. Os reguladores das relações de consumo até instituíram que a porcentagem alterada deva ser expressa na embalagem, podendo extrapolar que o uso diminua na mesma proporção, mas a ideia de “Quanto a menos posso cagar com este rolo?” ainda lateja.

Não seria melhor, por exemplo, se o tamanho do rolo viesse expresso em número de cagadas? Os senhores argumentarão, evidentemente, que cada merda é uma merda, que algumas exigem mais papel, e algumas menos, e que nem é algo linear para se medir – se uma cagamerdeira for muito intensa, posso dispensar o Alfredo e ir direto para o banho.

Não discordo. Mas, tal qual um pasto é uma oferta limitada de alimento para o gado e os animais lá colocados podem diferir na ingestão de acordo com seu tamanho e com a qualidade do capim, e a conclusão para isso foi a adoção da capacidade de unidades animais (UA) por área como medida de lotação, da mesma forma a utilidade dos rolos de papel higiênico poderia ser expressa em unidades fecais (UF), unidade ainda a ser definida por estudos qualitativos (textura e umidade, talvez aderência) e quantitativos.

Aí, quando eu me deparasse com um produto que confessasse uma “redução de x UF” (com sua porcentagem em seguida, obviamente), minha aflição se extinguiria… Talvez UB (unidades bostais), caso siglas homônimas se incomodassem com sua xará… não sei.

André

À sinistra

Não me perguntem como, mas há algum tempo me descobri com pensamentos novos. Também não me perguntem quando; não consigo nem precisar algum marco para chamar de histórico e eleger como uma data de mudança. Não foi um despertar, uma situação de estar alheio para, então, um belo dia, querer me posicionar de alguma forma: tinha opiniões pensadas e embasadas, só que opostas. Aliás, o título me veio a posteriori, com certa surpresa. Pensei, pensei, pensei, vi como me sentia, e depois descobri que tinha nome para isso. Sim, eu simpatizo com a esquerda.

Mas este não é mais um post de mais um blog esquerdista comunista marxista chavista cubano que vai tentar te convencer a abandonar a direita golpista coxinha por um mundo cor-de-rosas vermelhas. Eles nunca conseguiram ME convencer, nos destros tempos, não espero que façam melhor trabalho com outros.

Então, dedico essas linhas aos (todos os gêneros subentendidos, ou o texto ficará ainda mais cansativo pelos (a)/(as) de palavra em palavra, ok?) porta-vozes das implementações de melhoria de qualidade de vida, daquelas mudanças que podem fazer as pessoas se parecerem, não física mas socialmente, com suecos e noruegueses, e não com nortecoreanos e chineses, em uma situação de desigualdade menor.

Falo a esquerdistas como um ex-direitista. Primeiro, acredito que, quando promovem suas ideias, não só queiram aprovação dentro do seu grupo, com quem sempre encontram ressonância, mas esperam que outras pessoas entendam as boas coisas que vocês enxergam como importantes para que reforcem a necessidade de mudança. Neutros, sim, claro. Mas, se puderem converter o pessoal da direita, defensor das ideias opostas e ofensor das suas, melhor ainda. Questão de estratégia: se um adversário forte comprar a sua causa, essa força passa a ser usada em seu benefício.

Não faço ideia de como atingi-los. Como eu disse, nem sei o que foi que me fez pensar que reduzir a desigualdade é o melhor jeito de melhorar as coisas como um todo. Mas sei bem como NÃO atingi-los: é só me lembrar de tudo que me causava aversão enquanto coxinha, quando nem se usava esse termo para isso (coxinha era, na época, o jeito de falar da PM). E a principal forma, juro, é pelo discurso.

Acreditem, uma parcela importante da galera que bate panelas não é fria e indiferente aos problemas das pessoas e não acha que suas posses vão valer menos se outros também adquirirem seus exemplares. Claro que os mesquinhos existem e abundam, mas vocês realmente acham que o problema deles é falta de visão política? Então, pensando em quem vale ser pensado, creiam quando eu digo que o discurso clássico da esquerda afugenta, e “quiçá” converte ao outro lado, muitas pessoas que poderiam entender melhor a complicada rede do “sistema”.

Não tenho formação retórica, não sou nenhum líder nato ou de mérito, mas posso tentar ajudar ao mostrar alguns termos muito usados que fecham automaticamente os ouvidos de não simpatizantes, que, convenhamos, são quem importa, já que os demais já pensam igual aos locutores.

Metáforas – minha idolatrada professora de Português vai querer morrer, ou me matar, se chegar a ler isso. Mas, embora um recurso estético muito importante na produção literária, o saturado uso de figurações para descrever principalmente o lado contrário impregna as frases de parcialidade e subjetividade, coisas que, segundo me lembro das aulas de redação dissertativa, enfraquecem o poder argumentativo por fazer o ouvinte ou leitor pensar que não se trata de uma verdade, mas apenas da sua opinião, que não vale mais do que a dele. Então, quando o Suflê de Chuchu der entrevista à Toda-Poderosa defendendo o Playboy Cheirador para delírio dos coxinhas, maneirem a veia poética;

Sistema – uma entidade poderosa, complexa e pouco palpável a ser melhorada existe, mas tratá-la assim é dar-lhe os ares de ficção científica da Matrix, bastante indigesta para quem já não é fã do modelo;

Mídia / midiática – essa é difícil, pois é trabalhoso se referir aos principais canais de comunicação, muitos alinhados (aliás, incluam “alinhados”) aos pensamentos conservadores (aliás, incluam “conservadores”). Mas nosso idioma tem mais de 400.000 palavras, há de existir outras que façam o serviço. Acho que “imprensa” passa, mas usem com moderação;

Golpista – quando uma fração do povo acha que é a esquerda que quer dar um golpe e transformar o Brasil em uma ditadura comunista stalinista chavista gayzista, usar a mesma palavra para o outro lado só é interpretado como um “mãe, ele que começou!”;

Luta – a saturação desse termo é mais culpa do Marx, ou melhor, de todos que nos falaram sobre Marx até hoje. Se você fala “luta”, o “de classes” já vem automático na cabeça, em letras garrafais e vermelhas. É claro que essa divergência entre estratos da população existe, sempre existiu, e há boas chances de que continue existindo de alguma forma, mas usar a palavra de violência sem o “jogos de” antes já desperta todo o preconceito político do ouvinte;

Blindagem – termo de sentido abstrato, quando não usado nos veículos policiais de contenção. Geralmente associado à “mídia”, é usado para denunciar a parcialidade de reportagens quando elas não abordam tudo o que pregam abordar, como mostrar… frangos sofridos só por um goleiro de um time e não de outro, em uma matéria chamada “E agora, todos os frangos da rodada”. No exemplo, a reputação do goleiro do outro time foi blindada. Assim como os ouvidos dos interlocutores;

Fascista / nazista / autoritário / reacionário / reaça – felizmente a nossa extrema direita no Brasil é hoje tão fraca e patética como a extrema esquerda. Esse “extrema” denota uma perda de liberdade à base de violência muito grande. Nem Hitler, nem Stalin, nem Mao, nem Costa e Silva. Quando acusam de uns, são ouvidos como os outros automaticamente;

Trocadilhos – outro recurso estético bastante criativo na literatura, peca no discurso pelas mesmas razões das metáforas. “Dilmais”, “Rachel Sheheranazi”, “Aécio Naves”, “Tucanistão”, “midiotas” etc. já denunciam seu envolvimento emocional, que desacredita o argumento.

Rebuscamento – muitas pessoas de esquerda são cultas e intelectuais, e deixam clara sua erudição nas suas palavras. Mas combater o analfabetismo funcional brasileiro não é tarefa que se faz armado de léxico. É como, usando o estereótipo da aversão das ciências humanas por exatas, e da afinidade daquelas pela esquerda, é como se quisessem provar um ponto para você através de funções de várias variáveis cheias de integrais duplas. Gera antipatia. Aliás, um “quiçá” lá em cima está destacado justamente por isso;

Pessoas com muito mais sensibilidade do que eu já se ligaram no aspecto caricato que jargões dão ao discurso da esquerda (ou, como gosto de pensar quando não estou afim de rótulos, do pessoal preocupado com questões sociais e igualdade), como o Marcelo Adnet com seu quadro do militante revoltado no programa Tá no Ar: a TV na TV.

Não consegui incorporar o vídeo, mas fica um link aqui.

Não consegui incorporar o vídeo, mas fica um link aqui para vê-lo na Rede “Gloebbels”.

Claro que o lado direito também é cheio de jargões contra a esquerda (nos trocadilhos, tem os “petralhas”, “esquerdopata”, entre outros). Mas, da minha parte, prefiro que eles continuem sem conseguir “desesquerdar” pessoas caindo nesses mesmos erros.

Que outras palavras, frases ou expressões a mais vocês podem acrescentar? Os não simpatizantes que ainda me leem talvez estejam cheios de exemplos. Por favor, colaborem. Se a esquerda conseguir falar de uma forma mais palatável, vocês continuarão sendo livres para aceitar ou não as ideias, prometo!

André

Burrofobia

Para que nunca mais se perca.

*

“Tenho preconceito com gente burra. Quer dizer, não sei se é preconceito. Não sou um burrófobo, sabe?, que nem as pessoas me chamam. Tenho inclusive uns conhecidos burros. Não os chamo de amigos, porque sabe como é, né? O pessoal comenta. Vai que achem que eu também sou burro? Deus me livre! Mas nada contra! Só não gosto perto de mim. Tem burro que dá muita pinta, sabe? Tem que ficar mostrando suas burrices por aí. Cada um sabe de si, mas não podiam ser burros mais discretos, no canto deles? Porque é escolha deles, né?, então perto da gente podiam escolher, ou fingir, pelo menos, não ser tão burros. Às vezes acho que é da criação, sabe? Mas aí penso “que pais iam querer que seus filhos fossem burros?”. Eu, se tivesse um filho ou uma filha burros, mandava pra fora de casa, mesmo amando muito! Claro, ia tentar curá-los antes, fazer o possível para não serem tão burros. Mas cada um é cada um, né?”

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André

Paganismo racional

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos) o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança?

Continuando a abordagem desendeusadora da ciência, gostamos de olhar para trás com escárnio das formas antigas de se explicarem as coisas. Como um trovão pode ser fruto da ira de Júpiter, do martelo de Thor ou da voz de Tupã quando sabemos que é apenas o barulho do ar deslocado por um relâmpago, que nada mais é do que um fenômeno elétrico? Podemos até usar o tratamento matemático Kratosiano (quem melhor que cálculos para matar deuses?) e fazer um monte de contas para saber à qual distância o raio aconteceu, com base no Δt entre o clarão e o barulho, certo?

Aliás, o conforto mental de se quantificar ou entender as coisas passa a falsa sensação de que temos algum tipo de controle sobre elas. Saber o quão longe estava um raio depois que ele cai não me impede de ser frito por um próximo. “Mas com a ciência conseguimos inventar o para-raios, que nos protege.” Sim, concordo, e não tiro o mérito das melhorias científicas, em absoluto. Mas estamos longe de controlar grandes fenômenos da natureza: vulcões, enchentes, terremotos, tsunamis, furacões, tornados, manchas solares… exemplos drásticos que, quando a Mãe Natura os invoca, contam-se as vítimas às centenas. Conseguimos, no máximo, alertas de fuga, que nada mais são que profecias apocalípticas às quais damos ouvidos.

E, mesmo entendendo COMO muitas coisas acontecem, nunca saberemos QUEM as realiza, se há alguém. E se a diferença de potencial elétrica entre nuvens, ou entre uma nuvem e o solo, é a forma que o Cronida têm de lançar seu corisco raivoso? E se o movimento de placas tectônicas é a forma que Atlas encontrou para que Njord pudesse surfar quando a Jaci não puxava ondas boas o bastante? E se doenças são o resultado de milhões de anos de experimentação da Peste em arrebanhar mais gente para o Averno? E se Caim, até então o quarto humano, continuou a linhagem ao cruzar com outra símia hominídea, suficientemente próxima geneticamente, em uma evolução convergente?

Se quem me lê ainda insistir na capacidade científica de previsão e adaptação, ainda que limitada, voltemos ao início: e se o que a gente chama de descoberta científica não passa de uma pajelança? Quando rimos de uma tribo que faz dança da chuva para invocar água (parênteses, até governantes já pararam de rir, fecha parênteses) por achar que basta a pulverização de nuvens com sal para iniciar a precipitação, esquecemos do mais amplo: se tem uma coisa que um deus tem, é tempo. E com o tempo vem o tédio. Novidades científicas não poderiam estimulá-los a nos dar o que desejamos?

O ritual de criar um avião, destilar a água para se obter cloreto de sódio, subir às alturas, encontrar uma nuvem e fazer a oferenda do sal não pode ser encarado como uma prece que agrada mais à entidade do que a monótona dança no solo, e por isso mesmo mais atendida, inclusive com repetibilidade? E se o ritual de ir a um médico, pegar uma prescrição de antibiótico, tomá-lo três vezes ao dia, durante sete dias (3 e 7, sério?), com aguinha para descer e, para os mais fanáticos, com o sacrifício da abstenção de álcool, é o cântico de súplicas que apaziguam Sekhmet? E se a resistência bacteriana a esses medicamentos não é simplesmente a forma progressiva dessa deusa evitar o tédio, nos forçando a novas mandingas, paper após paper?

Não há como saber. Não acreditar em um “quem” torna-se tão irracional quanto acreditar e, por isso, ao mesmo tempo crer é tão racional quanto descrer. E se você sentindo tanto incômodo ao ler isso se dever à invocação de Éris contida nessas linhas? Não há como saber.

André

Fundamentalismo científico

“Aí eu penso que tem gente que acredita tanto na ciência que mais parecem fundamentalistas de papers sagrados.”

Não que eu não goste da ciência; formei-me cientista, e por muito tempo sonhei em trilhar os caminhos da glória acadêmica, até que não mais, embora ainda viva de suas aplicações de forma bem direta. É um modelo, um bastante eficiente, para explicar situações da natureza e propor formas de intervir nelas. Mas ainda um modelo, que segue a proposição básica de “tudo se passa como se acontecesse desse jeito aqui”, mas não necessariamente, menos ainda absolutamente, as coisas acontecem do jeito pregado.

É como um sujeito que cai do alto de um prédio: um modelo vetorial diz que a força gravitacional acelera o infeliz até o chão, enquanto um modelo escalar diz que ele partiu de um estágio de maior potencial gravitacional para um menor. Dentro da própria ciência, dois modelos explicam seu desfecho de modos distintos, sem que, no entanto, isso importe para o caído no segundo em que ele toca o chão.

Mas os defensores de um ou de outro costumam dar as mãos para atacar modelos que não os científicos, geralmente com alegações que giram em torno da capacidade de se provar. Eis aí a pedra de fé científica, o Santo Graal dos laboratórios, o nirvana da papercracia: a prova, um deus que se manifesta de diversas formas, qualitativas (como bandas em gel ou detecções radioativas) e quantitativas (c.q.d.’s e p<0,05’s), capaz de levar seus fiéis a defender todo tipo de informação que os profetas autores (ou autores profetas?) publicam. E, como em qualquer outra fé, quando alguns profetas querem que seu deus diga uma coisa, seus oráculos vão encontrar um jeito de dizê-la, ainda que criando contradições no fluxo do tempo. E assim temos artigos que crucificam o ovo em uma cesta, para ressuscitá-lo divinamente com estudos de coorte ao terceiro dia.

Este não é um texto para ser usado por aí em defesa da religião, veja bem. Consigo imaginar outros tipos de fanáticos de alguma crença excitados com a ideia do “tá vendo? isso só acontece porque meu deus quer!” que não sai (nem sairá) da minha boca, com a mesma facilidade com que vejo colegas cientistas me acusando de heresia. Se a lógica normalmente me seduz, reconheço que falácias e induções podem corromper a compreensão de seres imperfeitos, eu incluso. E isso facilmente poderia gerar o alento de “ah, a ciência é a verdadeira fé, são alguns que a corrompem”, discurso que vemos amplamente por aí em outros setores, e com o qual concordo.

Fato é que, se as descobertas científicas nos ajudam, ao mesmo tempo são norteadas pelo desejo de fama e riqueza. No limite, ou você quer um Nobel, ou quer enriquecer com uma patente. Provavelmente os dois. Pouco provável que se aventurou nisso porque perdeu o sono ao não entender como aquela chaperona influenciava na ativação de complemento pela via clássica em gnus sadios criados no Estado de Sergipe. Nada de errado, considerando que pesquisadores são profissionais, e devem ter ambições como tais.

Mas a ciência em si não é um fim, e sim um meio, diferente do que pregam em muitas fés, com suas deidades sendo a busca fundamental. Por isso, não é sadio que a prepotência científica seja tão xiita quando tudo o que consegue dizer é “era isso” (confirma H0) ou “não posso dizer que era isso” (rejeita H0, o que é muito diferente de afirmar “não é isso”).

E se (e nunca me foi possível misturar ciência e religião num béquer de filosofia sem muitos “e se”‘s como catalisadores anfipáticos)… e se eu parar aqui e continuar em outro post?

André

Burocrata literário

Há alguns anos, em 2009, precisamente, li este texto do Drummond em um momento rico das minhas produções escritas. Mas perdi o acesso a ele, só encontrando-o novamente hoje, neste blog. Caso o dono da página resolva tirar o texto do ar, compilo-o aqui.

*

A Rotina e a Quimera

Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevendo literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionalização do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo, tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é imposta. Se não escrever no espaço de tempo destinado à produção de ofícios, escreverá na hora do sono ou da comida, escreverá debaixo do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem papel – no interior do próprio cérebro, como poetas prisioneiros da última guerra, que voltaram ao soneto como uma forma que por si mesma grava na memória.

E por que se maldizia tanto o literato-funcionário? Porque desperdiçava os minutos de seu dia, reservados aos interesses da nação, no trato de quimeras pessoais. A nação pagava-lhe para estudar papéis obscuros e emaranhados, ordenar casos difíceis, promover medidas úteis, ouvir com benignidade as “partes”. Em vez disso, nosso poeta afinava a lira, nosso romancista convocava suas personagens, e toca a povoar o papel da repartição com palavras, figuras e abstrações que em nada adiantam à sorte do público.

É bem verdade que esse público, logo em seguida, ia consolar-se de suas penas na trova do poeta ou no mundo imaginado pelo ficcionista. Mas, sem gratidão especial ao autor, ou talvez separando neste o artista rond-de-cuir [burocrata], para estimar o primeiro sem reabilitar o segundo.

O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este determina aquele. O emprego do Estado concede com que viver de ordinário sem folga, e essa é condição ideal para om número de espíritos: certa mediania que elimina os cuidados imediatos, porém não abre perspectiva de ócio absoluto. O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir na mediocridade de uma vida que não conhece a fome e nem o fausto: sente o peso dos regulamentos, que lhe compete observar ou fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos objetos naturais, como uma cortina parda. É então que intervém a imaginação criadora, para fazer desse papel precisamente o veículo de fuga, sorte de tapete mágico, em que o funcionário embarca, arrebatando consigo a doce ou amarga invenção, que irá maravilhar outros indivíduos, igualmente prisioneiros de outras rotinas, por este vasto mundo de obrigações não escolhidas.

Retire-se tal rotina ao temperamento literário a que me reporto, e cessará sua veia criadora. Instalado confortavelmente num escritório de capitão de indústria, já não se produzirá essa inconformidade entre o real e o individual, que tantas vezes gera a obra de arte. As forças de ação aplicam-se ao objeto imediato, e o homem fabricará as coisas de uso cotidiano, planejará a competição nos mercados, desprezará tanto o ofício das letras como as frágeis produções de seus oficiais.

Cortem-se os víveres ao mesmo temperamento, e as questões de subsistência imediata, sobrelevando a quaisquer outras, igualmente lhe extinguirão o sopro mágico. Há, é claro, os exemplares da boêmia ou da miséria fecunda, que nos legaram obras imperecíveis. Mas aqui se trata de certo tipo de criador literário, aquele que não ama velejar por mares lendários nem ancorar à sombra do botequim: o escrito homem-comum, despido de qualquer romantismo, sujeito a distúrbios abdominais, em geral preso à vida civil pelos laços do matrimônio, cauteloso, tímido, delicado. A organização burocrática situa-o, protege-o, melancoliza-o e inspira-o.

Observa-se que quase toda a literatura brasileira, no passado como no presente, é literatura de funcionários públicos. Nossa figura máxima, aquela que podemos mostrar ao mundo como a que mais e desenganadamente aprofundou entre nós os negócios do coração humano, foi o diretor-geral de contabilidade do Ministério da Viação, Machado de Assis; e nas suas mãos, como lembra a sra. Lúcia Miguel Pereira: “a pena de burocrata não foi menos tocante instrumento de trabalho, nem menor penhor de independência e dignidade do que a ferramenta de operário nas de Spinoza”.

Raul Pompeia, diretor de estatística do Diário Oficial e da Biblioteca Nacional; Olavo Bilac, inspetor escolar no Rio; Alberto de Oliveira, diretor de instrução no estado do Rio, como também o foram José Veríssimo e Franklin Távora, respectivamente no Pará e em Pernambuco; Aluísio Azevedo, oficial-maior no estado do Rio e cônsul; Araújo Porto-Alegre, cônsul; Mário de Alencar, diretor de biblioteca na Câmara; Mário Pederneiras, taquígrafo no Senado; Gonzaga Duque, oficial da Fazenda na prefeitura do Rio; B. Lopes, empregado nos Correios, como Hermes Fontes; Ronald de Carvalho, praticante de secretaria e depois oficial do Itamaraty; Coelho Neto, diretor de Justiça no estado do Rio; Humberto de Campos, inspetor federal de ensino; João Ribeiro e Capistrano de Abreu, oficiais da Biblioteca Nacional; Guimarães Passos, arquivista da mordomia da Casa Imperial; Augusto de Lima, diretor do arquivo público de Minas; Araripe Júnior, oficial do Ministério do Império; Emílio de Menezes, funcionário do recenseamento, Raimundo Correia, diretor de Finanças do governo mineiro em Ouro Preto; Luís Carlos Pereira e Silva, da Central do Brasil; Ramiz Galvão e Constâncio Alves, respectivamente diretor e chefe de seção da Biblioteca Nacional; José de Alencar, diretor e consultor da Secretaria de Justiça; Farias Brito, secretário de governo no Ceará; Lúcio de Mendonça , delegado de instrução pública em Campanha; Manuel Antônio de Almeida, administrador da Tipografia Nacional e oficial da Secretaria da Fazenda; Lima Barreto, oficial da secretaria da Guerra (escrevia romances nas costas do papel almaço, usado, da repartição); João Alphonsos, funcionário da Secretaria das Finanças em Minas; o grande Gonçalves Dias, oficial da Secretaria de Estrangeiros… Mas seriam páginas e páginas de nomes, atestando o que as letras devem à burocracia, e como esta se engrandece com as letras, mesmo através de contato fortuito, como foi o caso de alguns exemplos citados sem método.

Sem método, escrevo tais coisas pensando nos poetas, nos contistas, nos ensaístas que a esta hora ainda não sabem o que o são, e lentamente se elaboram na Diretoria de Águas, no lapse, na Divisão de Fomento da Produção Vegetal. Há que contar com eles, para que prossiga entre nós certa tradição meditativa e irônica, certo jeito entre desencantado e piedoso de ver, interpretar e contar os homens, as ações que eles praticam, suas dores amorosas e suas aspirações profundas – o que talvez só um escritor-funcionário, ou um funcionário-escritor, seja capaz de oferecer-nos, ele que constrói, sob a proteção da Ordem Burocrática, o seu edifício de nuvens, como um louco manso e subvencionado.”

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André



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